Na década de 1960, a China criou um programa de treinamento para o que ficou conhecido como “médicos dos pés-descalços”. A iniciativa surgiu porque o sistema médico da época atendia apenas 15% da população chinesa, concentrando-se nas elites urbanas e deixando as comunidades rurais sem assistência.

O modelo uniu atendimento médico e proximidade com a comunidade, já que os profissionais atuavam nas regiões onde viviam. Por isso, é possível identificar semelhanças com o sistema brasileiro de agentes comunitários de saúde e questionar até que ponto os médicos dos pés-descalços influenciaram o sistema de saúde do Brasil.

A origem dos “médicos dos pés-descalços”

médicos dos pés-descalços

Em 1966, início do período da “Revolução Cultural” na China, as áreas rurais do país, diferentemente dos centros urbanos, enfrentavam problemas de saúde, como epidemias e baixa expectativa de vida.

Para sanar o problema, o Ministro da Saúde enviou mais médicos para treinar, durante três a seis meses, os moradores das regiões, que não tinham assistência de saúde, para trabalharem como profissionais da área em parte do dia. As pessoas que atuaram como médicos ficaram conhecidos, posteriormente, como “médicos dos pés-descalços” e receberam conhecimento sobre anatomia, diagnóstico de doenças, prescrição de medicação oriental e ocidental e outros assuntos. O sistema foi associado ao Rural Cooperative Medical Insurance Scheme (RCMIS), um fundo financiado de maneira autônoma pelos agricultores e as vilas, contando com alguns subsídios do governo.

Ainda trabalhando no campo, os médicos dos pés-descalços conciliavam o trabalho manual com os atendimentos para a comunidade. Porém, o auxílio foi suficiente para erradicar várias epidemias e melhorar a saúde das localidades rurais. A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, caiu de 200 por 1.000 nascimentos para 34 por 1.000 em 20 anos. Além disso, a expectativa de vida saiu de 35 anos para 60 anos durante o mesmo período.

O impacto do movimento foi reconhecido até no âmbito internacional, inspirando diretamente a Declaração de Alma-Ata (WHO/UNICEF). O sistema dos médicos pés-descalços chegou ao fim na década de 80, com a reforma do mercado e o fim da base financeira do RCMIS.

Após a extinção do programa médicos dos pés-descalços, o sistema de saúde rural sofreu consequências negativas. Em 2000, a OMS relatou que a China caiu para o 188º lugar, de 191 países, em relação à desigualdade de distribuição de recursos médicos. Para corrigir o problema, o governo criou o New Rural Cooperative Medical Insurance (NRCMI) e o modelo dos médicos pés-descalços voltou a ser objeto de estudo, principalmente pelo sucesso de baixo custo.

O termo “médico dos pés-descalços” deixou de ser usado e passou a se intitular como “médico do condado”. A iniciativa deixou a própria marca ao se tornar modelo e inspiração para o mundo, especialmente, para o Brasil.

A influência dos médicos pés-descalços no Brasil

O Agente Comunitário de Saúde (ACS) são profissionais associados a Unidades Básicas de Saúde (UBS) dos bairros e regiões nos quais fazem parte. As principais responsabilidades são as visitas domiciliares, orientações saudáveis, identificação de riscos de saúde, prevenção de doenças e vigilância à saúde.

Ao refletir sobre a existência dos ACS, é possível identificar similaridades com os médicos p´és-descalços, especialmente pelo surgimento da iniciativa na década de 80 no território brasileiro. Entretanto, não foram encontrados estudos que estabeleçam uma relação direta entre a empreitada da China e o cenário brasileiro.

Porém, o modelo dos médicos dos pés-descalços inspirou a proposta “Saúde para Todos no Ano 2000”, organizada pela OMS e lançada na Assembleia Mundial da Saúde em 1977. A iniciativa influenciou políticas de atenção primária em diversos países, incluindo o Brasil. Embora não haja evidências de uma relação direta entre o programa chinês e a criação dos Agentes Comunitários de Saúde, as semelhanças entre os modelos e a influência internacional da experiência chinesa indicam uma contribuição indireta para o desenvolvimento da estratégia brasileira.