No dia 24 de setembro, a plataforma chinesa YOUKU lançou o drama “A Smile Is All It Takes”, um novo título para um dos maiores sucessos do catálogo, “Love 020”, um dos primeiros c-dramas modernos a furar a bolha das séries asiáticas. Contudo, o retorno tem levantado discussões sobre o uso de IA nos dramas chineses.

A volta do Fenômeno e a polêmica com IA

Lançado em 2016, o drama trazia um enredo ousado para época ao misturar romance, e-sports e avanços tecnológicos na indústria de jogos. Baseado no romance “A Slight Smile Is Very Charming” da Gu Man (顾漫), autora de web novels consagradas que deram origem a c-dramas famosos como “Boss & Me”, “You Are My Glory” e o mais recente “Shine on Me”.

"Love 020" antes do uso de IA
Imagem promocional de “Love 020” de 2016. Reprodução: Youku

O relançamento se deu 5 anos após a remoção das plataformas de streaming da China Continental, de todas as produções da atriz original Zheng Shuang que, em agosto de 2021, foi condenada e banida da indústria pela Administração Nacional de Rádio e Televisão da China por violação de padrões morais.

A atriz foi acusada e condenada judicialmente e publicamente por escândalos de barriga de aluguel no exterior, prática proibida na China, e por sonegação de impostos entre 2020 e 2021. Assim, Zheng foi banida da indústria do entretenimento chinês e em 2023 declarou falência, já que havia adquirido nos últimos anos multas contratuais e governamentais que passaram dos ¥ 389 milhões de yuans.

No entanto, a reestreia tornou-se polêmica ao trazer a mudança no rosto da protagonista. A substituição veio por interferência de Inteligência Artificial (IA), removendo apenas o rosto da Zheng Shuang pelo da atriz Wang Zhu Yue. O que causou um grande alvoroço e discussões nas redes sobre o uso da técnica.

Uso de IA na troca de rosto de "LOVE 020"
Imagem comparativa dos rostos de Zheng Shuang (esquerda) e Wang Zhu Yue (direita).

Apesar dos debates, a própria Wang Zhou Yue fez um pronunciamento público esclarecendo que autorizou o uso da imagem na produção. Porém, nas redes o público chinês demonstrou insatisfação e argumentam sobre a desarmonia entre as expressões faciais e a linguagem corporal, a falta de química e as distorções de sombra e luz.

O uso de IA nos dramas chineses

A tática de substituir rostos de atores e atrizes envolvidos em polêmicas das séries chinesas por Inteligência Artificial não é uma prática nova. Por exemplo, neste ano, o mega sucesso “Por você” também utilizou da tecnologia avançada de AI face-swap para remover o rosto do ator He Chang Xi, e substituí-lo pelo ator Zhu Zan Jin, após suposto escândalo de namoro.

Embora o público também tenha avaliado a ação como uma medida de censura, ao passo que, pouco depois dos rumores saírem, houve a confirmação de He Chang Xi como protagonista do BL “Sammy’s Children’s Day”.

Demonstração do uso de AI face-swap em "Por Você"
Imagem comparativa dos rostos de Zhu Zan Jin (esquerda) e He Chang Xi (direita).

A verdade é que os c-dramas são lançados após a conclusão das gravações e apenas depois de receberem licenças das estatais tanto de aprovação, como a de liberação para distribuição. O uso de IA é uma alternativa mais barata para evitar regravar todas as cenas, ou mesmo para não cancelar toda a produção.

Além disso, também é utilizado aqui como uma forma de não atrair menções negativas à produção, a fim de maximizar o potencial comercial e atrair patrocinadores ao longo do lançamento. Mesmo assim, há anos os telespectadores debatem a medida.

Mas nem só de substituição vive o uso de IA nos dramas chineses. Recentemente, o BL temático do apocalipse zumbi “The Last Oath”, chamou a atenção por usar uma abertura, e, principalmente, por utilizar como trilha sonora músicas de um cantor gerado por IA. E aqui eu devo infelizmente dizer que dói admitir que a música tema é muito boa 🤡

E para além das interferências pontuais nas produções, também precisamos destacar o alto número de mini dramas produzidos totalmente por inteligências artificiais circulando em plataformas digitais, atraindo cada vez mais público. Em 2025 só a China produziu cerca de 33.000 microdramas e faturou mais de  ¥ 100 bilhões de yuans, cerca de R$ 77,6 milhões de reais, se estabelecendo como o maior mercado dessas produções.

Assim, a crescente demanda pela naturalização dos personagens em dramas curtos gerou inclusive um novo mercado, o “Show Lian” , o licenciamento de rostos para utilização em produções que usam IA, como a NCAIGC e a Mirafans. E os valores variam de acordo com o perfil, o nível de exclusividade e o tempo de uso.

No entanto, o mercado também acumula processos de violação dos direitos de imagem e voz, o chamado “Toulian”. Por isso, no começo de setembro o Supremo Tribunal Popular da China estabeleceu diretrizes sobre o uso de IA e a prática de deepfakes, mirando num “mercado mais seguro”.

Imagem promocional do c-drama que faz uso de IA "Envy Not the Lovers, But the Immortal"
Imagem promocional de “Envy Not the Lovers, But the Immortal”. Reprodução: iQIYI

Também no fim do mês passado, a iQIYI anunciou para 2027 “Envy Not the Lovers, But the Immortal” (不羡鸳鸯只羡仙), o primeiro drama longo gerado por IA autorizado por artistas. A produção captou imagens dos atores para criar avatares para o desenvolvimento, que contou com mais de 100 atores e atrizes autorizando o uso dos rostos e vozes, os contratos no entanto especificam o uso exclusivo neste único projeto. 

“Nui Lai” e a resistência ao uso de IA

Por lá, enquanto uns comemoram os avanços tecnológicos e o barateamento das produções, outros se perguntam se o sistema é sustentável, ainda há quem acredite que seja o marco do declínio da indústria do entretenimento.

Em julho deste ano, o drama “Overdo” com o ator chinês mais popular do momento, Zhang Ling He, foi lançado, mas logo na primeira semana a obra recebeu fortes críticas pelo uso de IA na abertura, considerado exagerado pelo público chinês. O falatório nas redes fez a produção se desculpar e refazer a abertura com cenas do próprio drama.

No mês seguinte, ainda em meio aos debates sobre o uso de inteligência artificial na indústria audiovisual, um fenômeno viral surgiu nos cinemas chineses. O filme chamado “Nui Lai”, ou em tradução literal para português “O boi chegou”, lotou as sessões que tinha e exigiu que mais salas fossem abertas para suprir a demanda.

Cena de “Nui Lai”

O longa foi produzido integralmente por Sun Lifang e Xin Yumeng, mãe e filho, no programa SketchUp enquanto ambos aprendiam a animar, ao longo de 5 anos. O filme inicialmente ganhou poucas salas de cinema local, por meio de um amigo da Sra. Sun. Com um roteiro amador e uma estética que muitos portais chamam de “duvidoso”. Logo virou meme nas redes chinesas.

A partir daí, ele virou um fenômeno viral. Se tornando uma das “Maiores bilheterias da história do cinema”, arrecadando até o momento um total de ¥ 60 milhões de yuans, aproximadamente R$ 46,6 milhões de reais. O filme chegou a disputar público com títulos internacionais como “A Odisseia” e “Homem-Aranha: Um Novo Dia”.

E apesar de ser consumido prioritariamente em forma de meme, um dos motivos que tornaram o filme tão popular foi ser enxergado pelo público como um símbolo da naturalidade humana, no meio de um mercado que é bombardeado com a presença da artificial.

Poster do “Nui Lai” criado por fãs para divulgar no cinema. Crédito: weibo

Inclusive, a capacidade do filme de conquistar o público claramente não foi pelas suas qualidades técnicas ou narrativas, mas por toda construção simbólica de perseverança, trabalho familiar e naturalidade, conectando as pessoas mais ao processo do que ao resultado em si.

No fim, mesmo com as recém diretrizes lançadas pelo governo chinês, que só vieram após protestos por parte do público por lá, especialistas apontam preocupações reais no uso de IA irrestrito nas produções, afinal como ficarão os direitos dos atores ao longo das obras? Quais os limites no uso desses avatares durante a divulgação? Existe uma forma justa de usar a imagem de alguém? Com o barateamento, como ficará o orçamento do elenco de apoio? Perguntas que apenas o tempo e a própria indústria poderão nos dizer.