Os contratos assinados pelas integrantes do NewJeans previam que a ADOR poderia continuar utilizando suas imagens e vozes, inclusive por meio de inteligência artificial, mesmo após o fim do vínculo. Os acordos também estabeleciam multas milionárias, restrições à vida pessoal e retiravam garantias básicas previstas no modelo de contrato do governo sul-coreano. Os detalhes dos documentos, assinados quando as artistas tinham entre 14 e 17 anos, foram revelados pelo The New York Times nesta quinta-feira (05.11).

Antes de seguir, é preciso deixar claro que a reportagem não esclarece se todas as cláusulas reveladas continuam válidas ou se foram alteradas. Caso tudo permaneça igual, os contratos do NewJeans com a ADOR têm validade até 2029.

Os acordos permitiam que a gravadora continuasse utilizando e licenciando as imagens e vozes das integrantes mesmo após o encerramento do vínculo. Os royalties continuariam sendo pagos, mas as artistas perderiam o controle sobre o uso de suas imagens e vozes, que poderiam ser clonadas por inteligência artificial. Em outras palavras, a ADOR poderia, por exemplo, usar a voz das meninas para criar novas músicas sem a necessidade de tê-las em estúdio.

O controle da ADOR estendia-se à vida pessoal e à liberdade de expressão. Contratualmente, as integrantes eram proibidas de fazer declarações públicas que pudessem prejudicar a imagem das próprias artistas ou a reputação da empresa. Os acordos também restringiam comportamentos considerados inadequados, como relacionamentos amorosos.

Além disso, os contratos previam a possibilidade de a ADOR exigir o pagamento de multas em caso de rompimento do vínculo, mesmo quando a decisão partisse da própria empresa. O valor era calculado com base na média dos ganhos mensais da artista nos últimos dois anos, considerando apenas os meses em que houve faturamento. Essa média era então multiplicada pela quantidade de meses restantes até o fim do contrato.

Na prática, se uma integrante recebesse, em média, R$ 100 mil por mês e ainda faltassem 12 meses para o encerramento do contrato, a multa chegaria a R$ 1,2 milhão. No caso de Danielle, que teve o contrato encerrado em dezembro de 2025, a empresa entrou com uma ação pedindo US$ 22 milhões, cuja maior parte corresponde às multas pelo encerramento do vínculo.

Atualmente, o governo sul-coreano conta com um modelo de contrato para garantir que os artistas não sejam lesados. Entre as cláusulas sugeridas, estão a proteção à saúde física e mental, à educação e ao direito ao descanso, além da proibição de treinamentos excessivos para menores de idade. Essas garantias, entretanto, foram retiradas dos contratos do NewJeans, segundo a investigação do The New York Times.

Em resposta à reportagem, a HYBE alega que os contratos estão de acordo com a legislação sul-coreana e que todas as alterações em relação ao modelo do governo foram aceitas pelos responsáveis legais das integrantes. Além disso, afirma que não impediu períodos de descanso e que as multas seguem os padrões da indústria sul-coreana.