Lançado em 2020, o MV de “Daechwita” traz muito mais que uma música icônica de Min Yoongi, ele aborda nas entrelinhas diversos pontos que atravessam a história da Coreia do Sul desde o período da Era Joseon, até a contemporaneidade.

O próprio nome da canção carrega o significado de uma gênero musical militar tradicional tocado por instrumentos de sopro, como o nagak e taepyeongso – que faz aparição na sample da música, misturando batidas contemporâneas. Na Dinastia Joseon, o daechwita (대취타) era tocado em procissões ou deslocamentos feitos pelo rei, cerimônias militares ou recepções dos membros ligados à corte. 

Daechwita
Taepyeongso

Unindo elementos visuais e sonoros, o MV traz referências à monarquia da época retratada, invocando diversos simbolismos, como o Palácio Gyeongbokgung, localizado em Jongno-gu, construído em 1395, três anos depois da fundação da Dinastia Joseon por Yi Seong Gye. 

Daechwita: por dentro das referências Joseon

Para retratar a narrativa do clipe musical, acompanhamos dois personagens principais que percorrem o clipe, um rei e um indivíduo de uma classe mais baixa.

Em um dos momentos iniciais do MV, vemos o sinmungo, que é um tambor utilizado como forma de apelação/pedido. Instaurado pelo rei Taejong, o sinmungo servia como um meio pelo qual as pessoas comuns pudessem apresentar diretamente às autoridades do reino as denúncias ou reclamações de alguma injustiça sofrida. Na cena em questão, vemos o tambor centralizado e a decapitação ocorrendo logo à frente, demonstrando uma manutenção violenta da ordem, um reinado sem espaço para que o povo apresente as reclamações e reivindique as injustiças. 

Sinmungo

Por outro lado, o personagem que ocupa a classe inferior é mostrado organizando um golpe, que resulta em sua captura ordenada pelo rei. O momento que mostra o homem vendado, prestes a ser decapitado, segue acompanhado da fala relacionado ao daechwita, demonstrando que, ainda que ocupe uma classe considerada inferior, ele se vê como rei, já que a música era tradicionalmente dedicada aos membros do alto escalão. 

Outra referência presente na música é Gwanghaegun (título que significa algo como “Príncipe Gwanghae”, em tradução livre), o 15° rei da Dinastia Joseon. Gwanghae lutou na defesa de Joseon contra a invasão japonesa ocorrida em 1592, liderando as tropas no campo de batalha quando o pai, rei Seonjo, fugiu para o norte. Esse ponto o fez ganhar maior notoriedade e atenção da população, algo Seonjo tentou impedir.

Entretanto, após a morte do pai, Gwanghae governou ao longo de uma grande instabilidade política, tendo ordenado execuções e expurgos de membros da própria família real. Seu reinado terminou com um golpe, no qual ele foi confinado na Ilha de Ganghwa e, logo depois, na Ilha de Jeju, até a morte em 1641.

Nasci um escravo, mas agora sou um rei
Tigre louco, flow de Gwanghae
– Letra de Daechwita 

Em outro momento, Suga faz referência ao Príncipe Sado, que enfrentou diversas questões relacionadas à saúde mental e teve um fim trágico ao ser confinado em uma caixa de arroz tradicional, feita de madeira, chamada de dwiju (뒤주). Sado, cujo nome de nascença era Yi Seon, era filho do rei Yeongjo, 21° monarca da Dinastia Joseon, e era o provável herdeiro da coroa após a morte do irmão mais velho, Hyojang. 

Segundo o livro de memórias escrito pela esposa de Sado, Lady Hyegyeong, o príncipe apresentava ansiedade severa quando estava na presença do pai, tendo em vista o tratamento extremamente rígido de Yeongjo, que fazia duras repreensões ao filho, humilhando-o na frente de outras pessoas diversas vezes. 

A saúde mental de Sado teve um declínio acentuado com a morte da irmã, a princesa Hwahyeop, da avó adotiva, a rainha Inwon, e a mãe adotiva, rainha Jeongseong. Segundo os relatos trazidos no livro, Sado se tornou um homem extremamente violento, espancando eunucos, servos e criadas com frequência. 

O ódio de Yeongjo pelo filho aumentou ainda mais e havia rumores de que Sado teria tentado entrar no palácio para matar o rei. Como solução para lidar com a situação, Yeongjo ordenou que Sado entrasse em uma dwiju em um dia quente de verão, em 1762. No oitavo dia, o príncipe foi declarado morto e o rei Yeongjo deu o nome póstumo de Sado, que significa “pensando em com grande tristeza” ou “luto com tristeza”. 

Enfiei o passado num baú de arroz
Vou jantar o que sei que é meu
Não faz sentido me chamarem de cachorro
Eu nasci um tigre
– Letra de Daechwita

Ao mencionar o tigre, Suga faz uso da palavra “beom” (범) ao invés de “horang” (호랑), que remete a uma linguagem tradicional, podendo surgir na música como uma maneira de frisar a conexão com a cultura e o folclore coreano. Por outro lado, a comparação entre o tigre e o cachorro também traz o tom de alguém que não irá obedecer de cabeça baixa, buscando ir contra o sistema imposto.  

Dessa forma, o uso dessas referências históricas ao longo da música e do MV também surgem como uma maneira de contar a trajetória de Suga dentro da indústria musical. Falar sobre saúde mental, como a referência ao príncipe Sado, sempre foi algo muito marcante do artista, que já compartilhou abertamente sobre as batalhas pessoais com a depressão, ansiedade e fobia social, algo que também se faz presente em outras produções como “The Last” e “Amygdala”.

Assim, “Daechwita” vai além de um hit marcante, fazendo uso de elementos históricos, como o ritmo, contextos, roupas e localizações, para construir uma metáfora a respeito de relações de poder, identidade e transformações pessoais do artista.