Há uma diferença entre gostar de alguém e gostar da versão que criamos dessa pessoa. Quando admiramos um artista, esperamos que ele possa ser autêntico, inclusive quando muda de ideia, tem um dia ruim ou faz algo que não nos agrada. O problema começa quando essa admiração vira expectativa: ele pode ser espontâneo, mas não demais; mudar a aparência, desde que agrade; demonstrar cansaço, desde que continue entregando conteúdo. Aos poucos, o artista deixa de ser visto como uma pessoa e passa a ser cobrado para corresponder à imagem que o público criou dele.
“Você ri demais.”
“Pare de agir como criança.”
“Seu rosto está diferente.”
Comentários como esses foram direcionados a Evan, mais conhecido como Heeseung, ex-integrante do Enhypen, durante uma transmissão ao vivo realizada em agosto, no aplicativo Weverse. Desde que saiu do grupo, anunciada em março deste ano, o artista segue carreira solo. Percebe-se que os comentários não questionam otrabalho como cantor ou dançarino, mas questionam características de aparência e de comportamento, como se elas precisassem ser corrigidas.
E talvez a pergunta não seja apenas porque idols recebem hate, mas por que algumas pessoas acreditam ter o direito de moldar outra pessoa?


Quando o artista vira um produto
Parte da resposta pode estar na maneira como alguns fãs passam a enxergar seus ídolos.
A objetificação não é novidade em nossa sociedade. Em 1995 a filósofa Martha Nussbaum discutiu o conceito no ensaio “Objectification”. De forma simplificada, objetificar alguém significa deixar de enxergá-lo como uma pessoa com autonomia e passar a tratá-lo como algo que pode ser usado ou moldado de acordo com os próprios desejos.
É uma lógica curiosa. Não se critica apenas o trabalho do artista; critica-se a pessoa. O cabelo precisa mudar. O jeito de rir precisa agradar o público. Até características humanas como sono, mau humor, insegurança, espontaneidade são vistas como defeitos que precisam ser corrigidos.
O artista passa a ser tratado como uma boneca: troca-se o cabelo, a roupa, o estilo, a expressão. O que não agrada pode ser mudado.
Ele deixa de ser uma pessoa para se tornar um produto customizável. E, como acontece com qualquer produto, aquilo que não agrada precisa ser ajustado, substituído ou descartado.
Isso não significa que esses fãs odeiem o artista. Pelo contrário, a objetificação pode existir justamente onde há muito afeto. O problema não é a falta de carinho, mas a forma como esse carinho se manifesta. Em vez de aceitar a pessoa como ela é, tenta-se transformá-la na versão que melhor atende às próprias expectativas.


A sensação de conhecer quem está do outro lado
A forma como nos comunicamos pela internet também ajuda a explicar por que essa sensação de proximidade pode ficar tão forte.
Os pesquisadores Donald Horton e Richard Wohl chamaram de relação parassocial a sensação de intimidade criada entre o público e uma figura pública. Hoje, lives, aplicativos como Weverse, Bubble e as redes sociais intensificaram essa percepção. O artista conversa olhando para a câmera, compartilha momentos da rotina, agradece aos fãs e responde mensagens e é aqui que surge a sensação de que existe uma relação pessoal.
Mas essa proximidade não acontece dos dois lados. O fã sente que conhece o artista, mas o artista não conhece aquele fã da mesma maneira. Ainda assim, essa sensação pode fazer com que algumas pessoas sintam que têm liberdade para opinar sobre aspectos cada vez mais pessoais da vida do artista. O conselho pode parecer inofensivo e a crítica um feedback, mas, aos poucos, a linha que liga admiração e o controle começam a ficar difíceis de enxergar.
Quando ser fã, além de gostar, também significa participar
Isso fica ainda mais interessante quando pensamos na própria cultura dos fandoms.
Estudiosos de fandoms, como Henry Jenkins, mostram que essas comunidades são espaços de pertencimento, criatividade, amizade e participação ativa. Os fãs não apenas consomem conteúdos: eles criam traduções, organizam campanhas, criam vídeos, escrevem histórias e ajudam a manter seus artistas relevantes.
Mas essa participação também pode criar uma sensação de “direito adquirido”. Depois de acompanhar um artista por anos, gastar dinheiro com seus trabalhos, divulgar músicas e participar ativamente do fandom, algumas pessoas podem começar a sentir que também conquistaram o direito de opinar sobre quem aquele artista deveria ser. Só que acompanhar alguém não significa ter autoridade sobre a vida dessa pessoa.
Talvez esse seja um dos maiores desafios de ser fã na era digital: aprender a lidar com a proximidade sem confundi-la com intimidade real. Um artista pode estar cansado, mudar de ideia, escolher uma roupa que não gostamos ou simplesmente não corresponder à imagem que criamos dele. Isso não diminui a capacidade artística nem o vínculo que um fã sente com o trabalho do ídolo. Apenas lembra uma coisa que parece óbvia, mas que pode ser esquecida quando a relação acontece através de uma tela: do outro lado ainda existe uma pessoa.



