A cultura, para além de um meio de entretenimento, é uma forma de expressão política direcionada ao público, ajudando na formação do senso crítico da população e trazendo à tona pautas que muitas vezes ficam presas a grupos muito específicos da sociedade. O novo lançamento da Netflix, “Aprendendo a Lição” (2026), chamou atenção de muitos exatamente por isso, expondo ao público local e internacional que a falta de proteção legal aos professores é um dos pilares da crise da educação sul-coreana e, de novo, nos levou a questionar: até quando o país vai deixar seus professores desprotegidos na mão de alunos e pais maliciosos?

Baseada no webtoon “Get Schooled” (2020), a produção acompanha o Departamento de Proteção dos Direitos Educacionais (ERPB), uma agência governamental fictícia criada pelo Ministro da Educação Gang-seok (Lee Sung-min), depois da morte de sua filha. Na Hwa-jin (Kim Mu-yeol), um supervisor treinado em operações especiais e protegido por imunidade estatal, assume a liderança da equipe ao lado da investigadora Im Han-rim (Jin Ki-joo), responsável pela pressão psicológica e confronto direto contra os agressores, e Bong Geum-dae (Pyo Ji-hoon), analista de tecnologia que se infiltra nas escolas como estudante. A missão por trás deles é restaurar a ordem em escolas nas quais o sistema falhou, lidando com situações que incluem alunos violentos e pais maliciosos, que utilizam o sistema judicial para intimidar educadores.

Foto com os quatro personagens principais de "Teach You a Lesson". Da esquerda para a direita, Im Han-rim, Na Hwa-jin, Bong Geun-dae e Choi Gang-seok.

Assim como “Taxi Driver” (2021), cada episódio aborda um novo caso, que envolve desde filhos de políticos poderosos sendo protegidos das consequências de praticar bullying até estudantes que usam as redes sociais como arma contra professores. A intenção por trás é trazer uma nova perspectiva da crise educacional por meio da perspectiva daqueles que são prejudicados por essas falhas do sistema. O próprio Ministro fala ao justificar a existência do Departamento, que não é voltado para buscar vingança pessoal, mas sim se posicionar ao lado da vítima, sejam professores ou alunos. Assim, muitos episódios são baseados em casos reais, incluindo o caso da professora do primário de 2023, que tirou a própria vida depois de sofrer assédio por parte dos pais de um aluno.

Fora da ficção: até quando os professores vão ficar desprotegidos?

[Aviso que haverá um leve spoiler nessa parte, mas prometo que vale a pena!] No quinto episódio do k-drama, o espectador acompanha a história da professora do primeiro ano, Choi Ji-seon, e a tentativa de sua mãe de salvá-la. Nele, a educadora é encontrada em um estado crítico na Escola Primária Hyeongjung depois de uma tentativa de suicídio, ao ser alvo de uma campanha sistemática de assédio por parte da mãe de uma aluna. Rodeada por mensagens enviadas ao celular pessoal a qualquer momento do dia, falsas acusações de má conduta e até denúncias de assédio, o ambiente da sala de aula se tornou um verdadeiro inferno na vida de Choi, levando o Departamento de Proteção dos Direitos Educacionais a intervir. Na ficção, ela sobrevive, mas essa não é a realidade da história por trás.

Em julho de 2023, uma professora do primeiro ano foi encontrada morta na Escola Primária Seo-i, em Seul. Ainda que a polícia tenha concluído, posteriormente, que não havia evidências suficientes para responsabilizar pessoas específicas, depoimentos coletados pelo Sindicato de Professores de Seul mostraram que a educadora estava sofrendo uma grande pressão relacionada ao “Incidente do Lápis”, no qual um aluno teria arranhado a testa de outro colega durante uma brincadeira. O episódio, que é comum em escolas primárias, provocou uma série de reclamações por parte da família da criança envolvida e a professora passou a receber mensagens em seu celular pessoal e visitas constantes dos responsáveis.

A morte de Choi não foi interpretada como um caso isolado e, em setembro, o país foi tomado por diversas manifestações na frente da Assembleia Nacional, com os dias 4 e 5 de setembro sendo os mais marcantes. O dia 4, nomeado “Dia da Pausa na Educação Pública”, foi marcado por homenagens à memória da colega, com dezenas de pessoas saindo da sala de aula para celebrá-la. No dia seguinte, professores e apoiadores se reuniram no centro de Seul, pedindo revisões na Lei sobre Casos Especiais Relativos à Punição de Crimes de Abuso Infantil, utilizado por alguns pais como uma arma contra os professores, ao denunciarem eles por abuso infantil sem investigações completas e sem dar oportunidade de defesa.

Os protestantes alegavam que as denúncias constantes de abuso infantil contra os professores estava impedindo que esses conseguissem gerir a sala de aula e disciplinassem alunos da maneira adequada. O que acontece, normalmente, é a suspensão do professor depois da denúncia e a entrada de um professor substituto na sala de aula, até que o primeiro seja inocentado das acusações:

Estamos vendo o direito das crianças à proteção sendo respeitado em todos os momentos, enquanto a responsabilidade dos professores de ensiná-las a se comportarem adequadamente está sendo ofuscada pela lei que visa prevenir o abuso infantil. Isso precisa melhorar. — Comentou um professor anônimo para o The Korean Times.

Um exemplo a ser citado é o caso de 2022, quando o artista de webtoon Joo Ho-min, de “Along With the Gods”, entrou com uma ação judicial contra uma professora de educação especial por um suposto comportamento abusivo contra seu filho autista. Joo gravou secretamente o momento em que a professora tentava disciplinar a criança por conta de comportamentos físicos e sexuais inadequados contra colegas de sala, levando a suspensão da mesma e transferência do garoto para outra escola, enquanto os colegas começaram a ter aula com uma professora substituta até o julgamento do caso. Mais de 80 pessoas, incluindo colegas da escola e pais dos outros alunos, assinaram uma petição em apoio à ela, que foi restituída ao cargo posteriormente.

Embora a Coreia do Sul venha se esforçando para criar um ambiente escolar melhor para os alunos, eliminando punições corporais e flexibilizando regras, a realidade dos professores continua subjugada nesses planos, com diversas rejeições desse ambiente inclusivo se estendendo aos profissionais. No relato de uma docente que preferiu não se identificar, um pai a acusou de abuso depois de intervir no caso de um aluno que estava agredindo fisicamente outros colegas. A mesma foi absolvida do caso, mas ainda ressalta receios quanto ao uso inapropriado da lei:

É normal tomarem todas as nossas formas de ensinar o que devemos? Sinto que estou pisando em ovos todos os dias… A lei para prevenir abuso infantil não deve ser usada indevidamente para permitir que os pais algemem ou ameacem os professores.

Pesquisas do próprio país demonstram a gravidade da situação, com mais de 202 casos de violações dos direitos dos professores por pais ou responsáveis sendo registrados em 2022. De acordo com o Ministério da Educação, entre esses, constavam 75 casos de abuso verbal ou difamação, 24 casos de comportamento ameaçador e 14 casos de violência física contra professores. Além disso, outros dados governamentais mostraram que 100 professores do ensino fundamental e médio cometeram suicídio entre 2018 e o final do primeiro semestre de 2023, com 57 sendo professores do ensino fundamental.

A realidade seguinte aos anos de 2022 e 2023 não é muito diferente. Em outubro de 2024, uma professora da educação especial em Incheon foi encontrada morta em casa, retomando o debate sobre a pressão extrema que os educadores enfrentam, principalmente em escolas de educação especial. Segundo a lei, uma classe desse tipo pode ter apenas seis alunos, mas a professora trabalhava com oito, com quatro alunos em um quadro mais grave, uma vez que a escola decidiu reduzir o número de classes para uma. Também é exigida a criação de planos de ensino individualizados para cada aluno, mas, devido às tarefas administrativas com alunos envolvidos no ensino regular, a professora ficava sobrecarregada com a carga de trabalho, além de não receber auxílio da escola, mesmo depois de confrontos físicos com os alunos.

Meses depois, em maio de 2025, um professor do fundamental II, na Ilha de Jeju, foi encontrado morto em um depósito no fundo do prédio principal da escola, com uma carta de suicídio ao lado. Relatos contavam que o professor vinha sofrendo com queixas persistentes da família de um aluno da sua sala, que ele tentava orientar sobre as constantes faltas e hábitos de fumo. Considerando a preocupação como uma medida descabida, a família registrou reclamações junto à escola e à Secretaria de Educação da Província de Jeju, além de entrar em contato no celular pessoal do professor diariamente, acusando-o de ser o responsável por o estudante não querer ir à escola e de utilizar uma linguagem abusiva. Três dias antes de sua morte, o professor adiou uma licença médica planejada depois que o aluno informou que visitaria a escola. Segundo a esposa:

Embora meu marido não tenha feito nada de errado, ele pediu desculpas à família do aluno. No entanto, a outra parte continuava a apontar falhas e a assediá-lo, dizendo-lhe para não pedir desculpas e para aceitar qualquer punição que fosse imposta. Parece que ele fez essa escolha porque seu sentimento de injustiça havia chegado ao limite.

Homenagem silenciosa marca o primeiro aniversário do falecimento do professor do ensino fundamental II em Jeju, que voltou o debate em relação aos direitos dos professores.

O caso levantou novos questionamentos sobre a eficácia das medidas de proteção implementadas após 2023, porque, embora a escola tivesse uma equipe destinada a lidar com reclamações formais, os contatos feitos no celular pessoal do professor, por exemplo, nunca chegaram ao conhecimento da direção. A própria Secretaria Provincial de Educação reconheceu, posteriormente, que o episódio evidenciava uma fragilidade do sistema no qual, mesmo com novos protocolos, ainda não existem mecanismos capazes de impedir o confronto direto entre pais e educadores.

O Sindicato dos Professores e Trabalhadores da Educação da Coreia (KTU) iniciou uma campanha nacional para que a morte fosse relacionada oficialmente ao exercício da profissão, contando com mais de 45 mil pessoas aderindo ao abaixo-assinado. Ainda assim, a investigação policial concluiu que, embora a família apresentasse um comportamento abusivo em relação ao professor, não foram encontrados elementos suficientes que caracterizassem como crime. A decisão acarretou em novas críticas de sindicatos e outras entidades representativas dos professores, que classificaram o episódio como o “segundo caso Seo-i” e reiniciaram os pedidos por novas reformas na lei.

Pesquisas recentes demonstram que a sensação de insegurança permanece em diversos profissionais da área, tendo em vista o desenrolar dos casos mencionados. Segundo o The Korea Times, uma pesquisa realizada pelo Korean Teachers and Education Workers Union (KTU) e o Korean Federation of Teacher’s Unions (KFTU) revelou que mais de 80,8% dos professores afirmavam temer ser alvo de acusações de abuso infantil relacionadas aos exercício da profissão, fazendo inclusive com que eles evitem intervenções disciplinares e certas atividades pedagógicas. As reclamações, feitas por pais ou responsáveis, aparecem como um dos principais motivos para considerar abandonar a carreira docente, sendo mencionada por 62,8% dos entrevistados.

Outro levantamento, divulgado pelo The Korea Herald, em junho de 2026, reforça o sentimento de impotência perante aos pais. Entre 5.587 professores do ensino fundamental, entrevistados pelo Instituto Coreano de Desenvolvimento da Educação, quase metade afirmou se sentir impotente ao lidar com os pais de alunos, e 68,9% se preocupavam com a possibilidade de sofrer denúncias ou processos judiciais. Segundo o pesquisador chefe do Instituto, Kum Jong-ye, os resultados indicam que esse não é um sentimento ligado à inexperiência profissional, mas sim aos efeitos da legislação do país.

A difícil realidade começou a refletir no futuro da profissão, com a docência saindo de uma das carreiras mais desejadas da Coreia do Sul, especialmente depois da crise financeira asiática de 1997, para se tornar uma das carreiras menos prestigiadas na atualidade. Ainda que os processos seletivos para faculdades de formação de professores tenham apresentado um maior número de concorrentes em 2026, comparado aos outros anos, especialistas alertam que isso reflete muito mais a desaceleração do mercado de trabalho do que uma valorização da carreira:

As notas de corte voltaram a subir, mas ainda é cedo para interpretar isso como um retorno de prestígio da profissão. O aumento parece estar ligado, principalmente, à busca por empregos mais estáveis em um mercado de trabalho desaquecido. — Lim Seong-ho, diretor da Jongro Academy, para o The Korea Times.

O ERPB da vida real pode acontecer?

O sucesso de “Teach You a Lesson” não ficou restrito ao top 10 internacional da Netflix, mas também tomou o debate público no país. Depois da estreia da série, laboratórios de ideia (think tank) do Partido Democrático da Coreia apoiaram a criação de um órgão inspirado no Departamento de Proteção dos Direitos Educacionais (ERPB). A proposta havia sido idealizada pelo Instituto Coreano de Desenvolvimento da Educação, não como uma agência com agentes de operações especiais ou que utilizam métodos violentos, mas sim como um órgão de apoio institucional aos professores, que consegue responder rapidamente denúncias, conflitos com pais e outras acusações que esses profissionais sofrem:

O departamento mostrado no drama é fictício, mas professores enfrentando sozinhos reclamações, investigações e processos legais é uma realidade. O objetivo é impedir que eles se tornem alvos isolados de disputas e garantir que escolas, escritórios regionais de educação e o governo respondam adequadamente a cada caso. — Lee Geyong-a, uma das pesquisadoras do Instituto e idealizadora do projeto.

A proposta, segundo o The Korea Times, prevê uma estrutura dividida em três níveis: uma unidade nacional vinculada ao Ministério da Educação, centros regionais nos escritórios metropolitanos e provinciais de educação e equipes locais responsáveis pelo atendimento direto às escolas. Além da assistência jurídica, o sistema teria como função classificar denúncias, encaminhar investigações aos órgãos competentes e padronizar procedimentos de casos mais complexos, como a acusação de abuso infantil.

O superintendente de educação da província de Gyeonggi, An Min-suk, também apoiou a iniciativa, afirmando ser um mecanismo capaz de defender os professores sem comprometer os direitos dos estudantes. Para Lee Jae-young, diretor do instituto, a discussão não precisa ser encarada como uma disputa sobre qual direito ou grupo vale mais:

Proteger os professores é proteger o direito dos alunos de aprender. Espero que essa proposta nos permita superar a falsa oposição entre os direitos dos professores e os direitos dos estudantes, construindo um modelo institucional que garanta ambos.

O projeto e a produção não estão livres de críticas, com grupos estudantis, como o Asunaro, e grupos de pais, como o Political Mamas, alertando sobre como concentrar os esforços apenas na proteção dos professores pode dificultar a possibilidade de um diálogo aberto entre professores, alunos e a comunidade escolar como um todo. No final, ambos os lados concordam em uma questão: querer discutir qual grupo deve ser priorizado na garantia de direitos não é o caminho para melhorar a situação e a Coreia do Sul precisa rever sua legislação rapidamente.