Exatamente hoje (20.08) completa-se 10 anos do lançamento de “SOTUS”, a primeira série Boys Love (BL) daquela que hoje é considerada a maior produtora de BLs da Tailândia, a GMMTV.

O BL foi um estrondoso sucesso em 2006 e tornou-se o primeiro contato com as produções tailandesas de muitos que hoje ainda acompanham o desenvolvimento da indústria LGBTQIAPN+ asiática.

Reassistindo ao BL, as impressões que ficaram são de que, sim, muita coisa mudou, mas nem tudo; algumas permanecem assombrando o mercado. Então, vamos mergulhar um pouco na nostalgia de revisitar uma obra tão clássica e entender as mudanças que tivemos.

“SOTUS”: um dos expoentes dos BLs tailandeses

Elenco de SOTUS
Créditos: GMMTV

A produção baseada na novel de mesmo nome da autora BitterSweet entrega um clássico de “inimigos a amantes”. Na história, acompanhamos um grupo de calouros de engenharia passando pelo trote preparado por uma equipe de veteranos, entre eles temos Arthit (Krist), o líder do trote, que constantemente é agressivo e abusivo.

Até que o novato Kongpob (Singto) decide desafiar e colocar em questão a legitimidade do sistema “SOTUS” (Senioridade, Ordem, Tradição, Unidade e Espírito), uma vez que a iniciação é uma tradição do curso para, no fim, entregá-los o maior símbolo de um estudante de engenharia, o pingente de engrenagem.

Com o passar do BL, vemos o despertar de sentimentos entre esses dois personagens que, de cara, não teriam nada em comum além do próprio curso. Ao mesmo tempo que as inquietações de ambos vão superando as barreiras e fincam na máxima que o “amor vence tudo”, inclusive as preocupações com gênero.

Cena de SOTUS
Créditos: GMMTV

Mas então, “SOTUS” envelheceu bem? Eu diria que sim e em grande proporção. Afinal, a série carrega um baixo nível de toxidade, que era bem recorrente nessa época, além do desenvolvimento transmitir uma mensagem de acolhimento à comunidade, e a crítica às tradições que por vezes se mostram abusivas e injustas, como casos extremos de trotes universitários.

Além da dinâmica clássica de veterano x calouro, o BL também foi responsável por criar uma fórmula que, por muito tempo, foi seguida e que, de vez em quando, ainda é revisitada: o personagem que performa a heteronormatividade típica incentivada pela sociedade vs. o personagem abertamente gay ou não, que desafia as certezas do outro.

Nessa dinâmica, de alguma forma, o segundo leva o primeiro a confrontar a certeza que tem sobre a própria sexualidade e juntos ambos superam as dificuldades e tornam-se o porto seguro um do outro. Exemplos disso são alguns BLs que vieram depois de “SOTUS”, como “Together With Me” (2017) e “TharnType” (2019).

Aqui ainda podemos acrescentar pequenos clichês que também seguem presentes: as viagens em grupo, ter que dividir a cama/quarto, um fica doente e o outro cuida, os itens de casal (pulseiras, pingentes, cordões, chaveiros, anéis, etc), e por aí vai. 

Nesse mesmo sistema, as narrativas dedicavam grande parte do desenvolvimento à explorar o despertar dos sentimentos dos personagens e inquietações pessoais em “amar alguém do mesmo sexo”, como uma forma de representar a repressão social a homossexualidade.

Sem falar nos trezentos BLs com engenheiros: são inúmeras séries que não cabe em uma lista, mas já tivemos engenheiro e médico, engenheiro e músico, engenheiro e arquiteto. Foram tantas combinações; só quem viveu esses 10 anos sabe… 😅

Mas de fato, o que faz SOTUS ser único até hoje? Além de ser um dos primeiros BLs tailandeses e ter estourado a bolha das séries asiáticas 10 anos atrás, a produção explora de forma tão natural, delicada e modesta os dilemas e sentimentos dos personagens. E, acima de tudo, o acolhimento do nosso casal pela rede de apoio de ambos, eternizando a obra em nossos corações.

10 anos depois: as principais mudanças na indústria tailandesa

Talvez uma das mudanças mais marcantes inicialmente tenha sido a troca do famoso “raikantopini” pelo “thulakorn”. Enquanto o primeiro se referia a fala sobre a classificação indicativa das obras, o segundo introduz o aviso sobre ser uma obra de ficção. De qualquer forma, para qualquer pessoa que acompanhe o mundinho BL é impossível não lembrar das duas frases ou lê-las com as vozes usadas pelas gravações. 

raikantopini de SOTUS

Outra mudança que começou mais tímida, mas que simboliza um grande passo para a representatividade e para a diversificação dos debates dentro de obras BLs é a gradual redução de histórias que usam o “sou hetero, mas sou gay por você”. Eu ouvi um amém!? 🎉

Inicialmente muitas obras, inclusive “SOTUS”, fizeram uso dessa ideia de que um personagem, ou ambos, é hetero, mas por o amado ser quem é, ele o ama. Por mais que essa frase passe a ideia de que quem a pessoa é de verdade é mais importante do que características físicas, o que é muito bonito, nesse tipo de obra acaba sendo uma forma de invisibilizar e deslegitimar outras formas de ser, como a possibilidade do personagem ser bissexual, pansexual ou demissexual, por exemplo. 

Com o tempo vimos esse tipo de clichê diminuir, assim como a presença de personagens assumidademente bissexuais, como o Payiu (Boss) de “Love In The Air” (2022), ou ainda personagens que assumem não se importar com gênero, como Duang (TeeTee) em “Duang With You” (2026).

“Gênero não é minha preocupação. Meu coração chama por essa pessoa” – Duang em “Duang With You

Entretanto, nem tudo são flores, infelizmente alguns clichês desnecessários ainda persistem, como a clássica designação de uma “esposa” e um “marido” na relação. Esse tipo de divisão bebe muito da necessidade de seguir uma heteronormatividade mesmo em uma relação homoafetiva. Apesar de ter reduzido, esse clichê atravessou a década e ainda está presente em muitas obras, por mais progressistas que pareçam ser e apesar das mudanças. 

Um outro clichê que infelizmente ainda persiste nas obras BL são personagens femininas como vilãs ou estarem lá “apenas para atrapalhar” os casais. A lista de dramas com esse tipo de personagem é longa, mas, incrivelmente, “SOTUS”, o precursor, não é uma obra que bebe dessa fonte.

Nesse sentido, uma mudança positiva foram as personagens femininas lésbicas, como no BL “Bad Buddy” (2021), onde Ink (Milk), o interesse romântico inicial de Pat (Ohm), diz que gosta de mulheres. A recepção foi tão positiva que mais tarde foi feito um GL para a atriz e o ship na obra. Desde então, já temos vários clássicos sáficos como “GAP” (2022), “23.5” (2024) e “ClaireBell” (2025). Amém romances sáficos! 💅

Sotus the series
GAP The Series, Créditos: Channel 3

Uma coisa da qual também não podemos reclamar é que nessa última década tivemos gays ocupando espaços nas obras! Tivemos histórias com mafiosos gays, criminosos gays, policiais gays, assassinos gays, corredores gays, gays com superpoderes, alfas e ômegas gays, hosts gays, psicopatas gays, xamã gay, arquitetos, idols, e por aí segue, mas cadê os estudante de direito?! Por mais gays advogatos, por favor! 🙏

Também é impossível não notar as mudanças positivas na qualidade técnica nos mínimos detalhes. Desde a qualidade de som à fotografia, ou em relação à profundidade das histórias e a qualidade nas atuações. Essas mudanças elevaram o nível dos dramas BLs a tal ponto que fomos agraciados com verdadeiras obras de arte como “Khemjira” (2025), que foi aclamado na última temporada de premiações, recebendo inclusive reconhecimento do governo tailandês.

Aqui também cabe o destaque de outra grande mudança: nesses últimos 10 anos, com produções asiáticas conquistando o mainstream, os BLs tailandeses conquistaram um grande sucesso internacional. Tanto que hoje, em 2026, temos várias obras disponíveis na Netflix, por exemplo, o que não era nem imaginável anos atrás. 

Junto a isso, é claro, os investimentos para essas produções também aumentaram, afinal as empresas não perderiam essa oportunidade para lucrar. Nesse sentido, desde “SOTUS” tivemos outra grande mudança que não podemos deixar de destacar: a criação dos ships fixos.

Casais e mascotes anunciados no inicio de 2025. Créditos: GMMTV

Por meio deles as empresas conseguiram consolidar ainda mais a base de fãs e consequentemente o sucesso de suas produções, visto que se os fãs gostaram de uma dupla de atores em uma determinada produção, as chances deles assistiram a outra obra com a mesma dupla são enormes. Atire a primeira pedra quem nunca assistiu uma obra pelo ator? Ou nesse caso, pelo ship?

Os ships fixos têm dado tão certo que todos os anos as empresas preparam verdadeiros espetáculos com os atores, além de diversos fan meetings com direito a turnê mundial e vários outros produtos. E seguindo essa ideia surgiu mais recentemente os mascotes dos ships: um símbolo bonitinho e altamente comercializável das duplas. 

Os mascotes são realmente muito criativos, temos animais, plantas e até híbridos. Por exemplo, o mascote dos FirstKhao é um gatinho metade laranja metade preto chamado Yuzumumu,  o dos PondPhwuin é um urso chamado Permpoon e o dos JoongDunk é um girassol chamado Jaidee. Além da variedade de produtos, um exemplo do potencial comercial desses mascotes foi o lançamento de “I am Polcasan”, do Polcasan (mistura de urso polar e orca), mascote dos TayNew que viralizou nas redes e rendeu muitos views.

E as mudanças não ficaram apenas nas tela. Depois de muita lutas e idas às ruas, vimos a Tailândia ser reconhecida como líder em direitos humanos para a comunidade LGBTQIAPN+ no Sudeste Asiático. Uma vez que desde 2015 a Lei de Igualdade de Gênero criminaliza a discriminação de gênero e reconhece oficialmente diversas expressões de gênero.

É verdade que tivemos um avanço gigantesco nestes últimos 10 anos, principalmente com a aprovação da lei do Casamento Igualitário de 2025. Além disso, é indiscutível que a grande visibilidade das produções BLs tem pressionado continuamente o governo e a sociedade por mudanças, em detrimento do potencial econômico que a comunidade, hoje mundo afora, deposita na indústria do entretenimento tailandês.

Por isso, também não podemos fechar nossos olhos e não reconhecer que ainda existe um longo caminho pela frente, ainda mais quando a mesma indústria que trouxe essa visibilidade, também é a mesma que por vezes ainda negligência a responsabilidade e o compromisso que tem com as pessoas comuns da comunidade LGBTQIAPN+ que vivem fora dos holofotes e precisam de apoio efetivo.

Que os próximos anos sejam fartos de perspectivas positivas para a indústria QUEER e para comunidade LGBTQIAPN+ em todos os países da Ásia 🙏