Ticket To Heaven” (O Menino que não vai para o Céu) foi uma das produções tailandesas mais aguardadas dos últimos anos, logo, as expectativas da comunidade apaixonada por BL estava nas alturas e agora, com o drama finalizado, podemos dizer com segurança: as expectativas foram atendidas.

Estrelado pela dupla Gemini e Fourth, a obra entregou enredo, emoção e muita reflexão sobre amor, fé e esperança. Claramente uma obra que vai permanecer em nossos corações por muito tempo. Produzida pela GMMTV, está disponível com legendas em português no Viki.

ENREDO

Órfão, Tanrak (Fourth) cresceu acolhido na comunidade católica Escola Santa Madalena, ele acredita que precisa seguir uma vida sacerdotal após os estudos, para assim encontrar seus falecidos pais no Céu.

Mas tudo começa a mudar quando um aluno novo é transferido. Barth (Gemini) parece questionar tudo que Tanrak acredita, o levando a questionar a si mesmo e sua fé a partir dos sentimentos que são despertados com o convívio dos dois. Em meio a novas descobertas, será que ele precisará escolher entre a fé e um possível amor “proibido”?


Primeiro encontro em Ticket To Heaven
Reprodução: GMMTV

OPINIÃO

Idealizado pelo diretor Aof, conhecido por obras como “A Tale of Thousand Stars”, “Bad Buddy” e “Last Twilight”, e o roteirista Best, o drama nos leva à questão genuína que norteou o projeto: “Se a minha fé e o meu amor se contradizem, onde isso me coloca?”.

Retratado nos anos de 1996, e dentro de um ambiente totalmente católico, “Ticket To Heaven”, conta uma história emocionante e muito sensível. Ao longo da trama os protagonistas questionam a si mesmos e as crenças que os constituem à medida em que a fé e os sentimentos entram em confronto

Em todos os momentos nos quais os protagonistas questionam e sofrem por aquilo que sentem, a trama mostra, de diferentes formas, que todos esses sentimentos fazem parte do que é viver no mundo e que não existe apenas um jeito certo de ser. Cada um tem o próprio caminho para trilhar e não é porque são diferentes que uns sejam menos ou mais dignos do que os outros.

Reprodução: GMMTV

Esse confronto e dualidade são trabalhados com muito cuidado e sutileza ao longo de toda a narrativa, afinal até mesmo os famosos 7 pecados capitais (Soberba, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Gula e Preguiça) são emoções genuinamente humanas.

No entanto, em “Ticket To Heaven” a noção de pecado não é tratada como um erro passível de punição, mas sim como uma consequência das ações que escolhemos para lidar com estas emoções, algo que podemos relacionar com o conceito de “carma” presente no Budismo, religião majoritária da Tailândia. E, talvez, esta seja uma das melhores escolhas do roteiro.

Desde o enredo à ambientação, do início ao fim, é muito claro todo o cuidado que tiveram para produzir o drama. Seja na escolha dos elementos religiosos utilizados, como as imagens de santos, os rosários e até mesmo a cruz presente nas diferentes partes da escola/igreja, a fuga da representação óbvia e até mesmo o simbolismo de cada detalhe. Um elemento que podemos mencionar ocorre na cena que faz referência à obra “A Criação de Adão”, de Michelangelo, na qual também podemos interpretar a existência da conexão entre Deus e o homem, algo que Tanrak busca sempre manter em seu coração.

Reprodução: GMMTV

Outro simbolismo presente se trata de Santa Maria Madalena, a padroeira dos pecadores, que é relacionada à renovação e acolhimento de dores espirituais. Tal ponto também é evidenciado pela história sólida e bem desenvolvida, assim como pela fotografia belíssima e, é claro, pela atuação emocionante de Gemini e Fourth, que dão vida aos protagonistas Tanrak e Barth. 

A fotografia em “Ticket To Heaven” é um destaque especial em todo o desenvolvimento, não apenas pela escolha de diferentes cores para buscar transparecer emoções diversas, mas por fazer uso dos momentos de silêncio como forma de afeto. Em diversas cenas, percebemos os protagonistas trocando olhares, alguns mais prolongados do que outros, e, da mesma forma, notamos a sutileza e carinho nos pequenos toques.

Nesses momentos, as palavras foram totalmente dispensáveis, tendo em vista que cada gesto transpareceu a possibilidade de um amor genuíno entre os personagens, sem nenhum tipo de pressa, que pode ser resumido por um dos versículos presente em uma das aberturas: “o amor é paciente”, (1 Coríntios 13:4).

Em alguns vídeos especiais lançados no YouTube da GMMTV, o diretor Aof compartilhou um pouco do processo de desenvolvimento de “Ticket To Heaven”. Além de terem um padre católico como consultor, os workshops dos atores também contaram com muito trabalho e dedicação por parte deles. A química entre Fourth e Gemini não é uma novidade para ninguém, mas, neste drama, os atores tiveram a oportunidade de mostrar um lado mais maduro ao aprofundar diferentes questões trazidas pela história.

Reprodução: GMMTV

Fourth entrega uma interpretação realmente tocante ao dar vida a Tanrak, representando toda a complexidade de emoções e os conflitos internos do personagem, é simplesmente impossível não se emocionar com ele. O ator soube lidar de forma excepcional com a dualidade que faz parte de Tanrak, transitando entre o medo de escolher um caminho que pode ser visto como pecado e a ânsia de ser merecedor do paraíso.

Gemini também entrega uma atuação marcante como Barth, um jovem que vem de uma casa católica fervorosa, marcada pela repressão e violência. Com esse plano de fundo, ele representa aquele que não encontrou, até então, o acolhimento nem a paz na fé ou na religião, expressando frustrações de forma clara e de maneira provocadora, mas deixando evidente a busca por ser verdadeiramente visto.

“Ticket To Heaven” ainda abordou temas importantes como expectativas familiares, as incertezas dos jovens no futuro e também a forma humana de representar o papel do sacerdote, enfrentando o isolamento e a solidão ao longo do ofício sacerdotal.

Reprodução: GMMTV

Além disso, é muito interessante como o drama em momento algum determina o que é certo ou errado. Até mesmo a figura do padre, de quem poderíamos esperar tal atitude, não condena ninguém, nem mesmo quando os jovens confessam os segredos mais profundos de seus corações. Pelo contrário, neste drama, o padre é uma figura acolhedora e compreensível, personificando o que a religião deveria ser para todos: apoio e acolhimento, independente de quem somos, do que fizemos ou de quem amamos.

“As pessoas podem viver sem fé, as pessoas podem viver sem esperança, mas as pessoas não podem viver sem amor. Mesmo sem fé, se as pessoas amarem profundamente, elas vão acreditar. Mesmo sem esperança, se as pessoas amarem profundamente, elas vão ter esperança. Mas sem amor as pessoas não têm a chance de encontrá-lo. O amor de Deus é tudo. É amor por si mesmo. É amor pelo próximo. Pois ele criou todas as coisas. Onde houver amor, ele estará presente. O amor, portanto, é o mais importante e o maior de todos. Porque o amor não existe sem ele.” – episódio 6

“Ticket To Heaven” usa a trama para nos lembrar que o grande ensinamento de Deus, independente da fé que seguimos, é bem simples: amar. Assim como Tanrak reforça ao comentar a respeito do livro de Coríntios, é do amor que vem a esperança e a fé. Com isso, o BL, mesmo marcado por compassos mais lentos e calmos, é cheio de emoções e reflexões, tornando-se também um grande acolhimento em forma de série.

10/10

Ticket to Heaven “(O Menino que não vai para o Céu)”

Título original: เด็กชายไม่ไปสวรรค์

Ano de lançamento: 2026

Direção: Aof Noppharnach Chaiyahwimhon

Roteirista(s): Aof Noppharnach Chaiyahwimhon e Best Kittisak Kongka

Elenco: Fourth Nattawat Jirochtikul e Gemini Norawit Titicharoenrak

Episódio(s): 6