Antes dos estádios lotados, já havia asiáticos correndo atrás de uma bola com outro nome e outras regras, mas a mesma paixão. O cuju é reconhecido pela Federação Internacional de Futebol (FIFA) como um dos antecessores do que hoje conhecemos como futebol moderno.
E nada melhor que começar a Copa do Mundo de Futebol Masculino de 2026, conhecendo melhor sobre um jogo asiático precessor de um dos esportes mais populares do mundo.
Origem do Cuju
Apesar da sua origem indiscutível na China Antiga, não há um consenso sobre como se iniciou. Alguns afirmam que ele teria sido desenvolvido no Período dos Estados Combatentes (475 – 221 antes da era comum (AEC)), período em que todos os sete grandes estados chineses lutaram pela hegemonia da China.
Outros afirmam que foi elaborado pelo mítico Imperador Huang Di, ou como também é conhecido, o Imperador Amarelo da dinastia Han (206 AEC – 220 da era comum (EC)). No entanto, o consenso é que o cuju foi criado como uma forma competitiva e de treinamento físico para os militares na região de Linzi, posteriormente sendo associado ao entretenimento.

A palavra cuju, no chinês ‘蹴鞠’ (cùjú) pode ser traduzido literalmente como “chutar com a bola”, uma vez que o jogo, consistia em demonstrar habilidades de controle de bola através de chutes. Os quais foram classificados em 16 tipos, sendo estes em sua maioria relacionados à área do corpo que entrava em contato com a bola.
Por exemplo, o tipo ‘jian’ se referia ao chute de ombro, enquanto o ‘bazi’, era o chute com o pé aberto. E não para por aí, existem outras subcategorias, fazendo com que existam cerca de 300 tipos desses “chutes”.
O jogo poderia ser praticado por equipes que variavam de 6 a 12 pessoas, e além do familiar “número gols”, que eram realizados em dois buracos no chão, que serviam de alvos dos ataques em ambos os lados, a competição avaliava o controle de bola e as jogadas elaboradas pelas equipes. Achou que era só marcar gol?! (rsrsrs)
Desenvolvimento e popularização
O primeiro relato encontrado sobre o cuju data da Dinastia Han, e acredita-se que a modalidade já estava consolidada por parte dos militares o que propagou o jogo para as cortes reais, bem como para a nobreza, a tal ponto que existiam áreas destinadas a prática dentro do próprio palácio imperial.

Durante a Dinastia Tang (618 – 907 EC), o esporte se aperfeiçoou, um exemplo foi a bola que antes era preenchida com penas, passou a usar bexiga inflada de animais. Além disso, o jogo foi diversificado, criando um outro modelo de “gol”: dois altos postes com rede entre eles e um espaço para a bola passar, uma espécie de trave, bem no centro do campo.
Outro diferencial deste período foi a popularização do cuju entre eruditos e intelectuais, e acima de tudo, a consolidação da prática pelas mulheres. Existe inclusive um poema que destaca as habilidades de um grupo feminino e a inveja de homens ao assisti-las praticarem.

Mas é na Dinastia Song (960 – 1279 EC) que ele alcança seu auge, o jogo passou a ser praticado pela população e chegou a ser uma profissão. Existindo clubes de cuju, nos quais operava um sistema de tutela em que os profissionais eram pagos para ensinar os fundamentos do esporte, aos que queriam seguir a profissão.
Aqui também tivemos a elaboração do “Manual do Cuju”, que passou a integrar ao esporte os preceitos confucionistas. E a evolução da bola, que agora era feita com doze peças de couro entrelaçadas. A admiração pelos profissionais era imensa, temos até uma famosa figura histórica, Gao Qiu. Fala-se que ele era tão habilidoso que conquistou a profunda admiração do imperador.
O declínio e o esquecimento
A verdade é que, apesar de ter sido um esporte tão popular por tantos séculos, o cuju chegou a ser quase completamente esquecido. As instabilidades sócio-políticas do século XIV, como fome, pragas e disputas pelo poder, fizeram com que o Imperador Hongwu, da recente Dinastia Ming (1368 – 1644 EC), proibisse a prática.
A proibição tinha como propósito evitar distrações dos militares; devido à sua tamanha popularidade, foi estabelecida uma ação disciplinar severa para aqueles que fossem pegos praticando o esporte: teriam o pé cortado. Isso acabou por desmotivar grande parte da população na continuidade do jogo, que passou a ser realizado de forma marginalizada.
Somados a este cenários, tivemos ainda revoltas e mais instabilidade ao longo da história chinesa, como as invasões estrangeiras, o que impediu o maior aperfeiçoamento da arte e da cultura, além do contato com os esportes modernos. No entanto, ainda existem relatos da modalidade em obras literárias como poemas.
Enfim, o merecido reconhecimento
A volta do Cuju só viria mais de 400 anos depois de sua proibição, na década de 1950, quando alguns historiadores chineses começaram a pesquisar sobre as origens e história do jogo, tendo avanços significativos na década de 1980, quando o assunto adentrou a área acadêmica.
Em 2004, a FIFA reconheceu oficialmente o cuju como uma das formas mais antigas de futebol do mundo, em uma das celebrações dos 100 anos da instituição. Somado à movimentação chinesa, este reconhecimento reverberou nacionalmente e em 2015, o Distrito de Linzi inaugurou o Museu do Futebol. Com o passar dos anos, outras ações também foram realizadas, como em 2019, o esporte entrou na lista de “Unidades Representativas de Proteção do Patrimônio Cultural Imaterial Nacional”.
E não menos importante, o jogo também aparece nas produções audiovisuais, um exemplo é o primeiro episódio do c-drama de época “The Long Ballad” de 2021, que apresenta uma intensa partida do desporto, que pode ser observada no vídeo abaixo.
Ainda existem relatos que o cuju chegou a ser praticado em outros países da Indochina, bem como a península coreana e o Japão, este último tem outro jogo de bola, o kemari, também reconhecido pela FIFA como um antecessor do futebol, embora seja mais recente.
Atualmente o esporte que no passado já foi alvo de admiração imperial, é motivo de orgulho nacional, com projetos que tem como objetivo manterem a tradição viva para as futuras gerações. E aí, você já conhecia o cuju?



