Já parou pra pensar como a forma que gente escuta música mudou? É inegável, os dispositivos individuais de música transformaram o jeito como nos relacionamos com as nossas playlists favoritas. E olha que duas criações bem asiáticas foram pioneiras nessa história: o Walkman (da japonesa Sony) e o MP3 Player (da sul coreana SaeHan).

Antes deles, a música era essencialmente coletiva. Por séculos, as pessoas precisavam se reunir em locais específicos pra assistir a uma apresentação. Depois, era a vez de famílias, amigos e vizinhos se juntarem em volta do gramofone ou da vitrola pra compartilhar aquele som especial. A música sempre teve esse poder de unir e não é à toa que por tanto tempo ela viveu no plural.

Com o avanço das tecnologias e um estilo de vida cada vez mais individualista, o consumo musical se transformou. A busca por experiências particulares deu o pontapé pra criação dos dispositivos pessoais. E desde o século passado, essas invenções vêm moldando, e muito, o mercado musical que a gente conhece hoje.

Walkman

Primeiro modelo do Walkman (1979)
Primeiro modelo do Walkman.

Apesar da disputa judicial pelo título de primeiro dispositivo individual, entre Andreas Pavel, o germano-brasileiro criador do “Stereobelt” (1977) e a empresa japonesa Sony Group Corporation, criadora do Walkman (1979), que foi resolvida com um acordo entre ambas as partes, o sucesso do Walkman, com certeza, foi histórico.

Ele revolucionou o hábito de ouvir música, afinal agora era possível não apenas escutar música sozinho como em qualquer lugar, mesmo que estivesse realizando uma atividade. O mercado japonês respondeu imediatamente de forma positiva, vendendo no primeiro ano mais de 300 mil unidades.

O sucesso mundial, veio com a entrada nos EUA e a publicididade massiva relacionando o queridinho a um estilo de vida descolado e a praticidade em ouvir música. Neste cenário, a empresa chegou a faturar mundialmente, em cinco anos, mais de $6 bilhões de dólares.

Propaganda do Walkman no EUA
Propaganda estadunidense do Walkman

Para além dos novos hábitos, o Walkman acabou influenciando o desenvolvimento de outras tecnologias, como os fones de ouvido que inicialmente eram mal vistos, já que eram associados à uma prática anti-social e, como já citado, ouvir música era uma ação coletiva.

Sem falar na outras tecnologias derivadas que vieram da parceria da própria Sony com a empresa holandesa Philips no desenvolvimento do CD, do DVD e do CD player.

Mp3 Player

Indo do analógico para o digital, temos outra criação, o Mp3 Player (1997) desenvolvido pela empresa sul coreana SaeHan Information Systems.

Ao adotar o MP3, desenvolvido pelo Instituto alemão Fraunhofer, como o novo formato para os arquivos de música, temos a possibilidade de reunir vários álbuns musicais em um aparelho que cabia no bolso, já que dispensava a necessidade do suporte físico para armazenar as músicas, como a fita cassete ou CD.

Mp3 player da SaeHan
Primeiro despositivo Mp3 Player, também conhecido como MPMan da SaeHan

O Mp3 player foi o primeiro aparelho que, utilizando o formato MP3, possibilitou essa coleção particular, impactando diretamente na forma que as músicas eram adquiridas, compartilhadas e armazenadas.

A tecnologia do MP3 e seus derivados possibilitou um maior acesso às produções musicais, democratizando o espaço da música, que passou a florescer ritmos e gêneros antes marginalizados. Afinal, agora era apenas necessário realizar downloads de arquivos em bases de armazenamento pela internet como 4Shared e µTorrent e você tinha sua própria biblioteca sonora.

O resgate pela cultura pop e as novas tecnologias

E se engana quem acredita que após os streamings eles morreram, afinal, com as gerações passadas se tornando novos adultos, o mercado passa a apelar pelo sentimento nostálgico, que também vem sendo visado pela cultura pop, seja nos filmes, séries ou mesmo a literatura. E o processo continua.

No k-pop, nomes como o NewJeans, BLACKPINK, RIIZE, f(x), BTS, Stray Kids e ShiNee já lançaram singles e álbuns em versão cassete que podem ser utilizados em Walkmans ou servir como itens de colecionador. Também temos o exemplo do U-know, membro do grupo TVXQ, que para seu primeiro álbum solo “I-KNOW”, disponibilizou uma edição limitada que vinha um walkman personalizado.

Publicidade do álbum "I-KNOW" que vem com walkman personalizado
Publicidade do álbum “I-KNOW”, lançado em 2025.

A indústria pós redes sociais e streaming passaram a reinventar a roda, como uma forma de manter a curiosidade e consumo ativo das novas gerações, principalmente se apoiando nas críticas ao consumo físico desacerbado, temos visto novas soluções serem implantadas como o caso dos Mini CDs NFC.

Eles unem “funcionalidade” com a estética, e temos que admitir que realmente são acessórios fofos 🥹. Apesar da funcionalidade questionável, uma vez que a função é levar o usuário a uma plataforma exclusiva para streamar as músicas, e por vezes oferecem bônus, como uma faixa exclusiva, mas que também servem como um acessório do dia a dia.

Mini CD NFC  do álbum "Welcome To My World" do aespa, lançãdo em 2023.
Mini CD NFC do álbum “Welcome To My World” do aespa, lançãdo em 2023.


A verdade é que estamos vivendo uma enorme pressão por replicar os sucessos passados e a saída para muitos mercados tem sido resgatar o que já foi um sucesso, a exemplo de relançamentos versão delux de álbuns que já foram hits, mas alinhado com os discursos da geração atual.

Que, por sua vez, está cansada de estar presa às redes sociais e sendo bombardeada de tanta informação, busca por formas alternativas de consumo que priorizem o bem estar e a saúde mental, sem abrir mão das possíveis experiências coletivas e mesmo da própria individualidade.