Em fevereiro de 2026, o British Museum realizou uma exibição que trouxe a tona o debate sobre o papel das mulheres no Japão feudal, principalmente entre os samurais.

Quando escutamos o termo, a figura do samurai é associada a um homem de armadura, empunhando uma katana e seguindo um código de honras rígido, o bushido. Essa é uma imagem reforçada em produções audiovisuais, como “Os sete samurais” (1954) de Akira Kurosawa, que ajudaram a construir um simbolismo cultural na figura desse guerreiro. 

Intitulada Samurai, a exposição do museu reuniu mais de 280 peças para contar a história da elite guerreira japonesa, contando com armaduras, pinturas e outros objetos do cotidiano da época. O principal ponto dela foi mostrar ao público que o termo “samurai” designava uma classe social hereditária, que incluia mulheres, questionando a ideia de que a posição era exclusiva aos homens. 

A mostra levantou um debate entre historiadores sobre a participação das guerreiras na época, por discordâncias quanto a afirmação do museu de “metade dos samurais serem mulheres”. Mas, apesar de algumas divergências, um ponto comum entre eles é que a participação feminina era maior do que ficou conhecido no imaginário popular, com mulheres administrando propriedades, defendendo castelos e até mesmo liderando tropas em batalhas, conhecidas como onna-bugeisha e onna-musha.

Quem eram essas mulheres?

O Japão feudal foi um período marcado por revoluções sociais de diferentes clãs que queriam assumir o poder político. É nesse contexto que a classe bushi (武士 – traduzido como “guerreiro”) é criada como uma elite militar dos senhores feudais, conhecidos como daimyo (大名). Com o tempo, os membros dessa elite passaram a ser reconhecidos como “samurai”  (侍 –  traduzido como “aquele que serve”), de forma que mulheres nascidas em famílias samurais também pertenciam ao grupo e poderiam ser designadas pelo termo. 

Como esse era um período de instabilidade e muitos homens passavam longos períodos em campanhas militares, as mulheres recebiam treinamento em artes marciais para proteger suas propriedades e famílias, com algumas inclusive participando diretamente da guerra, conhecidas como onna-bugeisha e onna-musha.

Como pertenciam à classe samurais, elas podiam supervisionar e administrar propriedades na ausência dos maridos, assumindo a posição de proteção quando as revoltas ameaçavam suas regiões também. Embora os termos soem parecidos, o “bugeisha” se refere as mulheres que defendiam suas famílias e propriedades, enquanto o “musha” designava as que participavam efetivamente das campanhas militares e batalhas

Qual posição a mulher iria assumir dependia muito do contexto, posição social e necessidades de acordo com o desenvolvimento da guerra entre os clãs.    

Esqueça a katana, a naginata é o símbolo das guerreiras

A arma empunhada por mulheres samurais era a naginata, uma lâmina curva fixada em uma haste de madeira longa, cujo alcance permitia manter os adversários a uma distância segura e cujo peso permitia uma melhor movimentação por parte do usuário. 

Mesmo que não fosse projetada especificamente para mulheres, ela se tornou símbolo da autodefesa feminina durante o período dos Estados Combatentes (1467-1603), porque seu peso e comprimento não exigia golpes exagerados ou grandes, havendo uma grande eficiência em movimentos mínimos e contidos. Assim, mesmo com os quimonos pesados e que restringiam os movimentos, as mulheres conseguiam girá-la de maneira letal. 

Arte de Utagawa Kuniyoshi, demonstrando como as mulheres atacavam com as naginatas.
UTAGAWA KUNIYOSHI: Ishijo, Wife Of Oboshi Yoshio, Making A Stroke With A Naginata (1848).

Uma mulher forte e ágil armada com uma naginata conseguia manter à distância quase todos os oponentes, exceto os melhores guerreiros; nessa situação, as vantagens de força bruta, peso corporal ou habilidade com a espada tinham menos peso. – Ellis Amdur em “Legendary History of the Samurai Women“.

Com o passar do tempo, a naginata passou a ser considerado símbolo feminino na classe samurai e a fazer parte do dote, sendo comum que as mulheres a levassem para a casa dos maridos após o casamento, não apenas como meio de defesa, mas também como objeto representativo de posição social.

Até mesmo durante o período de paz da Era Tokugawa (1603-1868), onde a função dos samurais foi gradualmente substituída por atividades administrativas, o treinamento com a naginata era comum, com escolas de artes marciais ensinando o manejo para jovens samurais – homens e mulheres – como parte da educação de disciplina e autocontrole. 

Algumas mulheres samurais famosas

A mais famosa é Tomoe Gozen, que lutou ao lado do marido, o general Kiso Yoshinaka, na Guerra Genpei no século XII. No Conto dos Heike, ela era descrita como uma linda e habilidosa arqueira e espadachim que valia por mil soldados, pronta para confrontar demônios ou deuses. Alguns diziam que ela era respeitada pelas tropas, inclusive liderando batalhas como a Batalha de Awazu (1184), onde venceu o líder Musashi, e sendo considerada a primeira general do Japão. 

Por se basear em um conto épico, a existência histórica da Gozen é debatida entre pesquisadores, já que não há registros dela em documentos oficiais do período. Mas, no Japão, ela é celebrada no Festival das Eras (Jidai Matsuri), que acontece em Kyoto no mês de outubro, onde diversos participantes desfilam pelas ruas vestindo trajes que representam diversas épocas da história japonesa. 

Ilustração de Tomoe Gozen, uma das mulheres guerreiras mais famosas.
Tomoe Gozen as depicted by TSUKIOKA YOSHITOSHI in Tomoe onna (1875-1876)

Outra guerreira conhecida é Nakano Takeko, que viveu o final do xogunato Tokugawa. Em 1868, durante a Guerra Boshin (1868-1869), Takeko foi responsável por reunir um grupo formado apenas por mulheres para defender o domínio de Aizu contra os avanços das tropas imperiais. Segundo relatos, ela lutou até ser atingida por uma bala e, gravemente ferida, pediu para que a irmã a decapitasse, evitando que a cabeça da guerreira fosse usada como troféu dos inimigos. 

Assim como Tomoe Gozen, Nakano Takeko é celebrada durante o Festival de Outono de Aizu, onde mulheres utilizam trajes tradicionais para homenagear as combatentes que defenderam suas terras. 

Retrato de Nakano Takeko, uma das onna-musha famosas.
Retrato da Nakano Takeko.

Por que essas mulheres foram esquecidas?

Durante os períodos Kamakura (1185-1333) e Muromachi (1336-1573), as mulheres samurais assumiam um papel maior na junta militar porque os frequentes conflitos permitiam e exigiam essa participação. Porém, com o xogunato Tokugawa, no início do século XVII, o Japão entrou em um período de estabilidade política que transformou o papel social dos samurais, que passaram a ocupar cargos administrativos e intelectuais. A classe, portanto, passou a ser associada com a posição política no xogunato e não por campanhas militares.

Essa mudança impactou o papel das mulheres samurais, que ainda aprendiam o manejo de naginata e outras artes marciais, mas eram designadas principalmente para atividades relacionadas a administração da casa, a educação dos filhos e a preservação da linhagem familiar. 

Foi durante esse período, conhecido como Edo (1603-1868), que as histórias dos samurais começaram a ser registradas, consolidando uma imagem masculina da classe. Na Era Meiji (1868-1912), a figura desses guerreiros se tornou um dos símbolos da história do país, a fim de construir a identidade nacional moderna. Assim, produções artísticas ajudaram a consolidar os samurais como “heróis nacionais” masculinos, enquanto as figuras femininas ou eram apagadas ou apareciam como figuras místicas. 

O debate sobre a presença de mulheres guerreiras vem sendo retomado, principalmente depois da exposição do British Museum, que buscou demonstrar que, assim como grandes figuras masculinas, as onna-bugeisha e onna-musha constituiram uma parte importante da história japonesa e suas histórias devem ser celebradas e reconhecida pelo imaginário popular.