Hoje é Dia do Trabalhador e nada mais justo que trazer o maior CLT do universo de Jujutsu Kaisen: Nanami Kento. Cansado, confinado em um computador, exorcisando maldições, entregando mais do que é obrigatório… diria que Nanami representa muito bem o trabalhador brasileiro. Só que, por incrível que pareça, não é exatamente esse o ponto deste texto. Então, por que nos identificamos com Nanami Kento?

Se você não acompanha o anime ou não leu os mangás, mas tem interesse em começar, melhor parar por aqui, ok? É impossível destrinchar esse tema sem trazer spoilers importantes sobre a trama e o personagem.

nanami kento

De feiticeiro a assalariado

Eu sou alguém sem o conceito de “propósito de vida” ou “coisa que vale a pena fazer”. Só quero ganhar uma quantidade razoável de dinheiro até os 30 ou 40 anos e aproveitar o resto da minha vida sem propósito em outro país mais barato. – Nanami Kento.

Nanami nasceu com a habilidade de enxergar maldições e o poder para exterminá-las. Prático, assertivo e até um pouco quadrado, a personalidade dele conversa perfeitamente com a técnica única do feiticeiro: a capacidade de encontrar o ponto fraco do inimigo em uma proporção de 7:3. Independente do local do corpo, ele vai achar essa proporção e causar estrago.

Quando entrou para a Escola Jujutsu em Tóquio, Nanami se enturmou com o animado Haibara Yu. A diferença de atitude e forma de enxergar a vida é bastante óbvia, mas funcionou para os dois. Enfrentando missões juntos, como é a dinâmica dos alunos, os dois se tornaram amigos, mas por um erro na classificação em uma das várias maldições que a dupla enfrentou no Ensino Médio, Haibara morre.

A morte do amigo ensina a Nanami que o mundo não é justo, que boas pessoas morrem por erros e incompetência de outros e que o sistema em que ele está inserido, contra vontade, está quebrado e sem condições de reparação. Um pouco como o próprio personagem se sente também. Encarar esses fatos o transformou. Por quatro anos, ele se dedicou a uma vida fora do universo da feitiçaria, trabalhou de forma exaustiva como um funcionário de coorporação, sem algum propósito específico além de querer juntar dinheiro e morar em uma praia isolada na Malásia.

Durante todo esse período, tanto o anime, quanto o mangá, mostram que Nanami odiava o que fazia justamente por não ver sentido naquilo. Enquanto ele dedicava horas, dias, semanas e meses a digitar números e cuidar do dinheiro de outros, pessoas continuavam a morrer como Haibara. Seguir como um assalariado, então, parecia mais uma fuga, principalmente quando se sabe que você tem o poder de fazer a diferença.

E é nesse momento que algo bastante importante sobre nosso CLT favorito fica evidente: a régua moral afiada. Para Nanami, estar em um emprego sem sentido, enquanto outros morrem diariamente, e viver com essa informação sabendo que pode fazer a diferença é algo insustentável. É errado. Afinal, ele se preocupa demais com todos. Por isso, mesmo com as falhas e a incompetência daqueles em maior posição de poder, e sabendo que não vai conseguir mudar o sistema, decide voltar para a feitiçaria e não o faz de um lugar de paixão, mas de responsabilidade. Ele não lutava por amar aquilo, mas por entender que não o fazer era uma alternativa inaceitável dentro do padrão moral do personagem.

A tragédia de Nanami Kento

Quando o Incidente em Shibuya acontece, Jujutsu Kaisen vira uma sequência de caos: maldições correndo soltas pelo bairro, Gojo selado e Nanami no centro de tudo. Ele luta contra personagens fortes e sobrevive a uma vastidão de demônios até encontrar Jogo e ter boa parte do corpo queimado.

E o que ele faz?

Continua trabalhando. Continua exorcizando maldições, uma atrás da outra, porque alguém precisa fazer isso. Porque é o que feiticeiros fazem e a régua moral de Nanami nunca o deixaria parado, afinal, parar significa que outros vão morrer. É como reviver o momento com Haibara.

Em uma análise bem completa, o canal Geek Psyche apontou que Nanami é a personificação do cansaço existencial. Afinal, ele vive em um ciclo de não poder parar porque fazer isso é pior para todos. Isso é tão claro que Nanami trabalha até a morte. Literalmente. Durante o incidente em Shibuya, nos últimos momentos de vida e ainda lutando, a régua moral continua afiada. Nanami pensa em Maki, em Megumi e em Naobito, personagens aliados, e se pergunta como eles devem estar. Se estão bem, se sobreviveram. Porque este é Nanami Kento, alguém que se preocupa em proteger os outros.

Prestes a morrer, ele não tem medo, não sente dor, mas se pergunta: eu fiz o suficiente? Para mim, essa é a verdade tragédia de Nanami e também um dos vários motivos que me faz odiar Gege Akutami. Nosso CLT fez mais que o suficiente. Adiou a vida, desistiu de sonhos, viveu para os outros e morreu em uma estação de metrô, enquanto se imaginava na Malásia, aproveitando o sol e a brisa do mar. No fim, Haibara aparece para Nanami na estação e aponta para Yuji que se aproxima da cena.

Para o Geek Psyche, essa aparição faz Nanami perceber que o retorno à feitiçaria não foi por motivos egoístas (não que já não soubessemos), mas para garantir que a próxima geração de feiticeiros não morressem como Haibara. Então, em um último ato de serviço, Nanami se vira para Yuji, sabendo que não poderá mais proteger e ensinar o garoto, mas que pode fazer uma última coisa pelo jovem: escolher bem as últimas palavras, já que feiticeiros à beira da morte podem amaldiçoar os vivos. Por isso, sorrindo, ele olha para Yuji e o deixa com um simples “o resto é com você”. Nanami merecia mais.

Moral da história?

Se pararmos pra pensar um pouco, vivemos de uma forma um pouco semelhante. Nós também não vamos conseguir destruir o sistema em que estamos inseridos, mas, pra ser sincera, talvez esse não seja o ponto. Talvez todas as pequenas coisas que a gente vive diariamente podem ser o suficiente. Momentos com amigos ou familiares, voltar para casa e ser recebido pelo seu pet, beber um café superfaturado ou uma coquinha gelada…

Talvez, viver correndo atrás de promoções no emprego não seja, necessariamente, o mais importante. Sim, todos podemos fazer isso, podemos aspirar condições de vida melhores, mas a questão aqui é o quanto adiamos nossa vida para depois de tal idade, depois de tal promoção, depois e depois. Só que o mundo não para pra esperar, certo?

Então, ao invés de sonharmos com nossa própria Malásia por anos, podemos nos voltar um pouco para o presente e ver o quanto somos atravessados por pequenas coisas que têm grandes impactos. Assim como o quanto nós mesmos atravessamos outras pessoas de formas pequenas e, sem saber, causamos repercussões importantes. Portanto, tento encerrar esse texto sem uma pegada motivacional em excesso e, para isso, deixo a dica: já mandou mensagem para alguém especial hoje?