Após derrotar o Rei Demônio, Frieren e amigos relembram os principais momentos da jornada em uma noite de celebração. Os relatos transitam entre memórias de um Heiter bêbado, um rei que quase acabou com eles depois de não falarem adequadamente com uma figura tão importante e como Frieren ficou presa em um falso baú.
Em nenhum momento, o grupo cita as lutas e os momentos considerados “grandiosos”, como a própria vitória contra o maior monstro do mundo.
Isso torna o propósito do anime existir ainda mais forte.

Além do momento recheado de memórias calorosas entre os amigos, no primeiro episódio do anime “Frieren e a Jornada para o Além” já é possível perceber que as prioridades da história, condução de enredo e visuais não são aquelas que o público, geralmente, antecipa.
A história do anime acompanha Frieren, uma elfa maga, altamente habilidosa, e seus dois companheiros de viagem: Fern, a aprendiz de magia de Frieren, e Stark, um guerreiro que busca ter mais confiança em si mesmo. O trio almeja ir a um tipo de “paraíso” para que a protagonista consiga falar com Himmel, seu amigo falecido. Então, partem em uma jornada similar a que Frieren fez anteriormente com seu primeiro grupo de amigos aventureiros. Um dos fatores intrigantes é o fato da personagem principal poder viver por milhares de ano, então a noção de tempo entra em choque com o dos outros seres com tempo de vida menor.
O destaque do anime é a abordagem que convida o público a desacelerar e dançar com os olhos em cada enquadramento. As cenas, muitas vezes, parecem pinturas. Há riqueza de detalhes que preenchem e dão profundidade, não apenas de forma estética, mas também na realidade da história, pois mostra o mundo acontecendo, independentemente dos personagens. Pessoas andando ao fundo, folhas farfalhando ao toque do vento e cenários que carregam vida para além do que acontece no primeiro plano promovem uma imersão íntima com os personagens e o universo.

Algo similar acontece em “Witch Hat Atelier”. Na história, Coco, uma jovem apaixonada por magia acaba se descuidando e causando um grande problema em sua vila, afetando até a própria mãe. Então, Qifrey a recruta como estudante e Coco passa a dividir a escola de magia com mais três colegas de personalidades distintas.
“Witch Hat Atelier” se apresenta de maneira similar a “Frieren e a Jornada para o Além”, ao enriquecer o olhar com detalhes que tornam o mundo vivo. A magia no universo de Coco acontece por meio do desenho de símbolos que conjuram a magia e, a cada aprendizagem de um símbolo novo, por exemplo, o público acompanha o tracejar das linhas, os erros e recomeços.

A desaceleração não significa falta de história. Em ambos os animes, há momentos grandiosos e cenas de luta com lindas coreografias e efeitos visuais, que permitem ver de fato o que acontece no meio da batalha, tendo em vista que o cuidado em permitir o público absorver a riqueza dos detalhes também se estende aos momentos de mais agitação.

Os animes absorvem o “Ma” (間), que pode ser compreendido como o espaço no tempo. Esses espaços são locais de apreciação e ampliação da sensibilidade, permitindo que o público aprecie cenas do cotidiano de maneira mais singular.
A magia é conhecimento
Os dois animes tratam sobre magia, mas não como raios de energia para destruir algo. Magia pode ser entendido como a prática a partir do conhecimento também.
Em “Frieren e a Jornada para o Além”, Aura, um forte demônio, utiliza uma balança para pesar a quantidade de mana de Frieren e de si própria. Quem tivesse a maior quantidade de mana, poderia controlar a outra. No diálogo, é possível compreender que a mana está associada ao tempo despendido em aprender magia, o que pode-se entender que a mana é a quantidade de conhecimento que cada ser tem. A ideia se repete em outro episódio, quando Frieren afirma que Fern não chegaria ao nível de mana da elfa devido ao tempo que ela já estudou.

No mesmo diálogo com a aprendiz, Frieren enfatiza que Fern ter menos mana não significa que ela não seja boa, pois ela consegue usar a magia de uma maneira diferente da que Frieren consegue e isso se mostra como o grande diferencial, surpreendendo até mesmo a maga de mais de mil anos.
O fato de Frieren ser forte não se dá apenas pelas grandes magias que conjura, mas pela missão de adquirir todo tipo de grimório e conhecimento mágico possível, o que ela conquista por meio de troca de favores no meio do caminho. Toda magia que conquista, a deixa feliz, pois a relação de Frieren com os poderes não é de caráter bélico, mas de desejo genuíno de conhecimento por si só.
Esta característica em relação à magia também é vista em Coco em “Witch Hat Atelier”. Depois de presenciar um efeito que deixava as pegadas brilhantes, ela viu o quanto o poder pode tornar o mundo mais bonito e feliz, fazendo com que isso fosse motivo o suficiente para torná-la obcecada em aprender como usar os poderes. No universo do anime, a magia se dá pelo desenho de símbolos e Coco estuda fervorosamente os traços e os significados de cada um. Porém, para além das finalidades da magia, Coco, aos poucos, compreende mais sobre si mesma durante o processo de aprendizagem, revelando como o conhecimento é um processo de introspecção também.
Em ambas as histórias, a magia está associada à emancipação, de certa maneira. Existe uma reivindicação de si mesmo, que vemos nos motivos de Frieren querer ser melhor em magia após perder o vilarejo em que morava por causa de ataques. Fern também tem um passado similar e buscou a independência por meio da magia. Com isso, entendemos que o conhecimento é o que verdadeiramente impulsiona o indivíduo.
Cotidiano como construção de significado

Como dito anteriormente, no primeiro episódio, o grupo de aventureiros relatam as memórias da jornada, mas citam apenas momentos não tão grandiosos. A escolha é intencional.
O caminho a um objetivo tem mais valor do que o objetivo em si, pois é justamente a trilha que molda as pessoas durante o trajeto. Em um episódio, Eisen, um guerreiro do primeiro grupo de Frieren, questiona Himmel o porquê de fazerem tantos desvios em prol de coisas “bobas” sendo que caminham para diversos perigos. Himmel responde que os perigos vão acontecer, mas que podem levar o trajeto até eles de maneira leve e divertida, assumindo uma postura relaxada perante algo que não podem controlar.
O diálogo resume a ideia do ma aplicado aos animes.
O público sabe que Frieren traçará uma jornada perigosa até o castelo do Rei Demônio e que Coco está em perigo devido a seres misteriosos. Todavia, a vida vai além disso. Ela se baseia nas trocas com quem amamos e nas coisas que fazemos e os animes elucidam estes momentos constantemente.
É natural vermos conversas inspiradoras, preparação de alimentos, foco em detalhes que não contribuem diretamente para o enredo principal. Vemos várias cenas que, muitas vezes, não chegam a algum lugar de reviravolta, mas funcionam como maneira de desacelerar e contemplar o que importa de verdade: as relações construídas na jornada.

O legado no outro
Mesmo com milhares de séculos vividos, Frieren não se tornou uma nobre ou uma figura de poder. O que ela busca é conhecer cada vez mais magias, mas percebemos que carrega em si muito do que aprendeu com Himmel e os outros.

De uma natureza levemente apática, Frieren tem mudado o modo de interagir com o mundo devido ao que aprendeu na própria jornada com os amigos e ela mesmo tem sido uma referência para Fern e Stark.
Qifrey, por sua vez, busca trazer o melhor das alunas para fora. Ao lidar com diferentes personalidades, ele busca associar o melhor de cada uma às práticas de magia.

Nos dois cenários, compreendamos a importância da cooperatividade e o que isso deixa de significativo na vida do outro. Não é a riqueza que fará alguém ser lembrado, mas são as histórias e o que de bom deixou para o outro.
Um convite para desacelerar
“Frieren e a Jornada para o Além” e “Witch Hat Atelier” são refrescantes ao contrastarem com o contexto mundial de aceleração. A internet tornou a velocidade das coisas ainda maior e isso reflete na maneira como as pessoas experenciam o mundo.
No lançamentos dos animes, cenas frenéticas e enredos com grandes momentos se tornaram a maioria entre os títulos populares, então histórias como as de “Frieren e a Jornada para o Além” e “Witch Hat Atelier” funcionam como um lembrete sobre o que realmente importa.
Além disso, os animes mostram que a passagem de tempo não se dá pelos grandes momentos, como costumamos fazer. Muitas pessoas usam de acontecimentos grandes da vida, como ano de ingresso na faculdade ou mês que conseguiu uma meta, por exemplo, para se orientar na linha do tempo, mas esquecem que o cotidiano é tão importante quanto eventos maiores. O tempo é demarcado pelos rostos das pessoas que conhecemos, pelas mudanças dos nossos ambientes e pela forma como o mundo nos faz sentir. Ver o céu pode ser algo banal, mas com alguém especial ao lado pode se tornar uma das melhores experiências da vida.
Para isso perceber isso, é necessário desacelerar e apenas ser.



