A liberdade é uma questão relativa, pois depende dos fatores que compõem o contexto do indivíduo, como a origem, os laços e como é o desenvolvimento no espaço que ocupa.

Nesse sentido, “Hana Korea” (2025) tensiona o significado da palavra, a concepção sobre superação dos desafios da vida e as recompensas que vem adiante. O filme traduz os sentimentos de norte-coreanos entrevistados e, principalmente, de Hyorin Choi, desertora que inspirou e acompanhou a produção do filme. Você encontra a produção no streaming MUBI.

Enredo de “Hana Korea”

Hye Seon (Minha Kim) escapou da Coreia do Norte e passou um tempo na China até chegar na Coreia do Sul. A protagonista recebe suporte financeiro e social, mas lida com memórias e a preocupação com a mãe que deixou para trás. Ao mesmo tempo em que busca sobreviver no novo contexto, Hye Seon se depara com a realidade da tão buscada liberdade.

Qual o custo de sobreviver?

“Hana Korea” destaca essa pergunta desde os primeiros minutos do filme ao realçar a solidão de Hye Seon em uma mudança de vida significativa. Por meio de visuais planos, limpos e centralizados na personagem, que se repetem em cenas variadas, a sensação de estar sozinha gera desconforto e preocupação, o que mostra um trabalho técnico bem feito na obra.

Minha Kim consegue traduzir as camadas complexas de identidade em um semblante de tristeza contida, pois entendemos que Hye Seon não pode se permitir ser vulnerável se quiser construir a tão sonhada liberdade no país sulista.

hana korea

O sentido de “Hana Korea” se constrói muito bem nos aspectos não verbais ao explorar cenários e comparativos visuais que trazem à tona, por mais que de maneira subjetiva, problemas enfrentados pela personagem e seus pares.

Ao chegar à Coreia do Sul, Hye Seon precisa tomar medicações e passar por exames para verificar a saúde e os riscos que ela poderia carregar para dentro do país. Por mais que seja um processo comum e importante, a situação colabora para a percepção da personagem ser um corpo estranho adentrando em um novo ecossistema. A postura cautelosa e a voz suave demonstram o quão estranho tudo é para a jovem, o que torna as atitudes em cena ainda mais inumanas.

“Hana Korea” se fortifica em emoções ambíguas, pois cria experiências cotidianas que carregam sentido na maneira em que acontecem, mas traz o amargor da compreensão do impacto que determinadas atitudes geram no grupo de indivíduos norte-coreanos. A abordagem citada não é fácil de executar, mas a obra conseguiu fazer com excelência um recurso que aproxima o público e permite entender como atitudes simples também têm importância.

A própria Coreia do Sul funciona como um tipo de personagem na trama. Há uma idealização do país, como, por exemplo, na primeira vez em que aparece, a câmera passa por cima de um conjunto de árvores e mostra Seul à frente, com os prédios imponentes e contrastando com a cena natural anterior, enfatizando a grandiosidade do cenário urbano. Ali, entende-se que o destino é o lugar de realizar sonhos e, finalmente, ser livre. Em teoria.

Após chegar, Hye Seon recebe um conjunto de assistências. Passa por aulas acadêmicas, sociais e recebe suporte para engatilhar a vida profissional. Há uma certa preocupação do país em construir a base para que ela e os colegas norte-coreanos consigam se desenvolver de maneira saudável e produtiva. O programa é importante e oferece mais dignidade, passo importante ao inserir indivíduos nessas condições em novos contextos, mas ainda carrega rótulos que reforçam a posição dos desertores sobre o que eles deveriam fazer e ser.

Um dos primeiros momentos em que o filme mostra isso, por exemplo, é na forma como as pessoas devem sorrir ao tirarem fotos de registro, uma vez que solicitam para sorrir mais, mas não tanto. Em outra ocasião, Hye Seon expressa a vontade de ser enfermeira, mas é aconselhada a desistir do objetivo devido às dificuldades que enfrentaria por não ter tido acesso aos estudos como outras pessoas sul-coreanas. Ela insiste na profissão e interpreta-se que seja por causa da mãe doente que ainda vive no país do norte. A figura materna é a única preocupação da jovem e o principal ponto influente no sentimento de liberdade, pois, como se permitir ser feliz se quem você ama sofre em outro lugar?

Apesar disso, Hye Seon descobre novas coisas da vida, desde chiclete de fruta a produtos de maquiagem, mas, ainda, de maneira contida, pois não se pode dar “o luxo” de experimentar o novo, até por um provável receio de abandonar a mentalidade que a fez chegar onde estava.

Em uma prática de compras, a instrutora diz para as pessoas comprarem apenas o essencial, mas Hye Seon e Bom I (Anh Seo Hyun), amiga da protagonista, compram batons porque, segundo a coadjuvante, o item é essencial para viver em Seul, dando luz ao quanto a aparência é relevante na sociedade sul-coreana. A personagem sente culpa pela compra da maquiagem, pois lembra da mãe que necessita de dinheiro e a sensação de erro se intensfica quando a coordenadora ordena que removam a maquiagem e informa que há liberdade na Coreia do Sul, mas que ela vem com consequências.

Em “Hana Korea”, há um centro instrutivo que elas habitam temporariamente e precisam usar roupas iguais, o que cria um paralelo comparativo entre as supostas normas norte-coreanas sobre as vestimentas e como os próprios sul-coreanos reproduzem os comportamentos.

Tanto as exigências externas quanto as internas tecem a complexidade da liberdade na vida de Hye Seon que, por mais que tenha chegado ao destino, ainda é fortemente influenciada pelas dinâmicas da vida que a limitam de ser e estar.

A própria personagem enxerga a gaiola de ouro e questiona se, mesmo com toda a grandiosidade, Seul poderia ser sua casa. Ela relembra, com um tom de carinho, a época em que vivia com a mãe e as tarefas que fazia, como buscar lenha e outras atividades manuais.

O país de refúgio causa ainda mais desencanto quando Hye Seon precisa enfatizar que conseguiria ser garçonete em uma entrevista de emprego para um restaurante espanhol. Por mais que seja um trabalho de entrada para muitos jovens, os donos colocam obstáculos, como o sotaque, o qual Hye Seon mente ter pelo fato de ser chinesa-coreana. No fim, ela consegue a oportunidade.

Por mais que trabalhe bem, a personagem é alvo de xenofobia de clientes e sofre assédio de outro colaborador e, em ambos os cenários, ela apenas segue em frente. A liberdade é colocada em cheque também devido às necessidades financeiras, pois entende que precisa se manter no emprego. Vemos o aspecto econômico influenciar as escolhas de Hye Seon quando a personagem precisa cancelar um passeio com Bom I, planejado por um mês, porque o restaurante precisou dela de última hora. O mesmo sentimento é visto em outras cenas quando ela vê roupas, itens de beleza pessoal e academia, mas não pode aproveitar nada.

A contradição da liberdade se projeta a outros personagens secundários. A colega garçonete aspira sair do país para entender o que quer para a vida, o que surpreende Hye Seon, pois ela questiona se não encontra isso na própria Coreia do Sul. A outra afirma que o país é sufocante.

A dona do apartamento que a personagem passa a morar precisa tomar muitos chás para perder peso e a residência contém vários itens do grupo de k-pop The Boyz. Aparentemente ingênua, a escolha da representação mostra como na própria Coreia do Sul há normas sobre como ser e com o que gastar.

“Hana Korea” é ousado ao destacar o papel da igreja também. Hye Seon chegou à Coreia do Sul por causa de um grupo de missionários que fazem missões sociais. Porém, a ajuda do grupo tornou Hye Seon automaticamente uma seguidora de Deus, associando, inclusive, a jornada do norte ao sul como um caminho até a própria entidade divina.

Pensando nessa costrução narrativa, “Hana Korea” também é sobre o que se deixa para trás ao abandonar o local que nasceu e a família, além de mostrar que, em busca por sobrevivência, é possível acessar partes de si que não causam tanto orgulho próprio.

É uma obra sem grandes momentos e emoções intensas, mas é justamente por isso que brilha. É no comum que conseguimos entender o quão grande é a essência das pequenas coisas.

10/10

Hana Korea

Direção: Frederik Sølberg

Elenco: Minha Kim, Kim Jooryoung, Ahn Seohyun

Roteirista(s): Sharon Choi, Minji Kang, Frederik Sølberg

Duração: 103min