“Daemons of the Shadow Realm” acerta na construção, mas falha na conexão
“Daemons of the Shadow Realm”, obra de Hiromu Arakawa, criadora de “Fullmetal Alchemist”, causou burburinho nas redes sociais devido a uma das cenas iniciais no primeiro episódio na qual Gabby, uma das personagens do anime, faz um movimento com a mão e as pessoas, subitamente, são cortadas sem motivo aparente.
Lançado em 2026, o anime revela, posteriormente, o mundo dos tsugai — demônios que se associam aos humanos e seguem as ordens. A lógica da fantasia é interessante e criativa, mas os personagens são superficiais, o que torna a produção agridoce.
Qual a história de “Daemons of the Shadow Realm”?
A história de “Daemons of the Shadow Realm” acontece em um mundo onde as pessoas podem controlar um par de demônios e os irmãos Yuru e Asa são os protagonistas da trama ao serem os “gêmeos nascidos entre o dia e a noite”. Com isso, ambos são destinados a grandes poderes, mas uma escolha os separa ainda crianças e acompanhamos o descobrimento das verdades do passado, sobre eles, as pessoas ao redor e o local de onde vêm.
“Daemons of the Shadow Realm” é bom?
O primeiro episódio do anime é emblemático. A cena de Gabby fazendo o sinal com a mão e as pessoas automaticamente morrendo foi um dos momentos mais impressionantes de “Daemons of the Shadow Realm” e situa o público acerca da identidade da produção, que é consistente durante todos os episódios.
O anime trabalha com vários momentos de revelação e sabe usar elementos diversos para construí-los, se tornando um dos principais acertos de “Daemons of the Shadow Realm”. A tensão do suspense e a quantidade de informações que conhecemos a cada episódio nos transmite a mensagem de que não adiante tentar adivinhar o que acontecerá na produção, principalmente pelo fato de que a lógica mágica do universo do anime é interessante, mesmo que, inicialmente, pareça simples.
Os tsugais são seres que firmam uma parceria com os humanos e a missão deles é proteger o usuário ao qual estão ligados. Os demônios trabalham em dupla, então cada pessoa tem dois tsugais que se complementam de alguma maneira, o que traz dinâmicas de poderes e batalhas curiosas e criativas. Existem aqueles mais utilitários, outros com força bruta e uns mais logísticos. A quantidade de tipos de seres é rica.
Porém, os demônios não são apenas ferramentas. Vemos traços de personalidades e conversas entre os seres e os usuários em que podemos identificar vieses, preocupações, opiniões e outras características que os tornam mais singulares como indivíduos na trama, mesmo que não sejam o foco do enredo.
Infelizmente, não é possível ver o mesmo. ao analisar os personagens principais e secundários. De modo geral, todos são planos e entram em um estilo de identidade onde são apenas uma nota, ou seja, o personagem intenso, será apenas isso: intenso. O medroso será apenas medroso. Não há profundidade que permita conexão maior com o núcleo, o que vemos principalmente ao analisar o desenvolvimento dos protagonistas, Yuru e Asa.
Asa se apresenta de maneira imponente no início de “Daemons of the Shadow Realm”. Ela tem uma aura misteriosa, implacável e sábia. O visual atrai também, pois carrega uma expressão mais soturna ao utilizar roupas pretas e uma franja que esconde o tapa-olho. Entende-se que ela é alguém grande por meio das falas e da própria postura.
De fato, ela é, mas o anime parece se esquecer disso quando Yuru entra em cena.
Chega a ser enfadonho e irritante a maneira como Asa é tão vidrada no irmão. Ela se torna mais boba e tem um senso de proteção sufocante, além de buscar validação afetiva do outro constantemente por meio de expressões cômicas e vozes mais gritantes, fugindo do que foi apresentado anteriormente, que parecia enriquecer a produção.
Assim que Yuru aparece também, Asa fica mais de escanteio. Diferentemente da irmã, entendemos melhor as dimensões do personagem masculino, as motivações e o conflito que vive em decorrência da dificuldade de mudança do local onde morava e para onde foi na primeira temporada.
Os dois têm o objetivo de descobrir o que aconteceu com os pais, mas a chama da missão é mais visto em Yuru do que em Asa e, no fim, a irmã parece funcionar como ferramenta para o desenvolvimento do próprio Yuru.
Por sua vez, o loiro carece de carisma. O anime tenta torná-lo mais humano ao colocá-lo em situações que o tornam jovial e ingênuo, mas ainda não é suficiente para nos conectarmos com ele. Yuru é o típico personagem sério, focado no objetivo e o diferente dos outros na forma de pensar e agir por causa da moral e aprendizados que teve, mesmo que vários outros personagens tenham mais experiência do que ele.
Já os secundários, não há muito o que falar, pois, se foi difícil traçar características sobre os próprios protagonistas, nos personagens secundários foi uma tarefa ainda mais árdua. Apenas Dera, que carrega muitos segredos e funciona como uma figura paterna — mesmo parecendo muito novo, assim como Hana que, se o anime não falar várias vezes que ela é mais velha, passaria despercebido —, provoca um nível de interesse em descobrir quem é de fato e o histórico. Asuma também tem facetas diferentes que descobrimos nos episódios, mas nada muito significativo para a promoção da conexão com o personagem.
A falha em construir personagens ricos contrasta negativamente com animes que conseguiram notoriedade por desenvolver protagonistas cativantes e complexos, como visto em “Frieren e a Jornada para o Além” e “Witch Hat Atelier”.
O forte do anime, na temporada de estreia, não está na conexão emocional e identificação com os personagens e nem mesmo no enredo em si, que parece não caminhar para lugar algum. A construção do universo e a criatividade dos seres chamam mais a atenção. A lógica dos tsugais, assim como as cenas de luta, brilham na produção e trazem o inesperado como forma de enxergar os próprios seres místicos.
O desenvolvimento da tensão por meio dos indícios de que algo grande vai acontecer também é um acerto, mas a expectativa sobre os desdobramentos consegue se manter até certo ponto com o público. O mangá tem 13 volumes publicados, o que mostra que há muito a se ver em “Daemons of the Shadow Realm” ainda, mas o anime deixa dúvidas se conseguirá tornar a jornada de assisti-lo mais prazerosa.
Contudo, ainda assistirei a próxima temporada quando lançar, pois sou fascinado por construções de fantasias, mas a carência de personagens bem feitos pode se tornar um peso maior a medida que o anime cresce.
Assista “Daemons of the Shadow Realm” no Crunchyroll.