Há cinco anos, a indústria do entretenimento sul-coreano enfrentou uma das maiores crises de sua história recente: uma grande onda de acusações de bullying envolvendo vários artistas de K-pop.

Houve consequências. Alguns idols precisaram se afastar temporariamente de seus grupos, enquanto outros foram expulsos. Tudo isso porque, na Coreia do Sul, o bullying é um assunto levado muito a sério.

Para se ter uma noção, por lei, o sistema educacional sul-coreano conta com uma escala de medidas disciplinares para casos de violência escolar, conhecida como hakpok.

Quanto mais grave o caso, mais severa é a punição. Em determinadas situações, o registro de violência escolar pode prejudicar o ingresso de estudantes nas universidades e trazer consequências para sua vida profissional, principalmente em grandes empresas.

No K-pop, porém, as acusações de hakpok também envolvem a imagem pública dos artistas. Os idols são frequentemente cobrados por sua postura e comportamento, em uma busca quase obsessiva pela perfeição. Por isso, uma denúncia de bullying pode afetar não apenas a imagem do artista, mas também a de seu grupo.

É por isso que, em alguns casos, as empresas decidem afastar ou expulsar integrantes em tempo recorde. Essas decisões, porém, também levantam questionamentos sobre até que ponto a prioridade é responsabilizar o artista e até que ponto é proteger a reputação do grupo.

O mesmo vale para os atores de K-dramas, que também precisam manter uma imagem pública impecável. Ao mesmo tempo, as produções sul-coreanas têm um papel importante na conscientização da população sobre o bullying. Muitas retratam não apenas a violência entre estudantes, mas também o silêncio das vítimas, a omissão de adultos e a dificuldade de responsabilizar os agressores.

No início dos anos 2010, aliás, houve uma onda de K-dramas escolares que abordavam o hakpok e suas consequências, levando o tema para as telas e contribuindo para o debate público.

Mais recentemente, o K-drama “The Glory” voltou a colocar a violência escolar em evidência e ampliou o debate sobre a responsabilização dos agressores. Em 2023, o governo sul-coreano anunciou medidas para endurecer as punições, incluindo a ampliação para quatro anos do período de retenção de determinados registros escolares de violência, medida que entrou em vigor em 2024.

Então, quando um artista é acusado anos depois de ter praticado bullying na escola, a repercussão vai além de sua conduta individual. Para parte do público coreano, esses casos levantam uma questão incômoda: se a violência escolar é reconhecida como um problema tão grave e existem mecanismos para punir os responsáveis, por que ela continua acontecendo?