Em 23 de junho, fotos da camiseta de Mark Lee, ex-NCT, circularam nas redes sociais e geraram críticas negativas devido à bandeira dos Estados Confederados. O símbolo é conhecido pela associação a grupos racistas e temas de supremacia branca.

A Upper Room, empresa que gerencia a carreira do cantor e fundada por ele próprio, emitiu um comunicado pelo story do Instagram.
No texto, a empresa pede desculpas pelo caso e explica que a escolha da camiseta baseou exclusivamente na característica vintage da peça. Após conhecer a verdadeira simbologia da bandeira exposta, removeu as divulgações das fotos em todos os ambientes oficiais da marca.

Abaixo, leia a tradução completa do posicionamento:
“Olá, aqui é a Upper Room.
Gostaríamos de apresentar nossas sinceras desculpas pela preocupação, desconforto e decepção causados pela camiseta vintage que apareceu em uma fotografia compartilhada recentemente.
A peça foi escolhida exclusivamente como um item de vestuário vintage. No entanto, ao reconhecermos a importância histórica e a sensibilidade relacionadas ao símbolo exibido na camiseta, tomamos medidas para garantir que ele não fosse visível em nenhum conteúdo oficial. Apesar desses esforços, a imagem foi posteriormente compartilhada externamente, fazendo com que o símbolo ficasse visível e gerasse uma preocupação compreensível entre o público.
Independentemente da intenção, reconhecemos que essa situação deveria ter sido tratada com maior diligência e cuidado. Assumimos total responsabilidade por essa falha.
A Upper Room e o artista rejeitam de forma inequívoca e não toleram racismo, ódio, discriminação ou qualquer forma de intolerância. Compreendemos a gravidade das preocupações levantadas e lamentamos profundamente o sofrimento que esse incidente causou.
Também somos gratos àqueles que chamaram nossa atenção para essa questão. Valorizamos o feedback que recebemos e estamos ouvindo atentamente as preocupações expressas por nossa comunidade. Em resposta, fortaleceremos nossos procedimentos internos de revisão para a seleção de figurinos e aprovação de conteúdo, a fim de ajudar a evitar que incidentes semelhantes ocorram no futuro.
Pedimos sinceras desculpas a todos que se sentiram magoados, ofendidos ou decepcionados por essa situação. Continuamos comprometidos em agir com maior responsabilidade, consciência e cuidado daqui em diante.
Upper Room“
Qual a verdadeira simbologia da camiseta de Mark Lee?
A Guerra Civil dos Estados Unidos da América (EUA) iniciou em 1861 e foi um conflito entre as regiões Norte e Sul do país devido à discordância sobre a abolição da escravidão. O Norte, chamado de “União”, defendia a abolição e o Sul, os “Estados Confederados da América”, eram a favor do sistema escravista.
A bandeira, criada por William Porcher Miles, se tornou símbolo do Sul durante a época, associando-se à opressão e ao racismo. David Goldfield, autor de “Still Fighting The Civil War” (“Ainda lutando a Guerra Civil”, em tradução livre) disse que a discussão acerca da bandeira, em 1862, mostrava que a confederação desejava uma representação da supremacia branca e marcar a sociedade com a escravidão. Vale ressaltar que na época surgiram variações do mesmo símbolo, então não há uma bandeira oficial, mas todas continham elementos extremamente similares na construção.

Ainda há o uso da bandeira, como em adesivos, itens de decoração, vestuários, como visto na camiseta de Mark Lee, e outros objetos. Porém, o que mais chama a atenção é a adoção do símbolo por grupos extremistas, como a Ku Klux Klan (KKK), grupo de supremacistas brancos, causadores de várias violências e preconceitos contra a população negra nos EUA. Bill Ferris, diretor do Centro de Estudos da Cultura Sulista da Universidade do Mississipi nos EUA, afirmou que a bandeira é equivalente à suástica, símbolo do nazismo.
Por que a bandeira resistiu ao tempo?
A resposta para a pergunta tem vários caminhos devido ao racismo sistêmico, mas um marco ajuda a entender o porquê da bandeira dos confederados ainda ser popular.
Após a Guerra Civil e a derrota do Sul, instalou-se a segregação racial nos EUA, intitulado de “período Jim Crow”, que existiu entre 1877 a meados de 1960. Em 1948, o Partido Democrata dos Direitos dos Estados, os “Dixiecrats”, conhecido por ser racista e pró-segregação, era formado por democratas do Sul e se opuseram à proposta do Partido Democrata de conceber uma plataforma pró-direitos civis.
Além disso, os opositores criaram comoção quando os milhares de negros dos EUA se registaram para votar nas primárias democratas, após a Suprema Corte declarar como inconstitucional a permissão de apenas brancos poderem participar das eleições.
Com isso, a popularidade da bandeira aumentou como uma maneira dos Dixiecrats se posicionarem sobre o contexto da época, o que impulsionou uma “moda da bandeira”, onde o símbolo era vista nas universidades e campos de batalha.
Segundo o historiador John M. Coski, a Cruz do Sul, presente no emblema, simbolizava rebeldia, mas, na época da popularização, tornou-se um símbolo de resistência à integração racial e fomentação dos direitos civis.
Mesmo após a aprovação da Lei dos Direitos Civis de 1964, onde forçava os estados do Sul a interromperem a segregação racial, a bandeira se manteve relevante com o tempo, especialmente por meio da cultura popular, onde figuras diziam que ela se tratava apenas de rebeldia e agitação social.
Porém, a associação aos movimentos de ódio e racismo se mantiveram consistentes, como visto durante o julgamento de 1994 de Byron De La Beckwith, supremacista branco que assassinou Medgar Evers, líder dos direitos civis, e, durante o julgamento, usou um broche com a bandeira.
Os debates acerca da representação se mantiveram e houve protestos contra o uso, especialmente por ser vista em contextos de violência racial. Até mesmo durante a invasão do Capitólio dos EUA em 2021, pôde-se perceber pessoas carregando o símbolo.
Uma pesquisada realizada pelo YouGov em 2019, onde entrevistaram mais de 34 mil estadunidenses sobre a representação e legado da bandeira, mostra que 41% das pessoas a vêem como marca de racismo, mas 34%, dessa porcentagem, a maioria é composta por pessoas de mais de 65 anos, brancos, moradores de zonas rurais ou sem Ensino Superior, enxerga a bandeira como herança cultural. Com isso, a discussão sobre o tema ainda está acontecendo e diferentes frentes atuam em prol do desuso do símbolo, enquanto outras buscam forças nele.
O histórico de acusações racistas contra Mark Lee: ele tem culpa?
Mark já esteve no meio de polêmicas racistas anteriormente. Durante uma live, ele conversou utilizando o African American Vernacular English (AAVE), “Inglês Vernáculo Afro-Americano”, em tradução livre, que é uma característica linguística que negros dos EUA construíram ao se comunicarem. No vídeo, fãs ainda apontam que Ten realça a tentativa de Mark emular o AAVE e parece “chamar a atenção” do colega de grupo.
O mesmo problema aconteceu quando Mark e Johnny ensinaram Chenle a utilizar o AAVE porque o membro do NCT DREAM conheceria pessoalmente o jogador de basquete Stephen Curry. A dupla escolheu a abordagem simplesmente pelo atleta ser negro, o que reforça estereótipos de que negros só entendem inglês se for por meio da linguagem negra. Além da insensibilidade, os dois reforçaram para um grande público algo que a população negra já deixou claro ser ignorante.
Outro caso leva à época do SuperM quando Lucas (ex-SuperM) sentou-se de um lado em que havia pouca luz no carro e Mark e Baekhyun disseram que não conseguiam enxergá-lo por causa da escuridão (1min17s). Lucas tem a pele mais escura do que os outros idols, então o comentário causou comoções e acusações de colorismo contra Mark Lee.
A situação do ex-NCT se torna ainda pior ao tomarmos conhecimento de que ele nasceu no Canadá e morou anos nos EUA, então é difícil acreditar que ele não tenha tido contato com a comunidade negra ou aprendido sobre a história, como a Guerra Civil, que é um marco para o contexto estadunidense.
Além disso, a nota da empresa esconde Mark e o tira do protagonismo do problema, mesmo ele sendo fundador da Upper Room e o único artista sob o selo. Quando a empresa assume a responsabilidade, ela causa um distanciamento entre as acusações e o artista, o isentando do que foi feito, uma vez que coloca o caso como algo gerado pela marca. Se fosse em uma estrutura maior de negócio, como a própria SM Entertainment, o redirecionamento da culpa poderia ser mais efetivo, mas a Upper Room não é uma empresa do mesmo porte, então acredita-se que Mark tenha participação criativa e administrativa na companhia.
Depois das acusações de racismo, Mark agradeceu os fãs por estarem ao seu lado e a empresa postou uma foto com a frase “Obrigado por apoiar o Mark”.

Contudo, fãs e portais dedicados ao artista ou aos grupos que ele fazia parte se posicionaram contra Mark e deixaram de apoiá-lo. Ainda, o acusam de ser MAGA — termo que se refere aos apoiadores de Donald Trump e direitistas — e o apelidaram de Kirk Lee devido à aproximação ao cristianismo e amizade com figuras controversas e conservadores, como o ERIC NAM e a Belle do KISS of Life. Com esse cenário, a inserção de Mark Lee no mercado estadunidense pode encontrar resistência tendo em vista a dimensão das acusações e histórico.
A camiseta de Mark Lee é mais do que estética
A moda é política e transmite uma mensagem, indo para além da estética. Não é em vão o fato do k-pop ser altamente influenciado pela cultura negra, tendo em vista os aspectos intangíveis que a cultura do rap e hip hop, por exemplo, transmite.
A cada ano, surge problemas similares no k-pop, como o caso da camiseta da Chaeyoung do TWICE, e as desculpas são sempre as mesmas: não havia conhecimento sobre o teor do símbolo. A busca por compaixão baseada na ignorância é uma estratégia inteligente, por criar uma zona cinza, mas expõe a contínua falta de estudo e reconhecimento sobre a história de um povo que construiu boa parte do que é usado na indústria musical sul-coreana. O próprio Mark Lee é um exemplo disso e já recebeu críticas anteriormente por tentar emular um “comportamento de negro, principalmente por meio da fala.
Não há provas sobre as intenções por trás, até pela empresa ser nova, mas é necessário responsabilização e promoção de mudanças significativas nos bastidores. Mark é uma figura extremamente popular e influenciável e a responsabilidade com o que projeta é grande.
Para os fãs, o silêncio é conveniência. Ignorar o caso é assumir que ele não é importante, então é necessário que a partir dos acontecimentos, se fale mais sobre eles e promovam conscientização coletiva para que as empresas entendam que há quem ainda “liga” para respeito de verdade.
