Lee Soo Man disse, durante a World Cultural Industry Forum em 2020, que o aespa marcaria o início de uma nova identidade no k-pop. Seis anos depois, pode-se confirmar que ele estava certo.

Com um debut na época da pandemia do COVID-19, o aespa se viu em um contexto de isolamento que impossibilitou as interações comuns no k-pop, como as apresentações e entrevistas em programas. A época simbolizou um momento de diversificação das plataformas multimídia para a sobrevivência dos setores de trabalho e na indústria do k-pop não foi diferente. Os idols estavam ainda mais presentes nos canais digitais e divulgaram com mais ênfase as atividades.

O aespa precisou debutar em um contexto atípico e de risco, mas o preparo do conceito e impacto inicial do grupo permitiu que, no meio de uma adversidade, ele prosperasse e se estabelecesse como um dos principais atos do k-pop contemporâneo.

O conceito do aespa

A SM Entertainment tem um histórico de fazer escolhas ousadas nos lançamentos. f(x), NCT 127 e até o Red Velvet são conhecidos por terem algumas faixas de música que mesclam instrumentais atípicos em um ritmo frenético e, aparentemente, sem a lógica linear do pop tradicional. Com o aespa, a empresa foi além.

Em “Black Mamba”, debut do grupo, apresenta-se o universo Kwangya — um dos mundos alternativos da história, conhecido por ser infinito, sem forma e definição de tempo e espaço —, a Black Mamba e outros termos que se tornaram comuns nas faixas futuras do grupo.

Inicialmente, o aespa teria, tecnicamente, 8 membros: Giselle, Karina, Winter, NingNing e as 4 variações virtuais de cada membro, intituladas de “ae”. A proposta era criar experiências nos ambientes digital e real, onde ocorria a luta contra vilões e a trama se desenrolava. A proposta foi ambiciosa e a tecnologia foi o principal fator de distinção do aespa, devido à originalidade em unir os universos reais e digitais e storytelling que o grupo construiu.

Além disso, o aespa se destacou musicalmente também pelas influências de instrumentos eletrônicos e distorcidos, bem como por meio dos clipes produzidos com efeitos especiais e características similares aos filmes de ação, conhecidos pelo uso de CGI, elevando a característica digital e inovação.

A receita para o conceito do aespa fez sentido, especialmente pelo fato de a geração Z nascer com a tecnologia sendo uma ferramenta nativa da existência. O ambiente online é visto como uma maneira de escapar dos problemas reais e preencher lacunas emocionais, o que permitiu que a identidade do aespa se tornasse ainda mais atrativa.

A disrupção com as normas tradicionais da música continuou na faixa “Next Level”.

Além da música ser um remake de “Next Level” de A$ton Wyld para a trilha sonora do filme “Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw”, o aespa quebrou a expectativa musical e mesclou gêneros musicais diferentes em uma única faixa, o que influenciou outros grupos do k-pop a fazerem o mesmo. O clipe carrega várias referências visuais de tecnologia e universo virtual, reforçando a ideia motriz do grupo e resgatando referências ao pós-modernismo no estilo visual e musical.

A experiência por meio da tecnologia e realidade virtual foi para além do aspecto sonoro e visual. O álbum “Savage” contém um portal virtual que os fãs acessam ao escanear o álbum com um aplicativo específico. Para ganhar os photocards das aes é necessário passar pelo mesmo processo.

A era “Savage” marcou outro ponto importante para a identidade visual do aespa: a construção da estética Y3K.

O estilo Y3K do aespa

Y3K é uma sigla para “Year 3000” e representa o futurismo inspirado por elementos de ficção científica. Tecidos metalizados, linhas e predominância do preto, metal e neon marcam as principais características do estilo.

O Y3K também é conhecido pelos materiais holográficos, padrões digitais, cortes de roupa inovadores, iluminadores, maquiagem com acessórios e assimetria.

A estética alude ao futuro e, consequentemente, às possibilidades, como é perceptível verificar em produções que falam sobre o mesmo tema.

Por mais que “De Volta para o Futuro” e “Eu, Robô”, por exemplo, não carreguem elementos Y3K, os filmes ainda tratam sobre tecnologia e futuro e são produções populares, por causa, também, do que os anos seguintes poderiam representar para o público da época em que foram lançados e como uma forma de escape do que viviam.

Em “Armageddon”, aespa resgata esses elementos e mistura com referências de moda e visual que fazem alusão ao fim do mundo:

A evolução do aespa

O grupo nasceu com um conceito definido, mas disposto a evoluir para unir a identidade à atratividade do público geral também.

De “Black Mamba” a “Girls”, o aespa cantava sobre a história do grupo. Kwangya, aes, Black Mamba, Naevis e outros termos marcavam a letra das músicas e narravam a história por trás do conceito do grupo. Porém, ao mesmo tempo em que os elementos enriqueciam a identidade, parecia ser “muita coisa” para novas pessoas absorverem.

Então, a partir de “Spicy”, o aespa renovou a imagem do grupo ao trazer a música e o clipe com características mais aproximadas ao que é encontrado frequentemente nos grupos femininos da indústria do k-pop. Todavia, o grupo não abandonou inteiramente o que construiu. O instrumental ainda carrega distorções sonoras e o visual brinca com glitches e efeitos tecnológicos.

O aespa marcou uma nova fase da identidade com a faixa e o universo deixou de ser o principal foco das músicas, dando lugar a temas mais relacionáveis com o público geral e aumentando as chances de atrair mais pessoas para a fã-base.

A influência do aespa

Desde o debut, o aespa se consolidou como um grupo que cria tendências, tanto no âmbito da música, quanto no visual. Ao adotar o Y3K permitiu identificar a marca “aespa”, mesmo sem o rosto das integrantes. O nível de reconhecimento mostra a conquista em tomar símbolos e associações únicas.

Até mesmo as mudanças decorrentes da adoção de um estilo musical e lírico mais gerais, em detrimento do conceito, aconteceu de maneira suave e sem romper com a totalidade do que foi construído anteriormente, permitindo que o aespa mantivesse a fã-base já conquistada enquanto atraía mais pessoas.

O grupo mostrou que não tem medo das mudanças e do não convencional — na verdade, é onde mais prospera. Ao mesclar hip hop e hyperpop, as integrantes mostram as possibilidades do que têm e do que podem construir. Criando uma identidade ainda mais consistente, o grupo surpreende o público a cada lançamento ao mesmo tempo em que gera reconhecimento.

Em “WDA (Whole Different Animal) (Feat. G-DRAGON)”, o aespa mostrou mais novidades sobre o que pode fazer. Visualmente, o grupo mescla os elementos de tecnologia com os vídeos conhecidos como “creepypastas”, criando uma atmosfera com características do horror, influenciada pelo instrumental distorcido.

Já em “LEMONADE”, vemos outro lado mais hyperpop e colorido:

Assim, a diversidade ainda se estende ao ouvir o álbum completo, onde elas transitam por diferentes estilos e cantam ao lado de nomes como Ty Dolla $ign e Becky G, o que mostra a busca do aespa pelo sucesso global. Com uma identidade construída e sonoridade consistente e ousada, o mundo pode se beneficiar e muito ao dar uma chance para um dos grupos sul-coreanos mais promissores dos últimos anos.