“The Early Spring” conquistou o público brasileiro nas últimas semanas e não é pra menos! Entregou uma química impecável, um desenvolvimento até que consistente, sem falar nas várias reflexões sobre sonhos, amadurecimento, vida profissional e amorosa, e a influência da comunicação e da dinâmica de poder nos relacionamentos.

Baseado na web novel “早春晴朗 / Zao Chun Qing Lang” de Gu Niang Bie Ku (团子来袭), o c-drama foi produzido pela Youku e está disponível legendado e dublado na plataforma da Youku e da Netflix.

Enredo

Apesar de uma péssima experiência de entrevista, Shang Zhi Tao / Flora (Sun Qian) garantiu a tão sonhada vaga na LIME, uma das maiores agências publicitárias da China, assim que se formou.

Mas ela não esperava que no caminho estivesse Luan Nian / Luke (Jing Boran), um publicitário promissor e reconhecido como gênio no mercado, mas de péssima personalidade e uma língua afiada como uma faca. Ele, de imediato, não acredita no potencial da Zhi Tao, mas, aos poucos, vai se encantando pela dedicação e honestidade dela.

O que começou com uma má impressão mútua, com o tempo, vira uma atração irresistível. Assim, somos levados a acompanhar a forma como ambos lidam com um relacionamento entre funcionária e chefe, mas será que eles conseguem superar os obstáculos e separar a vida amorosa da profissional?


Poster promocional de “The Early Spring”. Créditos: Youku

Opinião

Dividindo opiniões o c-drama moderno “The Early Spring” é um sucesso absoluto e não poderia ser diferente, afinal, ao contrário da maioria dos dramas de chefe/funcionária, a narrativa segue um caminho mais visceral e sensível sobre romances, amadurecimento, desenvolvimento profissional e a vida numa grande metrópole.

A verdade é que a série chama atenção do telespectador pelos detalhes bem trabalhados, a fotografia belíssima e uma ambientação bem construída, por mais que grande parte da história se passa no cenário empresarial. Sem falar, é claro, na caracterização dos personagens, valendo ressaltar o cuidado que a produção teve com os figurinos.

Por exemplo, o figurino do Jing Boran foi composto por cerca de 200 looks vindos diretamente das passarelas de moda, por meio de parcerias com as marcas na qual o ator é embaixador e principalmente, com peças do acervo pessoal, o que explica o porque caíram tão bem nele.

figurinos do Jing Boran para “The Early Spring”
Alguns dos looks do personagem Luke. Créditos: Weibo

O drama ainda conta com uma trilha sonora repleta de nomes familiares e vozes marcantes como Liu Yuning, Li Changgeng, Tia Ray e Silence Wang, que entoam músicas que conversam diretamente com as situações e principalmente os dilemas dos personagens.

Por falar em detalhes, acredito que muitos tenham ficado surpresos com os minutos iniciais de “The Early Spring”, que já entregam a ENORME QUÍMICA entre os protagonistas. E não é algo apelativo, a química deles gera uma tensão tão grande no ar que preenche o silêncio, seja pelos olhares, pequenos toques e gestos. Às vezes um botão da camisa aberto e um meio sorriso eram suficientes.

Tudo isso porque foi o primeiro c-drama a ter uma coordenadora de intimidade, isso mesmo, eles tiveram auxílio da atriz Tsai Jiayin (também conhecida como Cai Jiayin), que foi a consultora na construção de todas as cenas íntimas do casal, para trazer maior naturalidade o que deixou os atores menos nervosos e gerou tantas cenas, digamos, sensíveis e incendiárias.🔥

Ambientado em Pequim, “The Early Spring” apresenta personagens carismáticos que carregam camadas de complexidade e diversidade na medida certa. No entanto, não se engane pela doçura dos minutos iniciais, muito longe dos dramas fofos e divertidos, aqui temos uma narrativa traçada por um desconforto crescente, à medida que o relacionamento de ambos vai aflorando mais e mais, nos damos conta da relação tóxica que estão desenvolvendo.

Ao longo do drama, assistimos o crescimento e o desenvolvimento dos protagonistas. Flora tem o amadurecimento em lidar com os desafios profissionais, de recém-formada a uma respeitada publicitária. Em contrapartida, vemos o amadurecimento do Luke no sentido emocional, ele começa a enxergar melhor as falhas em se expressar e passa a frear as respostas de violência emocional e psicológica que utilizava para manter o muro que o protegia do medo de ser ferido.

Ambos são orgulhosos e inexperientes em áreas distintas, enquanto Flora sabe bem o que deseja como profissional, ela se sente insegura em namorar alguém tão “admirável” quanto Luke. E o medo de ser mal interpretada pelas pessoas, ao descobrirem sobre o romance dos dois, faz com que ela se omita e prefira estar em um relacionamento escondido. Mas à medida que a relação secreta avança, ela contraditoriamente busca cada vez mais por confirmações e validações profissionais, como um sinalizador de ser boa o suficiente e merecedora desse amor.

"The Early Spring"
Reprodução / Créditos: Youku

Ao passo que o Luke é completamente inexperiente em relacionamentos, não importa se ele já tivesse ex-namoradas, a dificuldade de entender-se emocionalmente o impede de expressar corretamente e de entender melhor o outro. E é justamente no relacionamento com Flora que ele vai aos poucos desenvolvendo uma melhor noção de si e do que de fato se trata um relacionamento.

Embora exista um amadurecimento por parte do Luke, ele é conquistado a passos de lesma, e sinceramente, não acompanha o rápido ritmo que a Flora cresce, o que o torna ainda mais inseguro no relacionamento secreto, e nos proporciona diversos momentos desconfortáveis de embate entre eles.

O que me fez passar 60% do tempo desejando socar eles e nos outros 40% namorar o namoro deles.

"The Early Spring"
Reprodução / Créditos: Youku

Isso nos leva para a máxima do relacionamento deles em “The Early Spring”: a falta de clareza, o constante jogo de poder e uma comunicação inexistente fez com que ambos nunca se entendessem por completo e, principalmente, tivessem atitudes contraditórias que machucavam um ao outro ao longo dos 6 anos da relação secreta. No fim das contas: quando você não se sente seguro ou ouvido, por que você abriria a boca? Se você não tem segurança na relação que tem, como pode enxergar um futuro conjunto?

Ao meu ver, o medo de tornar o enredo um tanto arrastado, fez com que a produção fosse encurtada de 32 para 24 episódios. Mas sendo sincera, mais episódios teriam desenvolvido melhor esse arco de “redenção” do casal, que pra mim ainda precisava de mais momentos com diálogos e ações reconciliadoras, não apenas com foco no Luke mas também da própria Flora.

Assim, fica claro que assistir “The Early Spring” não é uma tarefa fácil e não digo isso sobre a dinâmica, porque assim como um relacionamento abusivo, a trama equilibra bem os desconfortos com momentos de doçura. Porém, acredito que a profundidade do enredo seja justamente as mensagens do drama, que inclusive usou bem o espaço para trazer reflexões de temas atuais e importantes.

“Às vezes, ficar longe também é uma forma de amor. As pessoas nasceram para serem livres, mas estão sempre presas por correntes.” – Yuan Zhu.

Dentre as temáticas temos: assédio no meio corporativo, a busca por uma vida melhor na cidade grande, a dinâmica de poder dentro de um relacionamento, o árduo cotidiano da vida adulta, e, a importância de ouvir e ser verdadeiramente ouvido.

Acho que para além do romance, a temática que mais impactou foi a da saúde mental, trazendo aquele velho aviso de que o sorriso também pode ser um disfarce da dor. O quão prejudicial é quando não nos sentimos acolhidos pelo mundo, e o impacto que uma rede de apoio tem em nossas vidas.

Por fim, “The Early Spring” reforça que não podemos controlar todas as variáveis da vida e essa é a grande lição que aprendemos ao longo do caminho. Por isso, nos conhecer proporciona enxergar nossos limites para entender quando algo vale ou não o nosso esforço, e sabermos quando ficar e quando partir. Afinal, às vezes amar, inclusive a si mesmo, é deixar ir.

8/10

The Early Spring

Título original: 早春晴朗

Ano de lançamento: 2026

Direção: Chiang Chi Cheng

Roteirista(s): Gao Xiao Xian

Elenco: Jing BoRan e Sun Qian

Episódio(s): 24