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Na última semana, o KHH provou mais uma vez a tendência machista do gênero através de uma diss track desprezível do San E. Mas SLEEQ e JERRY.K provam que nem tudo está perdido.


Como muitos já devem saber, San E achou de bom tom lançar uma música chamada  ‘Feminist’ e, partindo do princípio que é um homem intitulando a música com tal termo, já era de se esperar que não prestaria muito. E foi exatamente o que se provou verdade. No entanto, o rapper, que basicamente usou de argumentos misóginos para atacar a luta das mulheres por igualdade, destilando não apenas absurdos, mas também as famosas lágrimas de macho, se enganou ao pensar que sua voz seria a única a tratar do assunto.

Entramos em contato com a rapper SLEEQ, que escreveu um rap como resposta para San E, para compreendermos suas motivações e como ela vê toda a situação:

“Eu escrevi ‘EQUALIST’ para as pessoas que estavam chocadas, pensando “nossa, existe uma pessoa que ainda pensa dessa forma?”, assim como eu, não para o San E escutar”, declarou SLEEQ em entrevista concedida a K4US. Segundo ela, parte do motivo para ‘EQUALIST’ (o termo se refere à crença na igualdade de gênero, mas sem levar em conta os privilégios masculinos) ganhar toda essa atenção foi o fato das pessoas compreenderem o medo que ela declara no fim da música.

 

 

© Drama’Kpop // clique na imagem e escute a música


“Eu sinto medo de verdade, por isso escrevi assim. Depois do lançamento de ‘EQUALIST’, eu sinto mais medo de andar em transporte público. Eu soube que machistas criticaram minha letra por não ser realista, mas essa crítica é o motivo para o lançamento dessa música”, contou SLEEQ.

A rapper não foi a única que, assim como o fandom de K-Pop e K-Hip Hop, se revoltou com a postura de San E, seu amigo e colega de empresa – a DAZE ALIVE –, JERRY.K também mandou seu recado com a diss ‘No you are not’: “A ignorância dele me irritou. Eu simplesmente não conseguia parar de escrever a letra”, explicou o rapper sobre o que o motivou a escrever a rima.

Muitos ouvintes brasileiros de música coreana poderiam não conhecer a dupla de rappers até então, mas há males que realmente vem para o bem. A decepção com um artista trouxe outras duas vozes talentosas, renomadas e inclusivas para nós. Mesmo em um meio machista como o K-Hip Hop, SLEEQ, que debutou em 2013, lançou dois álbuns, e um deles, ‘Colossus’, recebeu o prêmio de “álbum underrated do ano”, no Korean Hip-hop Awards, em 2017 – a premiação não inclui categorias separadas por gênero, então ela competiu entre homens e foi a única mulher premiada no evento do ano passado.

 

Capa de ‘Colossus’, premiado no Korean Hip-hop Awards

“Eu recebo reações ruins de ouvintes e artistas porque falo sobre minorias, mas não ligo. Eu não quero fazer parte desse ambiente e existem muitos fãs fora dele. Vocês da K4US, por exemplo, são preciosos e inesperados apoiadores pra mim”, comentou a rapper (nos deixando 100% soft). “Eu não preciso vender minhas músicas para quem evita minhas mensagens”, concluiu, de forma no mínimo inspiradora. Para ela é comum receber o apoio de mulheres e outras minorias sociais, e esse apoio só vem crescendo.

JERRY.K, por sua vez, já é um veterano no ramo. Há 15 anos na indústria, o rapper já teve álbuns e música indicados nas categorias de hip hop do Korean Music Awards e já trabalhou com nomes como Oohyo, Paloalto, The Quiett e Dok2. JERRY.K também colaborou com Zion.T em ‘You’re not a lady’, música que ele mesmo critica na diss devido ao conteúdo machista.

Evolução é essencial. De ‘You’re not a lady’ para ‘No you are not’, a mudança na visão de JERRY.K sobre as mulheres é evidente e, segundo o próprio, é resultado da influência de SLEEQ: “ela me recomendou algumas fontes, como vídeos do TED e livros”. JERRY.K conta ainda que sua postura pró-feminismo o fez perder fãs e até um amigo, mostrando que ainda existe um longo caminho para a sociedade sul-coreana – especialmente a população masculina – percorrer.

Segundo ele, não são muitas as pessoas que apoiam o feminismo e possuem um pensamento mais progressista, mas é um grupo que vem crescendo. SLEEQ adiciona ainda que idade, sexo, e classe social são fatores que influenciam nessa perspectiva de mundo, e é a nova geração de mulheres quem vem abrindo mais a mente sobre questões feministas, enquanto os homens se mantém conservadores.

Além de reconhecerem a importância da causa feminista, a dupla entende também a relevância do respeito às minorias sociais. No instagram de ambos encontramos fotos da dupla em uma Parada LGBTQ+, causa que SLEEQ trata com naturalidade: “identidade de gênero e orientação sexual não são para ser apoiados, eles apenas são. Assim como eu não posso me opor ou apoiar as 4 estações”, explicou a rapper sobre seu ponto de vista, que não difere muito da visão de JERRY.K. “Direitos LGBTQ+ são direitos humanos, o que mais posso dizer?”.

SLEEQ e JERRY.K finalizam a entrevista indicando alguns artistas que tenham pontos de vista e letras de músicas que se assemelham às deles. HAT:FELT curtiu nossas músicas no instagram. Eu quero agradecer, de verdade, e recomendar o álbum dela. Eu amo muito a faixa “Pluhmm, conta a rapper. Já a indicação do músico é “A fellow traveler”, de J-Clef.


Imagem dos rappers SLEEQ e Jerry.K juntos durante a parada LGBTQ+
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A equipe da K4US agradece a disponibilidade de SLEEQ, JERRY.K e da empresa DAZE ALIVE.

 


Entrevistados: SLEEQ e Jerry.K
Matéria e entrevista por Bea | Revisão por Savi e Chugga | Equipe de redação da K4US
www.k4us.com.br

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Bea
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Bea
Carioca, 26 anos, jornalista e carmy. Se pudesse passaria meus dias comendo batata frita, sorvete e lendo fluff, como não posso: trabalho, passo mais tempo do que devia no twitter, como batata e leio fluff nas horas vagas. Presa numa areia movediça chamada K-Pop há dez anos (sem previsão de conseguir sair).
Arquivado em: Entrevista, Exclusivo