Autêntico e livre são duas palavras que resumem bem Haruto Maeda nas últimas semanas que passou em São Paulo, no Brasil, para uma série de aulas e encontro com fãs e dançarinos. Passeando pelas ruas da cidade, indo em baladas e aproveitando ao máximo, o artista pôde sentir de perto o carinho que recebe desde os 16 anos de idade nas redes sociais.

Agora com 21, Haruto vem construindo desde cedo uma trajetória que atravessa diferentes universos da arte. Nascido em Tóquio, no Japão, o artista começou a dançar desde criança, aos 5 anos, e logo na adolescência descobriu que a dança era muito mais do que uma atividade, era uma forma se sentir livre. “Quando estou dançando, me sinto completamente livre de tudo o que está acontecendo no mundo ao meu redor”, conta.

Mais conhecido pela participação nos shows de sobrevivência LOUD e BOYS PLANET, Maeda segue ampliando seus caminhos como dançarino e coreógrafo e não se vê restrito mais ao modo tradicional. O funk também ganhou um espaço especial em sua rotina sem nem perceber´. Segundo ele, a música brasileira é “Energética, é alegre, é poderosa e faz você querer se mexer”.

Confira a entrevista completa abaixo! No final, Haruto deixou uma mensagem especial para os fãs brasileiros que acompanham ele há anos.


1 – Quando você percebeu que era apaixonado pela dança? Essa paixão vem desde a infância?

Na verdade, danço desde os 5 anos de idade, então a dança sempre foi uma parte muito natural da minha vida. Mas acho que foi por volta dos 12 anos que realmente percebi o quanto eu era apaixonado por ela. Foi nessa época que comecei a explorar todos os tipos de estilos diferentes — sapateado, acrobacia, hip-hop, jazz, ballet — e realmente a sair da minha zona de conforto. Quanto mais eu explorava, mais percebia que a dança era mais do que apenas algo que eu gostava de fazer. Ela se tornou a única coisa que realmente me faz sentir como eu mesmo.

2 – Em que momento você decidiu que queria levar a dança a sério?

Acho que o ponto de virada para mim foi, na verdade, em dezembro passado, quando dei meu primeiro workshop de dança. Até então, eu sempre tinha sido o aluno. Eu fazia aulas com outras pessoas, aprendia as coreografias delas e nunca tinha realmente criado minha própria coreografia e ensinado para outras pessoas. Então, quando decidi realizar meu próprio workshop, sinceramente fiquei muito nervoso e sobrecarregado. Eu não sabia como as pessoas reagiriam a algo que eu mesmo havia criado. Mas então muitas pessoas vieram, aprenderam minha coreografia e dançaram juntas. Ver uma sala inteira de pessoas sincronizadas, dançando algo que veio de mim, foi uma sensação muito bonita. Parecia que as pessoas não estavam apenas aprendendo minha coreografia — elas estavam apreciando minha arte, se divertindo com ela e, depois, tornando-a delas.

Essa experiência também me fez perceber o quanto eu realmente amo ensinar e compartilhar a dança com outras pessoas. Ainda estou descobrindo exatamente como quero que seja o meu futuro, e acho que tudo bem. Mas, neste momento, consigo definitivamente me imaginar seguindo um caminho tanto como dançarino quanto como coreógrafo.

3 – Apesar de ser sua primeira vez no país, não será seu primeiro contato com nossa cultura. Já vimos muitos vídeos seus nas redes sociais dançando funk. A gente tem percebido, inclusive, que o gênero tem se inserido cada vez mais na Ásia. Como dançarino, por que você acha que o funk tem conquistado cada vez mais espaço nos países asiáticos?

Acho que uma das razões pelas quais o funk brasileiro está se tornando tão popular na Ásia é porque ele soa muito diferente do que muitos de nós estamos acostumados a ouvir. As redes sociais, especialmente o TikTok, definitivamente tiveram um papel enorme em apresentar esse som a pessoas do mundo inteiro. No meu caso, porém, isso aconteceu de forma muito natural. Eu me deparei com o funk por acaso, sem nem saber que era funk brasileiro! Eu simplesmente continuava encontrando músicas de que gostava e, depois de um tempo, percebi: “Espera, todas essas músicas que eu tenho ouvido são funk brasileiro.” E, como dançarino, há simplesmente algo nessa batida que mexe com alguma coisa dentro da sua alma. É energética, é alegre, é poderosa e faz você querer se mexer.

Sempre que danço funk, de repente sinto como se fosse um modelo de moda desfilando em uma passarela. Ele me dá uma confiança e uma atitude que eu realmente adoro. Na verdade, eu tenho uma playlist inteira do Brasil no meu aplicativo de música que, a essa altura, é basicamente toda composta por funk. Eu realmente amo. Isso me faz sentir poderoso, sexy e, o mais importante… eu adoro rebolar a bunda! [risos].

4 – Hoje, pelas redes sociais, vemos você muito focado na carreira de coreógrafo. Mas muitos brasileiros conheceram você pelo k-pop, especialmente pela participação no BOYS PLANET. Então eu queria perguntar: o sonho de estrear novamente como idol de k-pop ainda existe?

O sonho de debutar definitivamente ainda está em algum lugar da minha mente. Sempre que ouço certas músicas, assisto a desafios de dança ou vejo pessoas se apresentando no palco, há uma parte de mim que sente muita falta de estar no palco e pensa: “Eu quero fazer isso de novo.” Mas não necessariamente me vejo voltando na forma tradicional de uma idol de k-pop. O que me empolga muito mais agora é a ideia de fazer parte de um grupo verdadeiramente global, como o KATSEYE — algo que não seja limitado a um único país, idioma ou indústria. Eu adoraria representar a Ásia em um grupo desse tipo, ao mesmo tempo em que levaria comigo tudo aquilo que faz de mim quem eu sou. Já vivi em diferentes culturas, falo vários idiomas, incluindo inglês fluentemente, e acho que tenho muito a oferecer tanto como artista quanto como pessoa.

Sinto que a ideia de um “grupo global” está se tornando cada vez mais relevante. Pessoalmente, nunca senti que me encaixasse perfeitamente em apenas uma categoria. k-pop, k-pop, c-pop — não acho que nenhum desses rótulos me define completamente. Quero me apresentar em um palco onde todos os diferentes lados de quem eu sou possam existir juntos. Então, sim, o sonho definitivamente ainda está vivo. Acho que estou apenas percebendo que a versão desse sonho que quero agora pode ser diferente daquela que eu tinha antes. Talvez o que eu tenha procurado esse tempo todo seja um grupo global.

5 – Outra coisa que chama atenção nas suas redes sociais é a forma aberta e natural como você se mostra uma pessoa LGBT, sem muitos rodeios. Muitos fãs perceberam que isso ficou ainda mais evidente depois que você deixou a indústria do k-pop. Você sente que, durante esse período como idol, existiam limitações para se expressar dessa forma?

Com certeza, sim. Durante aquela época, eu sentia que tinha limitações muito claras sobre o quanto eu podia expressar abertamente esse meu lado. Houve momentos em que senti que a pessoa que eu naturalmente era não era algo que a empresa queria que eu mostrasse, e algumas dessas experiências foram, sinceramente, muito dolorosas. Há uma experiência que, acho, explica isso melhor do que qualquer outra. Em determinado momento, nossos fãs tiveram a oportunidade de ajudar a criar o design dos nossos monitores intra-auriculares (in-ear). Eu nunca tive exatamente uma única cor favorita — sempre adorei as cores do arco-íris — então meus fãs votaram em um design lindo, coberto de pedras de várias cores. Eu simplesmente amei. Mas a empresa me disse que eu não poderia usar especificamente aquele design porque ele era colorido como um arco-íris.

Disseram diretamente para mim: “Você não pode usar isso porque as pessoas vão achar que você é gay.” Foi muito difícil para mim entender isso. Eu ficava pensando: por que isso seria um problema? Por que o fato de as pessoas possivelmente acharem que eu sou gay deveria determinar se eu posso usar algo tão simples quanto um monitor intra-auricular (in-ear) com as cores do arco-íris? Me disseram que isso poderia afetar negativamente a minha imagem e até mesmo o sucesso do grupo. Isso realmente me machucou. Já não era mais apenas sobre o monitor — aquilo me fez sentir que havia algo em quem eu era que precisava ser escondido para que eu pudesse ser aceito. Acho que essa experiência realmente abalou minha confiança na empresa. E, depois de deixar aquele ambiente, consegui me expressar de maneira muito mais natural e aberta. Não quero sentir que preciso ficar constantemente me policiando ou escondendo partes de quem eu sou só porque alguém acha que elas podem deixar outras pessoas desconfortáveis. Então, acho que o que as pessoas veêm nas minhas redes sociais agora é simplesmente eu tendo a liberdade de ser eu mesmo.


6 – Tem alguma mensagem que gostaria de deixar para os seus fãs no Brasil?

Acho que minha relação com meus fãs brasileiros é muito mais antiga do que as pessoas possam imaginar. Desde que participei do LOUD, eu sabia que tinha um grupo muito forte de fãs no Brasil que me apoiava. Ainda me lembro de ter por volta de 16 anos, abrir o Instagram e, de repente, perceber que havia todas aquelas pessoas literalmente do outro lado do mundo torcendo por mim. Para alguém adolescente, foi algo incrível de vivenciar. Eu não conseguia entender como alguém tão distante, que nunca tinha sequer me conhecido pessoalmente, poderia me dar tanto amor e apoio. E o que tornava isso ainda mais especial era que, naquela época, eu nunca tinha realmente falado sobre o Brasil nem tinha qualquer conexão específica com o país.

Os fãs brasileiros simplesmente me encontraram e me apoiaram por quem eu era. Isso sempre ficou comigo. Desde então — já faz quase cinco anos — eu tenho esse sonho de vir ao Brasil um dia. E agora que tenho mais liberdade para escolher o que quero fazer da minha vida e da minha carreira, finalmente tive essa oportunidade incrível de vir para cá, e sinto que é como se tudo tivesse completado um ciclo. Estar aqui, sinceramente, me deixou muito feliz. Finalmente pude vir a este lugar de onde recebo tanto amor há tantos anos, e agora posso realmente conhecer as pessoas por trás desse amor. Sinto que as pessoas aqui me valorizam exatamente por quem eu sou, e isso significa mais para mim do que realmente consigo expressar em palavras. Às vezes, até sinto que a quantidade de amor que recebo do Brasil é grande demais para o artista que sou neste momento.

Então espero continuar crescendo, me tornar um artista maior e melhor e alcançar mais pessoas — não apenas por mim, mas para que um dia eu possa retribuir todo o amor que os fãs brasileiros me deram ao longo desses anos. Então, de verdade, obrigado por esperarem por mim. Levei cinco anos, mas finalmente estou aqui. E espero que este seja apenas o começo.


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