Pode ser estranho começar um texto assim, principalmente este aqui, mas preciso confessar: sou fã de esoterismo. Por esse motivo sei que o número 4 simboliza coisas como lealdade. Parece que essa foi a realidade de ARMYs nos últimos quatro anos, né? E o fandom foi presentado porque depois desses quatro longos anos, BTS emocionou com “Arirang” e fez o tão aguardado comeback com o grupo todinho em formação original. Já pode anunciar AOTY?

arirang

Composto por 14 faixas e um MV belíssimo para a title “SWIM”, “Arirang” devolve os meninos pro fandom e pro mundo com força total.

Finalmente veio aí

BTS em “Arirang” deixaria o querido Néstor Canclini, estudioso do fenômeno de hibridismo cultural, orgulhoso. O álbum consegue pegar elementos comuns do hip-hop, rap e R&B e colocar instrumentos típicos sul-coreanos. Em “Body to Body”, por exemplo, primeira do álbum, já somos arrebatados por uma faixa que insere um sample de coral cantando a versão clássica da folclórica “Arirang”.

“Arirang, arirayo
Atravessando o morro Arirang
Quem me deixar pra trás
Não vai andar 16km sem machucar os pés”

Em seguida, somos imersos em um BTS de início de carreira, só que extremamente refinado. O rap é presença quase protagonista em todas as faixas. Ainda assim, eles experimentaram um pouco em faixas como “FYA”, trazendo uma batida cheia de sons, criando uma faixa que lembra um EDM, ao mesmo tempo que é recheada de elementos sonoros que vão desde pingos de gotas a castanholas.

O mesmo acontece em“Like Animals” que traz uma vibe mais indie rock pro álbum, algo que eu realmente não esperava e achei uma surpresa deliciosa.

A experimentação aconteceu no cadência de “Arirang” também. Enquanto o rap maceta, do nada ouvimos um tantã, aquele instrumento que parece um pratão grande e dourado, em “no.29”. Achei um respiro bem gostoso no ritmo do álbum e que tem tudo a proposta do álbum de resgatar a história. Não só do grupo, mas de aspectos da própria Coreia do Sul.

“No. 29” é o barulho de um sino, em referência ao sino do Rei Seong Deok e designado como o 29º Tesouro Nacional da Coreia. Incrível, né?

Penso que, ainda, “no.29” me preparou para o único deslize de “Arirang”: “SWIM”. Uma música inteira em inglês? Achei desnecessário. Adorei a melodia, mas achei as decisões por trás dessa faixa um tanto… capitalistas. Uma title em inglês que vai anunciar pro mundo inteiro o retorno do grupo? Me parece que a intenção é acessar todos os mercados possíveis e, vamos ser sinceros aqui, BTS não precisa mais disso, né?

Calma, Colombo!

Apesar disso, “Arirang” relembra sempre o fato de que é um álbum recheado de história. Em “Aliens”, a letra cita Kim Gu, um dos líderes do Movimento de Independência da Coreia do domínio japonês. Alem disso, após 1945 e o fim da dominação, Kim Gu foi ativista pela reunificação das Coreias.

Acho que “Arirang” foi um retorno digno do grupo. Não é meu álbum favorito, mas definitivamente está pertinho dele. Talvez minha única troca seria a title, deixaria “SWIM” no cantinho do pensamento e jogaria minha preferida, “Body to Body”, como faixa principal e produto pro MV de comeback. Essa música é recheada da essência de Arirang.

Menção mais que honrosa

Sim, é de se esperar que quatro anos trouxessem um álbum bem planejadinho, mas nós nunca estamos totalmente preparados, né? Eu mesma, por exemplo, fiquei em choque quando vi as análises da capa do álbum.

Houve especulações sobre como os círculos vermelhos da capa se parecerem com as consoantes ㅇ (ieung) e ㄹ (rieul) que, curiosamente, fazem parte da palavra 아리랑 (Arirang). Fãs também teorizaram que a logo representa os símbolos presentes na bandeira da Coreia do Sul. Minha opinião? Todos estão certos.

Arirang, Arirang, Arariyo

Tá, mas afinal, o que é “Arirang”? De cara já adianto: definir o termo é complexo. Sim, é o nome da música folclórica mais famosa da cultura coreana. Só que o significado vai além. Por ter uma letra simples, que repete o refrão “arirang, arirang, arariyo”, a canção foi passada de geração em geração, ganhando popularidade e novas versões com o passar dos anos. Inclusive, tem gente que supõe a existência de, mais ou menos, três mil variações de “Arirang” por aí.

Aliás, o próprio BTS já performou a música dez anos atrás, tá? A lore pesadíssima. Confere aqui embaixo.

A palavra, em si, não tem definição exata. Para alguns, pode ser um ente querido; derivar de algum aspecto religioso; representar uma figura histórica ou, ainda, ter sido importada de outro país, mas, para os coreanos, “Arirang” é mais que uma palavra ou uma música.

Historicamente, a letra era cantada por guerrilheiros que lutavam pela independência da península durante o período de dominação japonesa (1910-1945). Além disso, a canção também estava na rotina de famílias que foram separadas durante a Guerra da Coreia (1950-1953), como forma de manter a esperança pela reunificação dos dois países.

Ao meu ver, BTS prometeu um álbum que mostrasse a identidade do grupo, mas que também acalmasse a saudade de quatro anos em pausa. Só que os meninos entregaram algo muito mais profundo e simbólico: o respeito às origens dos integrantes e à história do país. Lindo, né?