Gojo, Frieren, Qifrey, Kanade, Kakashi… Esses personagens têm duas coisas em comum, já notou? Todos têm belíssimos cabelos brancos e são superpoderosos. O que talvez passe despercebido é o fato de que isso não é aleat´ório. Então, afinal, por que personagens de cabelos brancos são tão fortes nos animes?




A escolha vai muito além da estética. Sim, não dá para negar que os cabelos brancos dão um destaque para o personagem, mas a motivação vai além. Boa parte se fundamenta na mitologia e no folclore japonês, representados nas peças de teatro Noh e Kabuki, onde os figurinos e toda a caracterização dos personagens comunicavam ao publico o que não era dito pelos atores.
O cabelo branco sinalizava que o personagem não era alguém comum, já que, para a cultura japonesa, a cor branca simboliza o sagrado e o sobrenatural, além de estar relacionada à divindadades folclóricas como a Yamauba (bruxa da montanha) e a Yuki Onna (mulher da neve).
Teatro Noh e os cabelos brancos
O teatro Noh surgiu de uma forma de arte variada chamada Sangaku (散楽), que foi importada da China no século VIII. O Sangaku era um conjunto de artes performáticas que aconteciam nas ruas, misturando acobracias, fantoches e outras expressões artísticas.
Com o passar dos anos e a hibridização cultural, as tradições circenses chinesas se uniram aos elementos ritualísticos e tradicionais japoneses e o Sangaku deu espaço ao Sarugaku (猿楽), algo como uma variante japonesa do movimento chinês.
A popularidade levou essas apresentações para locais importantes, como palácios e templos, e deu outro formato ao movimento caótico do Sangaku. Agora, o Sarugaku era performado em palco, como uma apresentação teatral. Posteriormente, ainda, foram incorporados elementos de dança e música, tornando a experiência cada vez mais rica e sensorial. Nascia, então, o Teatro Noh, ou Nogaku (能楽), pelos fundadores Kanami e Zeami que foram, também, responsáveis por idealizar as clássicas máscaras que marcam esse teatro.
De todas as máscaras utilizadas, três se destacam: Hakushiki-jo, a primeira a ser criada, que representa um ancião benevolente e um espírito divino; Hannya, a máscara que parece o emoji vermelho do Whatsapp, e foi pensada para representar uma mulher que se tornou um demônio após ser tomada por sentimentos de inveja e raiva. A criação da Hannya está fortemente relacionada às histórias de samurais que traíam as esposas e, assim, a máscara é utilizada para descrever tristeza e ferocidade; Ko-omote, aquela máscara que parece saída direto de um filme de terror, na verdade, representa o rosto de uma jovem e bela mulher. Além disso, também é usada para descrever seres celestiais e deusas.



Como o Teatro Noh era, anteriormente, consumido apenas pelo shogunato e por religiosos, fazia sentido trazer o branco em elementos como perucas e vestimentas, já que indicavam elementos como pureza, mas, principalmente o divino.
Hoje, o Teatro Noh é um elemento tão importante para a cultura japonesa que foi transformado em Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO em 2001.
Teatro Kabuki e os cabelos brancos
O termo “kabuki” (歌舞伎) é derivado do verbo kabuku (傾く) e significa, literalmente, “fazer coisas estranhas usando roupas esquisitas”, ou seja, “transgredir”. Em outras palavrasm a arte do kabuki rompe com padrões sociais vigentes. Com origem datada por volta do início do século XVII, em Kyoto, a época foi marcada pelo início de um período de paz no Japão, o que abriu espaço para o florescimento de vários tipos de expressões artísticas.
A “dança Kabuki” foi inicialmente performada por uma mulher, Okuni, e rapidamente se tornou uma das artes mais populares do período. Em contrapartida, com a popularidade veio também a rigidez patriarcal do confucionismo japonês: uma mulher dançando era considerado imoral. Por isso, o shogunato proibiu a participação de mulheres na dança Kabuki, agora permitida apenas aos homens.
Contudo, isso não resolveu o problema. Com a proibição das mulheres, garotos mais jovens começaram a se aventurar na dança, e isso também foi visto como imoral. Até hoje, mulheres são proibidas de participar no Kabuki e homens atuam em papéis femininos.
Diferente do Teatro Noh, que usa menos elementos cenográficos, o Teatro Kabuki é “exagerado” em componentes, técnica diretamente relacionada ao público que consumia esse teatro no início: a população comum. Com mais figurinos e caracterização, fica mais simples para uma pessoa comum, que não faz parte dos samurais ou figuras religiosas, entender a história. Por esse motivo, inclusive, o Kabuki não usa máscara, mas maquiagem, e as histórias são mais curtas, retratando o cotidiano da população, indo na direção contrária ao Noh, que sempre trouxe peças embasadas em religiosidade.
Onde ambos os teatros se encontram é na utilização do branco com a mesma finalidade: representar o divino. No Kabuki, em especial, isso é muito presente nas perucas e na maquiagem.



Assim como o Teatro Noh, o Kabuki é tão importante para a cultura japonesa que virou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2005.
Então, com um passado tão rico em diversidade artística e cultural, não surpreende que os animes bebam dessa história na hora de construir personagens que amamos, é como se eles prestassem respeito às tradições nacionais e dessem continuidade, de acordo com o contexto histórico em que estão inseridos, às histórias, valores e aspectos importantes da cultura japonesa.
