O fenômeno do text hip cresceu na Coreia do Sul e marca uma nova forma de exercer o próprio estilo por meio da literatura.
Segundo o Seoul Economic Daily, as vendas de livros aumentaram cerca de 5,5% entre 1 e 15 de janeiro de 2026, comparando com o mesmo período no ano anterior. Um dos destaques foi o crescimento dos romances, não o gênero romântico, mas o estilo de narrativa longa, com enredo, diálogos e construção por meio de parágrafos, que chegou a 7,2%.
Além disso, a ascensão literária provocou impactos em diferentes âmbitos do universo literário sul-coreano. Na Universidade Nacional de Seul, Universidade da Coreia e Universidade Feminina Ewha, por exemplo, os romances ocuparam várias posições no top 10 de livros mais emprestados pelas bibliotecas, contrastando com a anterior dominância de artigos e livros de não ficção do ranking.
O Chaek Bar, um bar localizado em Mangwon Dong, aplicou a temática literária na decoração, ao posicionar estantes de livros no espaço e citações literária em quadros-negros, e no cardápio, onde você pode escolher comidas e bebidas com nomes de livros.

O text hip movimentou a economia e a cultura, levantando os motivos por trás da adesão ao novo estilo “descolado” de ser.
O que é text hip?
“Text” significa “texto” e “hip” pode ser traduzido como algo descolado ou “na trend”.
O termo representa uma nova forma de se relacionar com a leitura, incorporando os livros no dia a dia. O movimento nasceu nas redes sociais os praticantes fotografam os livros, compartilham citações, marcam presença em eventos literários, adquirem produtos literários e realizam outras ações que tornam a experiência da leitura mais coletiva e, principalmente, como parte das próprias identidades.
Os artistas de k-pop são apontados como influenciadores do text hip. Minji, do grupo NewJeans, apareceu lendo “A Época da Inocência” de Edith Wharton no clipe de “Bubble Gum”. Jang Won Young, do IVE, contou em uma entrevista que ela lê os trabalhos do filósofo Arthur Schopenhauer. Diversos idols postam fotos com livros, compartilham trechos e falam mais sobre o lado leitor nas redes sociais.

O movimento é amplamente fomentado pela geração z, o que contrasta com o nascimento dos indivíduos da faixa etária na era digital. Todavia, o estímulo excessivo das telas pode explicar a busca pela leitura, especialmente de livros físicos, já que a procura por itens analógicos, como câmeras digitais, CDs e DVDs, expandiu também. Os itens físicos oferecem uma sensação de frescor e atenção plena.
O text hip é apenas performance?
A principal crítica que o text hip sofre é por estimular a exposição como fator essencial da experiência da leitura. As alegações dizem que é um movimento de performance, ou seja, as pessoas querem apenas mostrar que estão lendo, o que não quer dizer que elas estejam lendo de fato.
A preocupação faz sentido e é sustentada por uma característica social que Pierre Bourdieu chama de “efeito de distinção”. O efeito retrata quando classes dominantes utilizam de elementos culturais para se colocarem como superiores ao restante das pessoas e, assim, se distanciar do popular.
O veículo The Chosun entrevistou uma universitária que disse que, inicialmente, começou a pegar livros emprestados porque queria que as pessoas a vissem como reflexiva e sofisticada, mas a leitura expandiu a própria perspectiva e enriqueceu as conversas com outras pessoas, o que transformou a leitura em hobby depois.
O relato da jovem corrobora a crítica de superficialidade, mas também traz outro ponto que a parte defensora do movimento usa: a possibilidade de transformação que a literatura promove.
Assim como a universitária, outras pessoas também integraram o text hip como forma de serem mais estilosas, porém encontraram motivos mais profundos para continuar lendo. Em um mundo onde somos influenciados a consumir itens que não geram mudanças positivas, existir um estímulo a ler, por mais que pessoalmente distante, ainda tem mais chances de promover impacto positivo do que comprar uma roupa de marca, por exemplo.
A força do movimento deve ser reconhecida, especialmente por ganhar tração em um país onde seis de dez adultos leem menos de um livro por ano, de acordo com a Pesquisa de Leitura Nacional da Coreia de 2023.
Text hip é um convite a desacelerar
Uma matéria da BBC diz que a leitura pode ser comparada à meditação, pois ela retarda o batimento cardíaco, acalma e reduz a ansiedade.
Com o crescimento do consumo rápido de vídeos curtos e redes sociais, a atenção tem se tornado um bem valioso e escasso. Portanto, a literatura permite que haja mais valorização de algo importante nas relações humanas: a atenção.
O text hip trouxe a escrita junto, outra prática analógica. Para alguns leitores, apenas ler não é suficiente. É necessário escrever sobre o livro, reescrever trechos, registrar citações e fazer marcações. A escrita manual de passagens dos livros recebeu o nome de “pilsa” e, também, tem chamado a atenção.
Assim como a leitura pode ser um processo de desaceleração, a escrita também é, segundo Kim Heon Sik, crítico cultural entrevistado pela The Korea Herald. Segundo ele, a escrita é como um detox digital, onde o indíviduo pode esquecer dos outros pensamentos por focar em algo específico. O veículo entrevistou outro crítico cultural, Hae Jae Geun, que afirmou o efeito meditativo da escrita, pois promove conforto e calma.
Text hip pode até ser performática, mas pode trazer mais benefícios a longo prazo. Portanto, é melhor ser reconhecida por ser uma pessoa estilosa devido à leitura do que por outros atributos que não agregam profundamente a construção pessoal e coletiva.
É desconhecido se o movimento veio para ficar ou se será passageiro, especialmente pelas pessoas nas faixas dos quarenta e cinquenta anos lerem cada vez menos. O índice mostra que quanto mais “adulto” fica, menos as pessoas leem, o que mostra que a busca pela leitura precisa ser um processo ativo.
O crescimento da venda de livros de auto-ajuda e empreendedorismo mostra que a humanidade colocou a leitura como uma função a ser exercida, algo que precisa ensinar e ter um motivo para ser feita. Porém, a literatura não é apenas isso. Ela permite expandir nossa presença e mentalidade por meio das páginas. Possibilita que conheçamos o outro.
Por isso, perceber a volta da leitura como algo a se sentir orgulhosa de fazer, oferece uma esperança de que ainda podemos ser humanos.
