No dia 18 de maio, o Starbucks da Coreia do Sul lançou uma campanha para promover o novo copo chamado “Tank”, nomeando o dia de “Tank Day”. A escolha da propaganda foi extremamente problemática, para dizer o mínimo, e resultou em diversos boicotes, vídeos de pessoas quebrando garrafas e copos com o famoso logotipo da sereia, e inúmeras críticas dentro e fora das redes sociais. Mas afinal de contas, qual o motivo dessa reação?
O dia 18 de maio, na Coreia do Sul, marca o dia que traz a memória do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de Maio, ocorrido em 1980. A data revive a luta da população pela democracia, tendo em vista que o país passou por um longo período de ditadura militar (1961-1987).
Inseridos em um contexto de forte repressão, os cidadãos de Gwangju tomaram as ruas em protestos, sofrendo retaliações por parte dos militares, o que resultou em um grande número de mortos, feridos e desaparecidos. Dessa forma, a data se tornou um forte símbolo da luta pela retomada da democracia no país, influenciando grandemente na Luta Democrática de Junho (em tradução livre), em 1987, que marcou o fim do governo ditatorial de Chun Doo Hwan na Coreia do Sul.

Ao usar o nome “Tank Day”, que pode ser traduzido como “Dia do Tanque”, especificamente no dia 18 de maio, o Starbucks reabriu as feridas dolorosas que seguem latentes na memória sul-coreana, deixadas pelos anos de ditadura militar. Para além da frase extremamente questionável, e ofensiva, a empresa usou o slogan “Bata na mesa” (em tradução livre, no original: 책상탁), que foi usado em 1987 pela polícia para encobrir a tortura e a morte do estudante e ativista Park Jong Chul, dizendo como forma de zombaria que o rapaz havia morrido de uma para cardíaca após o policial dar uma batida forte na mesa.
Com a divulgação dessa campanha, diversos ativistas tomaram a frente do Starbucks incentivando o boicote da rede. Segundo o Grupo Shinsegae, um dos principais conglomerados de varejo da Coreia do Sul, a equipe de marketing envolvida no projeto fez uso de ferramentas de inteligência artificial para a escolha do slogan. Entretanto, os arquivos contendo as informações enviados aos superiores não foram mostrados até o momento.
O presidente do Grupo Shinsegae, Chung Yong Jin curvou-se diante das câmeras e expressou um pedido de desculpas e o CEO do Starbucks Korea, Son Jeong Hyun, foi demitido devido à “campanha imprópria”, como colocado pelo Grupo Shinsegae. A empresa também alegou que os cinco funcionários envolvidos na campanha foram removidos e comunicou que estava colaborando com as investigações policiais que foram iniciadas após queixas realizadas pelas famílias de pessoas que foram assassinadas no movimento ocorrido em Gwangju.
Tanto as famílias enlutadas quanto a Fundação Memorial 18 de Maio recusaram os pedidos de desculpas feitos por Chung. Nesse contexto, o irmão mais velho de Park Jong Chul demandou que Son e Chung fossem indiciados por insultar a memória das vítimas do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de Maio, resultando na classificação de ambos como suspeitos criminais.
Posicionamento do governo sobre o caso Starbucks
O presidente Lee Jae Myung também se pronunciou a respeito do ocorrido por meio da rede social X:
O evento “Dia do Tanque 5.18” blasfema contra as vítimas de Gwangju e os cidadãos da cidade no aniversário do histórico Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de Maio…
Quantas vidas foram perdidas injustamente naquele dia e qual a gravidade do dano causado à justiça e à história?
Estou indignado com o comportamento desumano de uma empresa tão desprezível, que se apropria de valores como os da comunidade coreana, dos direitos humanos básicos e da democracia.
É justo que responsabilidades morais, administrativas, legais e políticas correspondentes sejam impostas a ele.
Vocês se desculparam com as famílias das vítimas do 5.18? – (Tradução nossa)
Junto disso, Jae Myung também apontou a campanha controversa do Starbucks em relação ao Naufrágio do Sewol, ocorrido no dia 16 de abril de 2014. Em 2024, a rede lançou uma coleção de canecas nomeadas “Canecas Clássicas Sirene”, referenciando a figura mitológica grega, conhecida por atrair os marinheiros para o naufrágio. O presidente pontuou o desrespeito com as famílias das vítimas e o desrespeito à memória do ocorrido, afirmando que “a sereia é a figura presente no logotipo da Starbucks, mas fazer isso no dia 16 de abril é um ato atroz que enfurece a todos. A Starbucks merece ser punida” (tradução nossa).
Após esse acontecimento, o Starbucks divulgou que todos os estabelecimentos da rede iriam fechar por meio período para que os funcionários pudessem participar de aulas de história.

O ocorrido mostra não apenas ausência de respeito à memória dos movimentos e acontecimentos do país, mas também a forma com que esses marcos importantes são ironizados e colocados como estratégia de um marketing desrespeitoso e violento. Dessa forma, lembrar do Movimento pela Democratização de Gwangju de 18 de Maio é também manter a viva a memória daqueles que lutaram para que a democracia fosse reestabelecida, desrespeitar tal questão não é algo que apenas um pedido de desculpas não é capaz de abranger.

