Hoje é celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, a data foi escolhida uma vez que, em 28 de junho de 1969, uma ação policial de opressão foi realizada no famoso pub gay nova-iorquino, o Stonewall Inn. O estabelecimento servia como espaço pacífico de convivência das comunidades marginalizadas, que incluía gays, lésbicas, pessoas trans e drag queens.
Naquela madrugada os frequentadores decidiram reagir à violência policial, que já era recorrente, o que ficou conhecido como a “Revolta de Stonewall”. A revolta foi adquirindo maiores proporções, e assim, os protestos duraram vários dias em prol da liberdade das minorias locais.
Posteriormente, o episódio foi considerado o evento principal para a criação dos primeiros grupos ativistas em prol da luta pelos direitos LGBTQIAPN+ nos EUA do século XX. Assim, uma data tão importante e significativa não poderia passar em branco. Pensando nisso, trago uma lista com obras asiáticas que abarcam as siglas da comunidade, nos entregando diversas emoções, representatividade e luta.
LÉSBICA: Badhaai Do

Neste filme acompanhamos Sumi (Bhumi Pednekar), uma professora de educação física. Sendo uma mulher lesbica não assumida, ela sofre constante pressão por parte de sua família para se casar com um homem e formar uma família. Após um encontro frustrado, seu caminho acaba cruzando com o do policial Shardul (Rajkummar Rao), um homem gay que também sofre pressão de sua família para casar.
Sob o pretexto de se livrarem da pressão familiar Sumi e Shardul se casam. Assim, protegidos pelo matrimônio, o policial segue seu relacionamento de três anos com um estudante de PhD e a professora conhece uma mulher por quem se apaixona. Com o passar do tempo Sumi e Shardul desenvolvem uma amizade de implicâncias e provocações, mas sempre cúmplices para manter os segredos um do outro.
“Badhaai Do” é um filme de 2022, que traz diversas reflexões sobre família, machismo e maternidade, principalmente sob a realidade da sociedade indiana, algo que não nos impede de compreender a história e os personagens. A obra está disponível na Netflix.
GAY: Adeus, Minha Concubina

Lançado em 1993, sob a direção de Chen Keige, o filme se passa na China do século XX e traz a história que se desdobra entre Cheng Dieyi (Leslie Cheung) e Duan Xiaolu (Zhang Fengyi).
Ambos se conhecem ainda crianças, no local de treinamento para a famosa Ópera de Pequim e se tornam parceiros de atuação, ganhando cada vez mais notoriedade com as interpretações desempenhadas na ópera intitulada “Adeus, Minha Concubina”. A história aborda um amor trágico entre o general Xiang Yu, interpretado por Xiaolu, e a concubina Yu Ji, à qual Dieyi traz a vida. Em meio aos ensaios e interpretações dos personagens, os sentimentos de Dieyi passam a ganhar cada vez mais força, mostrando um amor que vai além da amizade, mas aparenta ser incompreendido por Xiaolu.
Junto das questões emocionais e busca pela compreensão da identidade dos personagens, o filme aborda questões históricas e as mudanças sociais e políticas na China durante o século XX, passando pela fundação da República Popular da China e até mesmo pela Revolução Chinesa, período no qual a Ópera de Pequim passou a ser fortemente reprimida. Não é à toa que virou um grande clássico, né?
BISSEXUAL: 3 Will Be Free

Um host, o herdeiro da máfia e uma fugitiva se envolvem em uma trama eletrizante. Em “3 Will Be Free” acompanhamos três jovens unidos pelo destino de forma inusitada: Neo (Joss Way-ar) é host de um bar que está sendo perseguido pelo chefe da máfia por ter dormido com sua esposa; Shin (Tay Tawan) é o herdeiro da máfia que acabou no lugar errado na hora errada (ou seria certa?); e Miw (Mild) é a gerente do bar em mais um dia de expediente.
O primeiro encontro dos três acaba com a morte de um dos integrantes da máfia e, como cúmplices, os três partem em fuga. Juntos eles encaram perigos, desafios e situações de vida ou morte, que os aproxima e os levam a explorar e descobrirem a si próprios. Num espaço onde cada um tem sua própria jornada pessoal, há apenas uma regra: os três sobreviverão. Além da trama ousada e eletrizante, “3 Will Be Free” ainda se destaca por ter o que é considerado o primeiro personagem assumidamente bisexual em uma obra tailandesa e, é claro, ter o primeiro trisal da Tailândia. Com essas temáticas o drama traz reflexões interessantes sobre sexualidade e relacionamento.
TRANSSEXUAL: Esta sou eu

Lançado neste ano pela Netflix, o filme baseado na autobiografia de Haruna Ai é, em poucas palavras, um ode à liberdade e a afirmação de si mesmo. A obra dirigida por Yusaku Matsumoto apresenta de forma visceral e sensível a trajetória da artista, uma mulher trans que passou por severo isolamento e bullying durante toda a infância, até encontrar o médico Dr. Wada. Iniciando, assim, a transformação e a continuidade da luta pela aceitação numa sociedade extremamente conservadora.
“Esta sou eu” transita bem entre momentos alegres, coloridos e de cunho cômico, com a dureza do julgamento social, principalmente quando somados à brilhante atuação do jovem ator Mochizuki Haruki, que de forma carismática e afetuosa deu vida a nossa protagonista. O filme se destaca pelo cuidado, respeito e a forma crua que representa o viver de uma pessoa trans na sociedade japonesa.
QUEER: Regras do amor na cidade grande

Lançado na Coreia do Sul em 2019, o livro “Love in the Big City”, de Sang Young Park, conta a história de Young, um jovem gay que procura felicidade na solitária capital sul-coreana. Somos assim transportados para os dilemas, desafios, encontros de almas e o amadurecimento dele ao longo da jornada em encontrar sentido na própria individualidade. Em 2024, fomos presenteados com duas adaptações: o filme e a série.
O longa-metragem foca na história de amizade entre o protagonista e sua melhor amiga, com quem ele encontra leveza numa relação de verdadeira cumplicidade, enquanto encaram a dureza e a rispidez da vida. Já a série, disponível no Viki, conta com 8 episódios que aprofundam ainda mais a narrativa, abraçando a jornada do Go Young e apresentando as dores da solidão ao lidar com questões familiares e desilusões amorosas na agitada e complexa vida em Seul. A sensibilidade e a forma crua com que o livro e a série constroem a narrativa renderam à obra grande relevância, fazendo-a ser considerada um retrato da vida queer moderna em uma sociedade conservadora.
O livro chegou a ser semifinalista do Booker Prize 2022 e foi lançado no Brasil em 2024 pela Editora Record, com o título “Regras do amor na cidade grande“. Inclusive, a K4US tem uma entrevista exclusiva com Park Joon Ho, produtor executivo do k-drama, que você pode encontrar aqui.
INTERSEXUAL: IS – Otoko Demo Onna Demo Nai Sei

Neste drama de 2011, baseado no mangá de mesmo nome, acompanhamos Haru (Fukuda Saki), uma pessoa intersexo: nascida com características físicas masculinas e femininas. Como a própria personagem diz “eu nasci com um corpo que não dá para dizer se é masculino nem feminino ou, que pode se dizer que é ambos, masculino e feminino”. Apesar de registrada como uma menina, Haru viveu boa parte de sua vida como um menino, entretanto as coisas mudam quando precisa assumir uma identidade feminina para ingressar na escola de culinária.
“IS – Otoko Demo Onna Demo Nai Sei” aborda temas complexos como sexo, identidade e gênero sob a perspectiva de personagens intersexo, além de refletir sobre familia, sociedade, amadurecimento e nos leva a questionar: o que determina quem somos?
Apesar de ter uma narrativa mais otimista e, muitas vezes, informativa, o drama abrange questões sensíveis e que podem causar gatilhos em pessoas mais sensíveis.
ASSEXUAL: The Aromantics

É possível existir “uma família sem sentimentos românticos envolvidos”? Essa é a premissa que nos apresenta a alegre e ingênua Kodama Sakuko (Kishii Yukino) e o melancolico e sério Takahashi Satoru (Takahashi Issey), duas pessoas que se identificam como assexuais arromanticos, que buscam encontrar um lar em meio a solidão, a pressão e o estígima social de uma família heteronormativa.
“The Aromantics” entrega reflexões a respeito da importância de uma rede de apoio, a construção não normativa de família, a pressão familiar por descendência e sobre encontrar a si mesmo em meio à falta de informações, preconceitos e noção de amor sem o sentimento romântico. A série inicia a saga de uma forma mais informativa e vai amadurecendo a narrativa ao construir a primeira obra mainstreaming a focar na assexualidade, tendo sido transmitida pela NHK em 2022, a única emissora pública do Japão.
PANSEXUAL e NÃO-BINÁRIO
Apesar das grandes e recorrentes discussões em fóruns entre fãs sobre a inclusão de personagens como pansexuais e não-binários, não há confirmação por parte das produções e dos autores destas obras. O que nos leva a refletir a importância dessas discussões tendo em vista a carência dessa representatividade nas produções asiáticas LGBTQIAPN+.
A ideia não é rotular e colocar cada um em uma caixa específica, mas disponibilizar meios que abracem a diversidade por meio da identificação. Afinal, conseguimos nos conectar com as histórias a partir da ligação que construímos com aspectos como traços, personalidade, características ou situações vividas que ressoam em cada um. Assim, representar, por si só, já é um ato de resistência!



