Faltando menos de um mês para encerrar o prazo de submissão ao Grammy 2027, o BTS anunciou, nesta quarta-feira (29.07), um boicote à premiação: eles não vão submeter nenhum dos seus trabalhos à próxima edição em resposta à criação da categoria Melhor Performance de Música Pop Asiática.

“Esperamos que nossa música possa ser ouvida e amada pelo que é, em vez de ser dividida por região ou idioma”, afirmaram os integrantes em um comunicado conjunto nas redes sociais.

A decisão do BTS é um protesto. Ora, a categoria chega justamente no ano em que EJAE vence um Grammy pelo smash-hit “Golden” e em que o BTS retorna com “ARIRANG”, o maior álbum de k-pop de 2026. Ela surge em um momento em que o gênero realmente se tornou uma ameaça à soberania branca.

Vale lembrar que a segmentação é prática recorrente do Grammy. Artistas latinos crescem nos EUA na década de 90; cria-se o Grammy Latino em 2000. Beyoncé vence Melhor Álbum Country; é criada a categoria Melhor Álbum Country Tradicional. Bad Bunny domina a premiação; é criada a categoria Melhor Canção Latina.

O Grammy nunca se propôs a se tornar global, mas tem o compromisso de celebrar o que é ouvido nos Estados Unidos. Então, com artistas de k-pop cada vez mais inseridos nas rádios norte-americanas, a Academia tem se visto sem saída ano após ano e encontrou na criação de uma categoria segmentada uma “solução”.

A categoria isola artistas asiáticos e pode dificultar sua inserção no mercado fonográfico dos Estados Unidos. Ao exigir que as músicas sejam predominantemente em coreano, japonês ou mandarim para concorrer, o Grammy desestimula o uso do inglês, idioma que costuma ser essencial para ampliar a aceitação de faixas de k-pop no mercado americano.

Na prática, se um artista asiático faz música em inglês para competir no mercado americano, ele fica fora da categoria. Se canta em coreano, japonês ou mandarim, vai para uma categoria separada. O artista nunca vai competir exatamente em igualdade de condições.

O impacto já é imediato: grandes lançamentos deste ano, como “SWIN”, do BTS, e “JUMP”, do BLACKPINK, ficam automaticamente de fora da nova categoria por serem cantados inteiramente ou, em grande parte, em inglês.

Mas, no fim, esse boicote pode surtir efeito? Talvez, mas isso deve levar tempo. The Weeknd, por exemplo, precisou de quatro anos para ser ouvido após iniciar seu boicote “eterno” ao Grammy. O mesmo pode acontecer com o BTS e, consequentemente, com o k-pop. O grupo sabe o peso da decisão que tomou. Mais do que uma atitude em benefício próprio, o boicote é um posicionamento em defesa de todo um gênero.

A real é que o BTS nunca precisou do Grammy; sempre foi o contrário. Resta saber se a premiação vai correr atrás e repensar a categoria, porque a diversidade cultural que ela tanto se propõe a defender só será possível quando todos disputarem o mesmo espaço em igualdade de condições.