“Alma Gêmea” (Soul Mate) entrega cura por meio do encontro de duas almas
Disponível na Netflix
Aguardadíssimo desde o anúncio, “Alma Gêmea” (Soul Mate) estreou na última quinta (14.05) com uma fotografia linda e uma história cativante, mas dolorida. Entregando mais uma trauma cinematográfica para comunidade queer colocar na conta. A série está disponível com legendas e dublagem em português na Netflix.
ENREDO
Após um incidente com o melhor amigo, Narutaki Ryu (Isomura Hayato) cheio de culpa e remorso, abandona tudo no Japão e vai para Alemanha visitar uma amiga de infância. Em Berlim, acaba envolvido em um incêndio numa igreja e é salvo pelo boxeador coreano Hwang Jo Han (Ok Taec Yeon).
A partir deste inusitado encontro, duas almas feridas se unem para lidar com a dor, a solidão e os obstáculos que a vida lhes impõe, seja na Alemanha, na Coreia do Sul, ou no Japão.
Imagem/reprodução: Netflix
OPINIÃO
Após quase 2 anos de longa espera, “Alma Gêmea” finalmente está entre nós. E foi com muita empolgação que mergulhei profundamente e ininterruptamente nos 8 episódios do drama. E, sinceramente, pela atmosfera do trailer e da sinopse já se esperava algum sofrimento, mas definitivamente eu não estava pronta para encarar o que estava por vir.
“Alma Gêmea” é carregado de clichês conhecidos, entretanto, a forma como a história é contadadá ao drama uma atmosfera única e envolvente. Diferente do que estamos acostumados a ver em obras do gênero, aqui não existem rótulos. Acompanhamos pessoas, unidas pela a vida, que decidiram encarar juntas o mundo e os desafios de viverem nele.
Imagem: Netflix
O relacionamento que Ryu e Johan é baseado no respeito, no apoio incondicional e na compreenção um do outro, isso constroi um tipo de intimidade e confiança raros tanto na vida real como em cena. E traz uma profundidade e significados ainda maiores para tudo o que assistimos no drama. Nem todo relacionamento precisa de um rótulo para ser sincero.
As escolhas narrativas da trama até me fizeram pensar sobre como comumente histórias queer são retratadas de forma trágica nas telas. Entretanto, em “Alma Gêmea” acredito que o grande diferencial seja a construção do relacionamento dos protagonistas, que vai muito além de um amor romântico e avassalador (que também é bom) e vai para um lugar mais profundo, íntimo e incondiconal, um real encontro de almas.
Imagem: Netflix
E uma nova camada é adicionada a isso quando Sumiko se junta aos dois rapazes. Juntos, os três constroem uma família onde ajudam um ao outro, sofrem juntos, riem juntos e simplesmente estão lá um pelo outro. A relação deles reforça a real essência de uma família: apoio, cuidado, responsabilidade e conexão que se escolhe todos os dias. E não seria essa uma forma genuína de amor?
Em alguns momentos do drama é questionado o que significa solidão e a reflexão trazida é que esse sentimento ocupa o lugar de alguém com o qual nos importamos muito e que não temos mais. E não pude deixar de perceber como tal explicação lembra tanto o significado de saudade, nossa palavra intraduzível, a tristeza da falta, a felicidade de ter vivido e o desejo do reencontro.
Imagem: Netflix
Para além do desenvolvimento de laços e da construção de um lar, a narrativa é repleta de críticas sociais, seja abordar o controverso serviço militar sul-coreano, seja a desigualdade social e o desamparo da mãe solo, ou mesmo as dificuldades em torno da comunidade queer em ambientes que historicamente são relacionados à masculinidade e virilidade.
Enquanto a divulgação reforçava o drama como um BL, acendendo as expectativas de grande parte do público, a obra entregou algo bem diferente do que esperamos quando pensamos no gênero. Entretanto, isso não é necessariamente algo ruim, a relação dos protagonistas não deixa de ser intensa e sincera por ser menos explícita e seguir de forma sutil.
Imagem/reprodução: Netflix
Por outro lado, o teor trágico da história nos faz lembrar dos dramas e filmes BLs de 10 anos atrás, onde tudo terminava de forma sofrida, quase como uma punição. Apesar disso, ainda acredito que “Alma Gêmea” se diferencie dessas obras por manter os personagens fieis uns aos outros. Mesmo com todos os desafios e dificuldades que enfrentaram, no final eles sempre seguiam em frente. Eles viveram apesar de tudo e por causa de tudo o que lhes aconteceu.
“Alma Gêmea” entregou o que o Japão sabe fazer de melhor: desenvolver histórias com um enredo simples, mas que carrega um peso emocional enorme, tornando impossível não se conectar de forma profunda. Afinal, temos uma narrativa construída por personagens humanos, que cometem erros e acertos evoluindo conforme vivem e nos fazendo repensar sobre nossa própria jornada.
Imagem/reprodução: Netflix
Por mais que seja relativamente curto, o desenvolvimento é denso, e nos dá socos no estômago a cada episódio. Nos levando a refletir sobre a vida, nossos propósitos e ainda assim confirmar que não importa o quanto nós preparamos, a vida é sim imprevisível.
Logo, à medida que os minutos vão se passando as lágrimas vão se acumulando e os lencinhos vão sendo substituídos um a um, até chegarmos aos soluços no episódio final. Quando finalmente cai a ficha que assim como o pai da psicologia analítica, Carl Jung, já ensinava aos alunos: seja apenas uma alma humana ao tocar outra alma humana.
Afinal, em épocas como a qual vivemos onde muitos relacionamentos, românticos ou não, se baseiam muitas vezes em superficialidades e em uma grande competição de “quem se importa menos”, assistir uma obra profunda como “Alma Gêmea” (Soul Mate) é uma grande alívio e um abraço acolhedor.