Os desafios de ser mulher atravessam gerações, se sustentam em tradições religiosas, percorrem a história e também cruzam fronteiras. A experiência feminina é profundamente moldada por fatores sociais, políticos e culturais que estruturaram o nosso lado do mundo. Mas é inegável que, do outro lado do globo, mulheres também convivem com as marcas de sociedades historicamente organizadas a partir de lógicas masculinas.
Durante muito tempo eu sonhei que todas nós viveríamos em um lugar seguro para sermos quem quiséssemos ser. Onde nossas escolhas não fossem constantemente atravessadas por expectativas de gênero e onde felicidade não precisasse ser um ato de resistência.
Na China contemporânea, esse sonho quase utópico começa a ganhar uma forma concreta, marcada pelo acolhimento, pela sororidade e, inevitavelmente, pela resistência, palavra que acompanha nós mulheres desde cedo. Em meio a pressões sociais intensas, especialmente relacionadas ao casamento, à maternidade e ao papel feminino tradicional, algumas chinesas têm optado por criar comunidades exclusivamente femininas como alternativa de convivência, apoio e autonomia.
Mais que uma tendência pontual, essas iniciativas revelam mudanças profundas na forma como mulheres chinesas estão repensando trabalho, moradia, relacionamentos e pertencimento. Entender o surgimento dessas comunidades exige olhar para o contexto histórico e social que as antecede e para as transformações que vêm redesenhando o papel da mulher na sociedade chinesa atual.
Entre tradição e modernidade: a construção da mulher chinesa

Durante séculos, o papel feminino na China foi fortemente influenciado pela tradição confucionista, que estruturava a sociedade a partir da família e estabelecia funções bem definidas para homens e mulheres. Esperava-se que a mulher fosse, sobretudo, esposa e mãe, responsável pela harmonia do lar e pela continuidade familiar. Mesmo com as transformações políticas e sociais ao longo do século XX, muitas dessas expectativas culturais permaneceram presentes na vida cotidiana.
Com a fundação da República Popular da China em 1949, o discurso oficial passou a defender maior igualdade de gênero. A frase atribuída a Mao Zedong, “as mulheres sustentam metade do céu”, tornou-se símbolo desse novo ideal. Nas décadas seguintes, o acesso feminino à educação e ao mercado de trabalho cresceu de forma significativa, contribuindo para mudanças profundas na forma como muitas mulheres passaram a imaginar suas trajetórias de vida.
Ainda assim, a sociedade chinesa contemporânea permanece atravessada por tensões entre tradição e modernidade. A expectativa social de que as mulheres se casem cedo continua forte, sobretudo nos grandes centros urbanos. Mulheres solteiras após os 27 anos frequentemente são rotuladas como “sheng nü“, expressão popularizada na mídia chinesa que pode ser traduzida literalmente como “mulheres que sobraram”.
O termo carrega um forte peso estigmatizante: ele sugere que essas mulheres teriam “passado da idade ideal” para o casamento, reforçando a ideia de que a realização feminina ainda estaria ligada à formação de uma família. Diante desse cenário, algumas chinesas têm começado a experimentar outros arranjos de vida, entre eles, comunidades formadas exclusivamente por mulheres.
O surgimento das comunidades 100% femininas

Se durante séculos o destino social esperado para muitas mulheres era o casamento, hoje algumas chinesas estão experimentando outro arranjo de vida: a convivência entre mulheres. Em diferentes regiões do país, começam a surgir comunidades e espaços pensados exclusivamente para elas. Ambientes que priorizam segurança, apoio mútuo e autonomia em um cotidiano frequentemente marcado por pressões sociais.
Essas iniciativas aparecem em formatos variados. Algumas são casas compartilhadas ou espaços de co-living, onde mulheres decidem morar juntas por períodos curtos ou prolongados. Outras funcionam como refúgios temporários, onde as participantes podem passar alguns dias longe da rotina urbana e das cobranças familiares. Em muitos desses lugares, a proposta é simples: criar um ambiente em que mulheres possam conversar livremente, compartilhar experiências e construir redes de apoio.
Um dos exemplos mais conhecidos é o “O Universo Imaginário de Keke”, criado por Chen Yani em Lin’an, na província de Zhejiang. O projeto começou após experiências de assédio no ambiente de trabalho e rapidamente se transformou em um espaço comunitário onde mulheres podem se hospedar, cozinhar juntas e participar de atividades coletivas. Para muitas participantes, o principal atrativo é a sensação de tranquilidade em um ambiente exclusivamente feminino.
Além dos espaços residenciais, a tendência também aparece em outras áreas da vida urbana. Academias, cafés, hostels e até coworkings voltados apenas para mulheres começaram a surgir em diferentes cidades chinesas, refletindo uma demanda crescente por ambientes onde elas possam trabalhar, socializar e cuidar do corpo sem a pressão constante do olhar masculino.
O crescimento desses espaços está diretamente ligado a mudanças sociais mais amplas. Com maior acesso à educação e maior independência econômica, muitas mulheres chinesas passaram a priorizar bem-estar, desenvolvimento pessoal e novas formas de convivência. Redes sociais também desempenham um papel importante ao divulgar estilos de vida alternativos e conectar mulheres interessadas em experiências comunitárias.
Mais do que uma simples tendência urbana ou rural, essas comunidades revelam uma transformação silenciosa na forma como algumas mulheres chinesas imaginam o futuro. Para quem cresce ouvindo que o casamento é inevitável, a ideia de viver entre amigas, construir redes de apoio e compartilhar espaços pode representar algo novo: a possibilidade de escolher outros caminhos.
Refúgio, resistência ou reinvenção?
Diante dessas iniciativas, surge uma pergunta inevitável: comunidades formadas exclusivamente por mulheres são refúgios, formas de resistência ou o início de novos modelos de convivência? Em um contexto onde expectativas tradicionais ainda associam o futuro feminino ao casamento e à família, escolher viver entre mulheres pode representar algo simples, mas profundamente simbólico: o direito de decidir como construir a própria vida.
Ao mesmo tempo, esses espaços dialogam com uma realidade mais dura que atravessa fronteiras. A violência de gênero continua sendo uma das maiores ameaças à segurança das mulheres no mundo. Dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da ONU Mulheres indicam que cerca de 89 mil mulheres foram assassinadas globalmente em 2022, e mais da metade dessas mortes ocorreu dentro do próprio ambiente doméstico. Em muitos casos, o agressor é um parceiro ou ex-parceiro.
Esse cenário ajuda a explicar por que tantas mulheres têm buscado novas formas de convivência e apoio. Estudos em áreas como saúde pública e sociologia mostram que redes de suporte social entre mulheres podem contribuir para maior sensação de segurança, bem-estar emocional e autonomia na tomada de decisões. Em diferentes contextos culturais, amizades femininas e comunidades solidárias frequentemente funcionam como importantes mecanismos de proteção e cuidado coletivo.
Neste mês em que o mundo celebra o Dia Internacional da Mulher, histórias como as dessas comunidades femininas na China ganham um significado ainda mais amplo. Elas não representam necessariamente uma solução universal, nem substituem a luta por igualdade estrutural, mas revelam algo essencial: mulheres continuam criando espaços para existir com mais liberdade, segurança e autonomia. Entre refúgio, resistência e reinvenção, talvez o que essas iniciativas mostram seja apenas isso, que a busca por viver melhor ainda é, em muitos lugares, uma forma de luta.
Talvez o meu sonho de viver em um lugar seguro ainda esteja um pouco distante, mas esses refúgios para mulheres são alternativas para que, em um mundo cheio de cobranças, nós possamos de alguma forma respirar e sermos acolhidas. Cada espaço criado por mulheres talvez seja apenas isso: uma tentativa de construir, juntas, um lugar onde seja possível existir com mais liberdade.


