Avatares virtuais trabalhando no atendimento ao público não é algo inimaginável considerando todas as inovações tecnológicas que temos visto nos últimos anos. Nesse caso, entretanto, a história vai muito além de mera inovação tecnológica.
Como uma tentativa de inclusão e apoio a pessoas que estão de alguma forma em isolamento social, principalmente os jovens, uma parceria entre a Fundação Coreana da Juventude, o Serviço Nacional de Seguro de Saúde e as empresas Not Scary Company e Overthehead foi lançada no mês de junho, o “shy cafe”.
O “shy cafe” foi uma pop-up store instalada no bairro de Songsu, em Seul, com o objetivo de permitir que jovens que enfrentam o isolamento social interajam com outras pessoas por intermédio de um avatar. Enquanto estavam em computadores no outro andar das lojinhas, os clientes interagiam com eles e faziam os pedidos por meio do avatar.

Para incentivar a interação entre os jovens e os clientes, ao lado das telas de pedido haviam cartões com sugestões de temas e perguntas para que ambos pudessem conversar enquanto faziam os pedidos.
Durante os dias de funcionamento da pop-up store houveram muitos momentos de trocas, nos quais os clientes compreenderam e simpatizaram com a situação dos jovens e esses, por sua vez, puderam se enxergar capazes, apesar das dificuldades.
O objetivo principal do projeto foi reintroduzir gradualmente os indivíduos que estão em isolamento na sociedade, tendo em vista que a inserção abrupta desses jovens pode tornar ainda mais difícil as interações. Assim, o “shy cafe” foi apenas uma ponte.

Essa não é a primeira iniciativa do tipo que acontece na Coréia do Sul, algumas empresas já vêm adotando alternativas para incluir pessoas em isolamento social. Uma dessas formas é o home office como um intermediário antes do início do trabalho presencial, dessa forma a integração desses jovens ao ambiente social de trabalho promove uma adaptação gradual.
Além disso, em abril, foi anunciado pelo prefeito de Seul um investimento de 100 bilhões de wons em alternativas que incentivem jovens em isolamento a darem o primeiro passo para a reintegração social. O dado que incentivou tal decisão foi o resultado de uma pesquisa municipal realizada em 2025, onde constatou-se que cerca de 54 mil jovens entre 19 e 39 anos viviam em estado de isolamento extremo, definido como raramente sair de casa por pelo menos seis meses, sem qualquer atividade econômica, acadêmica ou de busca por emprego recente. Outras 194 mil pessoas, ou 7,1%, relataram isolamento social prolongado.
Neste caso, o foco é a identificação precoce e uma intervenção com apoio familiar. Entre as diversas alternativas estão: a expansão de serviços de aconselhamento à família e de apoio a adolescentes e jovens fora do sistema educacional, programas de educação parental, entre outras ações. Vale também um destaque especial para o anúncio de uma clínica especializada para jovens em situação de alto risco. Com inauguração prevista ainda para este mês de julho, em um hospital municipal, a clínica irá oferecer tratamento e apoio financeiro àqueles em risco de quadros psiquiátricos graves ou de autolesão.

Os motivos que levam ao isolamento social podem ser muitos e variam de pessoa para pessoa, por isso iniciativas como o “shy cafe” podem ser um passo importante e uma alternativa interessante para a inclusão de jovens que vivem nessas condições. Porém, é evidente que, assim como a inserção abrupta pode ser mais prejudicial que benéfica para essas pessoas, uma alternativa isolada de reintegração pode não ser suficiente.
Por mais que o “shy cafe” tenha obtido um retorno positivo por parte dos participantes, é importante que a tecnologia não se torne uma mera máscara para essas pessoas nem acabe favorecendo ainda mais esse isolamento, sem que haja, de forma saudável e gradual, uma tentativa de inclusão para além da tela.
Assim, é importante que sejam feitas ações conjuntas e iniciativas como as anunciadas pelo prefeito de Seul, que podem ser uma boa alternativa para promover a reintegração social com uma visão de longo prazo.



