Nos últimos anos, os valores de sucesso, antes baseados no trabalho árduo para formar uma família e ter uma casa própria, começaram a ser repensados devido à economia estagnada e à rápida urbanização, que tornam esses dois elementos quase utópicos (e na China não é diferente!). Por lá, o fenômeno está refletido na quantidade de indivíduos que escolhem ter uma rotina solitária, e o aplicativo “Você Está Morto?” (ou “死了么?”, em mandarim) vem ganhando atenção entre esse público por um motivo simples: evitar que ele passe despercebido pelos entes queridos. 

Deixa eu te explicar essa ideia melhor (e não, não precisa se assustar com o nome, porque o aplicativo é mais inofensivo do que parece). 

“Te amo, velho amigo” (“爱你老己”) se tornou uma trend popular no Douyin (o TikTok chinês) e no Weibo desde dezembro de 2025, referindo-se aos memes sobre amor-próprio. Para alguns psicólogos, a ideia surgiu das incertezas que a sociedade provoca no indivíduo, da pressão econômica à ansiedade social, levando os jovens a construírem uma barreira de defesa por meio dessa “terceira pessoa”, como forma de reduzir a intensidade emocional e reforçar que o destino está em suas próprias mãos. 

A trend começou com um blogueiro querendo comer uma laranja, mas sem coragem para descascar. Ainda assim, ele descascou a fruta e entregou a si mesmo, agradecendo seu “eu do passado” pelo esforço. Ou seja, a ideia por trás está relacionada a não esperar passivamente pelo cuidado dos outros, mas se tornar o próprio pilar.

Em uma entrevista para a TIME, Ashley Dudarenok, diretora de consultoria de pesquisa de mercado na China e em Hong Kong, afirmou que a geração mais nova começou a gastar com bonecas da Pop Mart (como os famosos Labubus) e em pequenas refeições mais caras como resposta ao mercado de trabalho hipercompetitivo, com salários estagnados e custo de vida crescente:

Quando os indicadores tradicionais de sucesso, como casamento e casa própria, se tornam estruturalmente inacessíveis para muitos, os jovens são forçados a redefinir o que significa uma ‘boa vida’. Se não podem comprar uma casa, pelo menos podem se dar ao luxo de desfrutar de uma boa refeição ou de um brinquedo da Pop Mart que lhes traga alegria. – Dudarenok para a TIME.

A mudança de pensamento não está apenas nesses gastos materiais, mas também na mobilidade urbana. Tradicionalmente, as famílias chinesas viviam próximas, mas muitos jovens começaram a deixar as casas para trabalhar ou estudar, principalmente nas grandes cidades como Pequim. O país registrou cerca de 100 milhões de domicílios unipessoais e, de acordo com o relatório anual do Departamento Nacional de Estatística da China em 2024, é estimado que esse número chegue a 200 milhões em 2030

Para Zhu, uma jovem chinês que vive em outro país, a razão dessa mudança está no fato de muitas pessoas desejarem ter seu próprio ritmo, sem a pressão familiar. Ao mesmo tempo, essa pode ser uma vida solitária, já que muitos acabam se isolando, principalmente em grandes cidades, onde conexões sociais podem soar superficiais. É nesse contexto que o aplicativo “Você Está Morto?” surge. 

O crescimento de domicílios unipessoais impulsionou a criação de produtos e serviços voltados para esse estilo de vida individual e, por isso, o aplicativo começou a chamar atenção. Criado pela empresa Moonscape Technologies, a proposta dele é simples: os usuários fazem um check-in a cada 48 horas, pressionando um botão verde para confirmar que estão vivos. Se isso não é feito, o aplicativo automaticamente envia notificações para um contato de emergência previamente cadastrado. 

Interface do aplicativo "Você Está Morto". No caso, um botão verde no meio da tela, para o usuário fazer "check-in".
Interface do aplicativo, com o botão de check-in. Fonte: REUTERS/Tingshu Wang/Illustration.

No caso do Wilson Hou, de 38 anos, o contato é a mãe. Ele baixou o aplicativo por morar longe da família, já que trabalha na capital e só consegue visitar a esposa e o filho duas vezes por semana. Como comentou com a BBC, a maior preocupação é que algo acontecesse com ele sem que ninguém fique sabendo, por isso recorreu ao “Você Está Morto?”. 

Ainda que Hou tenha uma visão positiva, outros usuários se preocupam com a quantidade de jovens utilizando o aplicativo. Para Zhu, o esperado era que idosos recorressem ao produto, mas a popularidade dele entre os jovens é quase uma prova de que o isolamento social se tornou uma realidade aceita para eles, que adotam uma rotina mais solitária:

Isso reflete a sensação de que os jovens também sentem que podem morrer a qualquer momento enquanto vivem sozinhos e que, devido ao isolamento, amigos ou familiares podem não perceber ou não fazer verificações regulares de bem-estar. Em vez de me fazer sentir mais segura, isso mostra o quão solitária e desconectada a vida moderna pode ser, mesmo para pessoas jovens. – Comentou em entrevista com a TIME.  

Independentemente do motivo ou do público, “Você Está Morto?” chama atenção não apenas pela função, mas também por seu nome. Se você consome conteúdos do Leste Asiático, já deve saber que existe um certo tabu em relação ao número quatro.

Na sociedade chinesa, o numeral é pronunciado como “si” (四), semelhante a palavra “morte” (死) em mandarim, e, por isso, muitos evitam o uso até mesmo na construção de prédios, onde o quarto andar normalmente não existe. Diante dessa questão cultural, alguns internautas pediram pela mudança do nome para algo mais leve, como “Você está bem?” ou “Você ainda está aí?” (你还在吗):

Comentário no aplicativo Weibo, sugerindo a troca do nome "Você Está Morto?" para "Você Ainda Está Aí?".
Tradução: Essa palavra “morreu?” realmente soa um pouco como mau agouro. Os chineses ainda têm bastante tabu em relação a falar sobre a morte.
No entanto, essa ideia deles é ótima, e eu acho que tem muito sentido. No futuro, haverá cada vez mais pessoas morando sozinhas, e um aplicativo que possa ajudar melhor essas pessoas é algo muito bom.
Ou talvez mudar o nome para “Você ainda está aí?” possa tornar a ideia um pouco mais aceitável para as pessoas. Na verdade, na nossa cultura chinesa, falta mesmo uma educação sobre a morte. Mesmo os adultos carecem de coragem para encarar a morte.”

Ainda assim, os criadores e outros jovens defendem a escolha original. Como expressado por Lü, um dos três desenvolvedores, em entrevista à AP News, a “morte é algo que todos nós precisamos enfrentar. Apenas quando verdadeiramente entendemos a morte, começamos a pensar sobre por quanto tempo vamos existir neste mundo e como percebemos o valor da nossa vida”.

Com o nome mudando ou não, uma coisa é fato: a percepção dos jovens em relação aos valores tradicionais da sociedade está mudando. Diferente do individualismo ocidental, muitas vezes associado à ruptura com família ou com sua cultura, os chineses parecem estar criando um espaço próprio de expressão pessoal, respondendo as necessidades estruturais desse novo contexto. 

Um exemplo disso é o Ano Novo Lunar, historicamente centrado na família. Segundo uma pesquisa de 2025 sobre a Geração Z, a maioria passou a celebrar mais nas redes sociais do que presencialmente, com envio de envelopes vermelho (os hongbaos) virtualmente e comemorações chats online ganhando popularidade. Para Zhu, a tradição não desapareceu, apenas foi ressignificada, passando a incluir também as “famílias escolhidas”, como amigos.

Essa mudança não acontece sem tensão. Os valores tradicionais, como Zhu menciona, não desapareceram completamente e as expectativas sobre carreira, casamento e filho continuam pesando, principalmente para as mulheres durante o Ano Novo Lunar. Ao mesmo tempo, a taxa de natalidade segue em queda, como nos vizinhos Japão e Coreia do Sul, caindo 17% em 2025 e atingindo o nível mais baixo desde 1949, quando a República Popular da China foi fundada. 

Diante dessa pressão em um contexto que torna esse “sucesso tradicional” cada vez mais distante, muitos jovens estão adotando estilos de vida mais simples, que inclui tanto migrar para áreas mais rurais ou até sair do país, além de rejeitar rotinas exaustivas de trabalho (como nossa escala 6×1).

O conceito de sucesso, agora, passa a se aproximar mais da realização pessoal e do bem-estar mental, incluindo independência financeira, tempo para hobbies, relacionamentos significativos e uma sensação de liberdade, como apontou Zhu para a TIME. Mas se esses novos arranjos realmente conseguem suprir a necessidade de conexão ainda é uma questão em aberto. 

Por isso, o sucesso de aplicativos como “Você Está Morto?” deixa de parecer apenas funcional e provoca uma certa reflexão (que talvez explique a popularidade). Para He Tao, escritor da rede de negócios Yicai, ele funciona como uma metáfora social “sombriamente humorística, lembrando-nos de prestar atenção às condições de vida e ao mundo interior dos jovens contemporâneos. Aqueles que o baixaram claramente precisam de mais do que apenas uma medida de segurança funcional: eles anseiam por um sinal de serem vistos e compreendidos”.

No final, o nome do aplicativo pode soar estranho, mas fala mais sobre a situação atual do que a morte em si. Em uma realidade em que cada vez mais pessoas vivem sozinhas, confirmar que está ali se transforma em um pedido silencioso para não passarem despercebidos

CARROSSEL: 

“Você Está Morto?” soa como um nome estranho para um aplicativo, certo? Mas esse é um dos apps mais populares do momento na China e, ainda que pareça sombrio, a funcionalidade dele é simples: a cada 48 horas, o usuário aperta um botão para confirmar que está vivo.

No país, cada vez mais jovens estão vivendo sozinhos e lidando com uma realidade em que os valores tradicionais de sucesso, como casa própria e família, estão cada vez mais distantes. No lugar deles, novas formas de viver estão surgindo, permitindo mais independência, mas também trazendo mais solidão.

Independentemente do motivo ou do público, “Você Está Morto?” chama atenção não apenas pela função, mas também por seu nome. Se você consome conteúdos do Leste Asiático, já deve saber que existe um certo tabu em relação ao número quatro.

O numeral é pronunciado como “si” (四), semelhante a palavra “morte” (死) em mandarim, e, por isso, muitos evitam o uso. Diante dessa questão cultural, alguns internautas pediram pela mudança do nome para algo mais leve, como “Você está bem?” ou “Você ainda está aí?” (你还在吗).

Ainda assim, os criadores e outros jovens defendem a escolha original. Como expressado por Lü, um dos três desenvolvedores, em entrevista à AP News, a “morte é algo que todos nós precisamos enfrentar. Apenas quando verdadeiramente entendemos a morte, começamos a pensar sobre por quanto tempo vamos existir neste mundo e como percebemos o valor da nossa vida”.

Então, o app deixa de ser visto apenas como uma ferramenta de segurança, para alertar familiares caso algo aconteça, mas se torna, também, como uma forma de garantir que a ausência do indivíduo não passe despercebida.

LEGENDA:

Eu confesso que achei o nome do app bem interessante. Arrasta pro lado pra saber mais um pouco sobre o que os chineses querem dizer quando respondem se estão mortos.

E se quiser entender mais sobre esse fenômeno, é só correr lá no meu site pra ler a matéria completa. Só que, antes disso, me conta: você baixaria esse aplicativo?