Nos últimos anos, cada vez mais idols e figuras públicas do Leste Asiático têm sofrido com a perseguição e as constantes violações de privacidade de suas vidas cotidianas por “fãs” perseguidores.

Conhecidos no Ocidente como stalkers, o termo “sasaeng” de origem sul-coreana tem sido a palavra mais utilizada na região para se referir a pessoas que, de forma obsessiva, cometem crimes contra a privacidade e até contra a vida de artistas, intitulando-se fãs.

Isso continua a gerar debates sobre o modelo da indústria do entretenimento, sobre o que é considerado fã e sobre os limites da relação artista-fã. Mas a verdade é que existe um grande mercado “cinza”, ou não oficial, que mantém essas comunidades de sasaengs vivas.

A origem do mercado cinza

Com um sistema que visa lucrar com cada detalhe dos artistas, inclusive seus estilos de vida, não seria anormal que fãs se sentissem cada vez mais próximos deles, uma vez que, nas redes sociais, consomem as rotinas das celebridades como se estivessem vendo stories para “close friends”. Só que, detalhe: compartilhados para milhares de pessoas.

A construção da idealização de uma relação mais próxima com o fã é incentivada pelas próprias empresas, à medida que estes mesmos fãs gastam milhares de dólares todos os anos em troca de experiências, como ligações “particulares” supervisionadas por uma equipe, assim como fotos e eventos exclusivos de interações.

sasaengs

A ideia de proximidade gera uma competição entre os próprios fãs no acúmulo de experiências, baseada em quem tem maior poder financeiro. Logo, a relação se desequilibra e estabelece um senso parassocial. Este senso atualmente consolida o quanto você é fã de um artista, pela ideia de proximidade ou por possuir itens oficiais do fav.

No meio dessa competição, temos os fãs que perderam a noção do tipo de relação em jogo, passando a acreditar que, por gastar tanto dinheiro, têm poder sobre a vida do artista, e aqueles que acreditam realmente no senso de proximidade com o ídolo.

Nesse cenário, surge um mercado informal ou cinza de dados, também chamado de “economia sasaeng“, em que se comercializa informações pessoais, como número de identidade, e-mails e números de telefone, além de endereços de alojamentos e informações sobre voos e outros deslocamentos; ou seja, o monitoramento de tudo o que é mostrado e não mostrado nas redes sociais.

A economia sasaeng

Em 2017, três repórteres do portal sul-coreano CBS News denunciaram a venda de informações pelo Kakaotalk e Twitter (agora X), de grupos populares de k-pop. Nos chats, era possível escolher quais informações e de quais membros de determinado grupo desejava comprar.

Entre os materiais vendidos, estavam conteúdos privados como: “fotos de beijos”, “vídeos consumindo cigarro”, “fotos de namorados(as)”, contas secundárias em redes sociais, e mesmo, a venda de histórias de experiências com membros, além do contato dos pais de integrantes.

No entanto, as informações que mais eram compradas estavam relacionadas aos voos dos grupos, no mercado era possível comprar até os números dos assentos para que os sasaengs pudessem comprar os assentos mais próximos dos idols. Inclusive, eles notificavam em tempo real aos compradores as alteração dos voos.

No passado, a informação era conhecida apenas por eles mesmos ou compartilhada por sasaengs, mas hoje em dia, ela está sendo vendida comercialmente assim. É uma história que todas as pessoas aleatórias podem comprar esse tipo de informação, então, naturalmente, seria uma invasão ainda maior de privacidade para grupos de idols.” – Relato de um comprador ilegal de dados.

Quase 10 anos depois, a situação continua escalonada de um jeito tão assustador que no ano passado a polícia metropolitana de Seul se envolveu. Foi aberta uma investigação para apurar o envolvimento de um funcionário de uma linha aérea de Hong Kong no vazamento de informações particulares a respeito dos voos de celebridades, inclusive de integrantes do BTS.

A suspeita é que o funcionário tenha usado um banco de dados com horários de voos de diversas companhias aéreas para pesquisar voos de idols a partir de seus nomes e datas de nascimento. Ele recebeu, supostamente, cerca de 10 milhões de wons (aproximadamente R$40.000 de reais) para vazar tais informações.

A situação é grave assim, mas infelizmente não é novidade. Em 2017 já se alertava para a entrada de sasaengs em empregos em agências ou organizações que fornecesse acesso as informações pessoais dos idols,  existindo até mesmo relatos de invasão em e-mails nos quais houvessem dados pessoais de membros.

Hoje, existe um longo histórico de casos de invasão de privacidade de idols, que vão desde perseguição em aeroportos e voos a vazamento de números de  telefones, emails, endereços, perseguição com carros e até mesmo invasão de dormitórios.

E o que, a princípio, se limitava a sasaengs coreanas têm se expandido cada vez mais, a ponto de existirem casos envolvendo fãs chineses, indonésios e mais recentemente fãs ocidentais, como o caso de invasão do apartamento de Jungkook no início de 2026. 

Inclusive, na China existe um mercado exclusivo para paparazzis que são contratados para fotografar e gravar cada passo do idol pelos próprios fãs. Os “Daipai”, são perseguidores, ou os próprios sasaengs que não respeitam qualquer limite, já que vendem suas fotografias para a mídia e os próprios fãs.

Existem registros de casos em que escalam colinas e árvores para fotografiar, por exemplo, a produção de c-dramas ainda em gravação. Um dos exemplos mais emblemáticos, foi quando um “daipai” usou uma escavadeira para poder registrar uma gravação de “Immortality”, um daqueles dramas chineses que nunca irão ver a luz do dia. 

sasaengs Daipai
Daipai utilizando escavadeira para registrar furo.

Em junho deste ano, o boletim taiwanês Taiwan Newswire entrevistou uma agência de segurança privada afim de buscar entender quais as maneiras recomendadas para lidar com os recorrentes casos de assedio e perseguição de sasaegns. Durante a entrevista a especialista apontou 3 brechas que podem acarretar em situações irreparáveis:

A primeira seria “confundir assédio e perseguição com ‘apoio entusiasmado’”. A especialista alerta que a política de “manutenção da paz” implantada pelas empresas, pedindo o bom senso sem ações efetivas quando algo ocorre por medo de ferir o ego dos fãs, só reforça o comportamento, por não impor os devidos limites logo nas primeiras ações.

A falta de um mecanismo de prevenção de “alerta precoce por inteligência”, é a segunda brecha, na qual as empresas toleram a precensa da vigilância constante dos fãs, acreditando que apenas casos graves precisam ser precavidos. No entanto, deveriam realizar monitoramentos constantes não apenas de locais de eventos como das redes sociais, criando classificações de risco e acompanhamento das listas negras de sasaengs.

Por último, a especialista, diz que as agências tendem a “ignorar os ‘quatro principais sinais de alerta de perda de controle’ e perder a oportunidade de assumir a liderança na prevenção”:

A questão dos fãs sasaeng não é simplesmente uma perda de controle na cultura do fandom, mas uma questão social de violações da privacidade e segurança pessoal. Quando a paixão dos fãs ultrapassa limites legais e morais, as vítimas não são apenas celebridades; famílias e equipes de trabalho também podem ser afetadas pela segurança pública. Equilibrar o apoio aos idols e respeitar limites tornou-se uma questão crucial que a indústria do entretenimento moderna precisa enfrentar.” – Instrutora Xiong.

Assim, o sentimento que fica é que a indústria tem perdido o controle sobre o que criaram, visto que essa obsessão e desejo sobre os idols é o que move as empresas financeiramente. Por isso, muitas empresas negligenciam o cuidado com seus artistas em detrimento dos lucros. São poucas empresas que de fato se pronunciam a respeito desses casos e ainda menos tomam algum tipo de atitude efetiva para reforçar a segurança dos seus artistas. Assim fica a pergunta, até quando a indústria do entretenimento vai alimentar os sasaengs?