Aos fãs de dramas de plantão: vocês já perceberam os novos rostinhos nos k-dramas da Netflix? A empresa tem apostado justamente em trazer atores e atrizes nem tão conhecidos assim para suas produções sul-coreanas. Basicamente, o elenco das séries está se tornando previsível, e a própria Netflix, embora busque novos talentos, enfrenta desafios nesse processo. Aqueles que acompanham o mercado de entretenimento coreano há anos, antes mesmo do sucesso nas plataformas de streaming, provavelmente notaram essa “hegemonia” de rostos nas produções audiovisuais do país.

Um dos motivos é a insatisfação e incômodo do público que consome as séries coreanas, que está cansado das repetidas escalações dos mesmos atores e atrizes de sempre. Mas também apostamos que o cachê dos profissionais já não está mais tão acessível assim quanto era em 2018, por exemplo. Um estudo acadêmico publicado em 2026 entrevistou CEOs de produtoras e diretores coreanos. A conclusão foi que o aumento dos cachês dos atores foi citado como o principal fator que encarece as produções.
As produções passaram a depender cada vez mais das vendas internacionais para fechar as contas e, além disso, esse estudo apontou outros problemas que a produção das séries sul-coreanas estava enfrentando, como: atores de primeira linha recebem mais de US$ 400 mil por episódio em alguns casos; atores coadjuvantes praticamente não tiveram aumento salarial e produtores afirmam que muitas plataformas só aprovam projetos quando um grande astro está confirmado. Dor de cabeça gigante, não é?
Estamos em uma nova era então?
Pensando em todas essas dificuldades enfrentadas para lançarem um único k-drama, a Netflix juntou o útil ao agradável (quem não quer economizar dinheiro, não é?), e começou a assinar a carteira de novos talentos espalhados pelo país, e até o momento está dando super certo.
Mas se engana quem acha que isso começou só agora em 2026 (eu mesma achei, inclusive, até começar a pesquisar para esse texto). Há alguns anos, a Netflix já tem feito isso e, assim como agora, nem percebemos os rostinhos novos aos quais fomos introduzidos e super conquistados. Foi o caso de “Sweet Home”, que ajudou a consolidar Song Kang e Lee Do-hyun entre os principais nomes da nova geração. Depois do sucesso da série, os dois passaram a receber papéis de protagonistas em diferentes produções.
Voltando às produções originais recentes da plataforma, “If Wishes Could Kill” e “Teach You a Lesson”, provaram que um bom elenco não precisa ser formado apenas por grandes estrelas. “Teach You a Lesson”, por exemplo, ficou por duas semanas consecutivas no topo do ranking global da Netflix entre as produções em língua não inglesa.
Grande parte desse resultado veio da aposta em um grupo de jovens talentos, como Jeon So-young, Kang Mi-na, Baek Sun-ho, Hyun Woo-suk, Lee Hyo-je e Choi Ju-eun, que conquistaram o público com atuações impecáveis. É claro que um roteiro envolvente e uma direção competente fazem toda a diferença, mas é difícil negar que esses novos rostos deram um “tcham” a mais à série (eu adoro conhecer atores e atrizes novos e acompanhá-los crescendo nessa indústria).
O mesmo aconteceu com “Round 6” (Squid Game). Embora Lee Jung-jae já fosse um ator extremamente respeitado na Coreia do Sul, foram nomes menos conhecidos internacionalmente que tiveram suas carreiras transformadas pelo fenômeno global. Heo Sung-tae e Kim Joo-ryoung ganharam projeção inédita, enquanto Jung Ho-yeon saiu diretamente das passarelas para se tornar uma estrela mundial em seu primeiro trabalho como atriz.
Outro exemplo é “The Glory”. Além do enorme sucesso da protagonista Song Hye-kyo, a série impulsionou a carreira de vários integrantes do elenco, como Park Sung-hoon, Kim Hieora, Cha Joo-young, Kim Gun-woo e Lim Ji-yeon, que passaram a receber papéis de destaque em novos projetos depois da repercussão do drama.
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E o que podemos esperar das próximas produções?
A tendência é que a Netflix continue apostando em novos talentos, mas isso também depende dos próximos passos da própria empresa na Coreia do Sul. Segundo uma análise do Korea JoongAng Daily, 2026 é considerado um ano decisivo para a indústria audiovisual sul-coreana, já que marca o fim do atual ciclo de investimentos de US$ 2,5 bilhões da plataforma no país. A partir de 2027, a empresa decidirá se aumenta, mantém ou reduz os aportes em produções coreanas (mas, se eu puder tranquilizar nós, dorameires, duvido muito que a Netflix cortará verba do que, provavelmente, atrai a maioria do lucro dela).
Ao mesmo tempo, a Netflix também começou a investir em outros mercados. Países como Japão, Tailândia, Espanha e México vêm recebendo cada vez mais investimentos da plataforma, o que significa que a Coreia do Sul já não é a única grande aposta quando o assunto é produções internacionais. Se quiser continuar ocupando esse espaço de destaque, a indústria coreana vai precisar continuar inovando em roteiros e no elenco também.
Tudo isso mostra que existe, sim, uma procura cada vez maior por novos talentos. Durante muito tempo, bastava anunciar um ator ou atriz muito famoso para o público criar expectativas. Hoje, a história é outra. Com tantos k-dramas chegando aos streamings todos os meses, muita gente já cansou de ver sempre as mesmas pessoas interpretando personagens diferentes (que, às vezes, nem são tão diferentes assim). É claro que apostar em grandes estrelas ainda traz segurança para quem investe milhões em uma produção. Mas, para quem está do outro lado da tela, descobrir um ator ou atriz que ninguém conhecia e acompanhar a ascensão dela vale bem mais (eu adoro!)
E essa impressão não é só dos fãs. Um levantamento do Korean Film Council, feito com executivos da indústria, mostrou que mais de 90% deles acreditam que escalar grandes estrelas já não garante o sucesso de um drama. O curioso é que esses mesmos profissionais admitiram que muitos investidores continuam exigindo um nome famoso para liberar dinheiro para um projeto. Esse impasse ganhou até um nome: Star Casting Paradox, ou “paradoxo da escalação de estrelas”.
Talvez o melhor exemplo seja “When the Stars Gossip”. A série reuniu dois dos principais nomes da indústria, Lee Min-ho e Gong Hyo-jin, tinha um orçamento gigantesco e era uma das estreias mais aguardadas do ano (que estava atrasada uns dois anos já, inclusive).

Mesmo assim, não conseguiu conquistar o público como se esperava. No fim das contas, parece que a audiência está cada vez mais interessada em uma boa história do que em um elenco recheado de celebridades. E, sinceramente? Já estava na hora. Afinal, um roteiro bem escrito vence um elenco feito apenas para hitar.



