Uma influencer achou o cúmulo o BTS, composto por sete homens sul-coreanos “vaidosos” e “afeminados”, como ela os categoriza, ter se tornado a maior referência da geração atual. Ela exemplifica uma ideia de masculinidade que, por muito tempo, foi considerada como a única possível.
O entendimento do que é feminino ou masculino é resultado de uma construção sociocultural. Aqui no Ocidente, houve a “Grande Renúncia Masculina”, no final do século XVIII, quando homens deixam de se entender como “belos” e abandonam a busca pela estética para ligar a masculinidade ao trabalho. A partir daí, o cuidado com a aparência foi sendo cada vez mais ligado ao universo feminino.
Em contrapartida, na Coreia do Sul, a trajetória caminhou para que a vaidade se tornasse um ponto central para muitos homens. Só no ano passado, o mercado de cosméticos para homens movimentou cerca de R$ 4,4 bilhões, crescendo em torno de 3% em comparação com 2024, segundo a Euromonitor International.



Isso reflete uma cultura em que o cuidado com a aparência masculina é amplamente aceito. Ainda assim, é importante pontuar que a maquiagem voltada ao público masculino sul-coreano costuma concentrar-se na correção estética, como o uso de BB Cream. Ainda assim, por si só, já é suficiente para que o outro lado do mundo enxergue esse cuidado como uma característica feminina.
BTS e outros grupos masculinos exploram o que é considerado “feminino”
O k-pop ajudou a ampliar a aceitação da vaidade masculina. Isso começa lá atrás, na década de 1990, quando Seo Taiji and Boys e H.O.T. aparecerem com cabelos coloridos, maquiagem, roupas ousadas e uma estética inspirada na moda de rua. Décadas depois, idols continuam estrelando campanhas de maquiagem e moda para grandes marcas, usando peças, acessórios e joias que, no Ocidente, muitas vezes ainda são associados ao universo feminino.
Além disso, o k-pop vai além ao colocar seus artistas masculinos em posições mais vulneráveis. Nas suas músicas, cantam sobre seus sentimentos e amor-próprio. No dia a dia, demonstram afeto e carinho físico com amigos e não escondem emoções, como o choro.
Esses comportamentos são frequentemente associados ao feminino porque fogem de uma ideia tradicional de masculinidade baseada na heteronormatividade. Nesse contexto, “afeminado” deixa de ser apenas uma característica e passa a ser usado como uma crítica carregada de homofobia, ao reproduzir a ideia de que, quando um homem se aproxima do que é entendido como feminino, ele se torna “menos homem”.
A Coreia também não está livre de estereótipos. O próprio k-pop reproduz expectativas de gênero, com grupos muito jovens apostando em conceitos leves e “angelicais”, enxergados como femininos e imaturos, enquanto, ao se tornarem mais velhos, precisam apresentar uma imagem mais viril, sexy ou sombria para performar uma masculinidade mais aceita.
Se sete homens usando maquiagem, moda e falando sobre sentimentos ainda causam tanto estranhamento, talvez o debate nunca tenha sido sobre o BTS. Sempre foi sobre quais homens nós permitimos que existam. E que bom que o BTS está entre nós para mostrar que a masculinidade é plural.
