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Tempo de leitura: 9 minutos  

As diversas faces do machismo atingem todas as pessoas, sejam elas homens ou mulheres. Com os fãs de k-pop, não é diferente. Por conta do machismo estrutural e reflexo de uma sociedade patriarcal que valoriza o homem e diminui a mulher, os fãs de kpop, independente do gênero, são zombados, menosprezados, invalidados e aturam diariamente, não só comentários machistas, mas xenofóbicos e homofóbicos. 

Até alguns anos atrás, antes do K-POP ser mundialmente conhecido, o fato de você se entitular “kpopper” ou se identificar como “consumidor da cultura coreana”, faria com que você fosse alvo de um estigma, vindo do preconceito de não ser bem aceito ou zombado pelas pessoas que não conhecem bem esse gênero musical ou seu país de origem. 

Ser kpopper era carregar estereótipo de ser “coisa de menina”, infantil, histérico ou até mesmo fanático. Isso sem falar que o estilo era regularmente dito como de péssima qualidade, sem os elementos necessários para ser chamado de “bom conteúdo”. 

Hoje em dia, mesmo com a divulgação e expansão global do kpop em todos os meios de comunicação e de consumo, esse estigma muitas vezes permanece. Há um notável avanço no Brasil a respeito da aceitação sobre quem curte k-pop, mas o preconceito persiste em pequenas coisas, que acabam nos privando de consumir sem culpa a cultura pop coreana. 

Relato de uma seguidora da k4us, respondendo um tweet acerca do assunto:

Existe todo tipo de fã por aí; há quem tenha coleções gigantescas de quadrinhos, filmes, livros, selos de carta, bonecos de ação, obras de arte, maquiagens, etc. Ou quem admire políticos, jogadores de futebol, desenhistas, cantores e por aí vai. Todas essas pessoas são fãs, mesmo quando não se identifiquem como tal. A admiração genuína é algo natural. 

O conceito formal pode ser encontrado da seguinte forma:
fã¹
Substantivo de dois gêneros

Indivíduo que tem e/ou manifesta grande admiração por pessoa pública (artista, político, desportista, etc.).
Fandoms: Grupo de fãs caracterizado pelo sentimento de comunidade e irmandade

Conteúdos asiáticos no geral, sofrem preconceito no território brasileiro e são por diversas vezes injustiçados, e isso não é diferente com o K-pop, mesmo que ele tenha características muito próprias e que às vezes se assemelham, inclusive, com conteúdos norte-americanos

Mas o “preconceito com fã” não é exclusivo do k-pop ou de mídias asiáticas. Há quem se lembre das piadas sofridas por fãs de Restart, Jonas Brothers, Crepúsculo, One Direction, e diversos outros artistas e produtos da cultura pop. Nesses e em outros casos, o gostos dos fãs eram considerados “duvidosos”, e eram tratados com inferioridade ou “coisa de gente sem inteligência / maturidade”. 

Olhando para nosso tema de discussão, a origem de todo esse preconceito e piadas com quem é kpopper, vem do fato de que o k-pop é consumido em sua maioria por mulheres (não exclusivamente). E lembrem-se, que tudo que é “coisa de mulher” na nossa sociedade patriarcal é inferiorizado ou ridicularizado. 

“O patriarcado refere-se a milênios da história mais próxima, nos quais se implantou uma hierarquia entre homens e mulheres, com primazia masculina. […]  forjada especialmente para dar cobertura a uma estrutura de poder que situa as mulheres muito abaixo dos homens em todas as áreas da convivência humana.” – Heleieth Saffioti, socióloga

Segundo a Revista Tecnologia & Cultura, em 2015 a maioria dos fãs brasileiros eram do gênero feminino, entre 15 e 18 anos, não possuía origem asiática e consumia produtos oficiais. 

Aqui na K4US, nosso público consumidor atualmente (2020) é 92% formado por mulheres, e 8% por homens, com idade média entre 13 e 27 anos. Desse total, cerca de 40% são parte da comunidade LGBTQ+, e se caracterizam por terem comportamento questionador. Consomem produtos e eventos ligados ao pop coreano. 

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COMO O MACHISMO SE ENCAIXA NA INFERIORIZAÇÃO DE FÃS DE KPOP?

Vamos usar uma analogia para fazer questionamentos e entender melhor o problema: O que diferencia um torcedor de futebol de torcida organizada de um fã de kpop que frequenta shows

Por que ávidos torcedores de futebol são considerados “apaixonados” e ávidos admiradores de k-pop são considerados “fãs histéricos”?

É uma diferença sutil nos adjetivos usados, mas que faz toda diferença. Enquanto um é belo, o outro é pejorativo.

Significado da palavra
Histeria

substantivo feminino

2.comportamento caracterizado por excessiva emotividade ou por um terror pânico.
“h. coletiva”

Inclusive, assista a essas duas matérias da Rede Globo, onde uma fala sobre kpoppers e a outra sobre futebol. Em seguida, compare o teor de cada uma delas.

Os conteúdos que tem audiência majoritária de homens também sofrem preconceitos, a seu modo, mas nunca ligados a uma origem sexista, como é o caso de tudo que é direcionado ao público feminino. Historicamente, conteúdos ligados a mulheres tendem a ser questionados, menosprezados ou se tornam geradores de comportamento de ódio e desprezo. 

Uma prova disso são escritoras de livros que usam codinomes, muitas vezes masculinos, para serem aceitas dentro do nicho da literatura, onde, muitas vezes, o conteúdo escrito por homens é considerado mais rentável aos bolsos das editoras (como foi o caso de J.K. Rowling, autora de Harry Potter).

Ou então, mulheres tinham seus nomes retirados da autoria de diversos tipos de produções, como foi o caso de Yoko Ono, cantora e compositora que foi casada com John Lennon. O cantor, muitos anos depois, decidiu dar os créditos da canção “Imagine” a ela, com a desculpa “[…] naquela época, eu era mais egoísta, mais ‘macho’, e eu meio que omiti a sua contribuição para a canção, dando a entender que homens não dão espaço para mulheres serem mais ou iguais a eles.

Não queremos nos estender, mas vale assistir ao filme Big Eyes (2014) que retrata a história da pintora Margaret Keane, que teve a autoria de quadros roubada pelo próprio marido.

Esses são casos que ilustram como machismo tira crédito e holofotes de mulheres brilhantes. Mas esse comportamento não se resume somente ao universo dos artistas, pois é presente no dia a dia das pessoas. Ninguém está livre de ser atingido por ele, nem mesmo os fãs de k-pop.

Como se não bastasse, pelo mesmo motivo, homens que consomem k-pop são taxados de “homossexuais” numa tentativa de ofensa a aqueles que se dispõe a transpassar a barreira do machismo estrutural.

Por todo o exposto, é que o k-pop é tido como infantil, sem qualidade e patético: porque é altamente consumido por mulheres num país machista,  alvo de machismo estrutural em nossa sociedade.. 

Vale mencionar que o Brasil tem a sociedade baseada no patriarcado – Indico a leitura: O Futebol feminino do Brasil é hepta mas por que ninguém fala sobre isso?

 

A (in)validação do Kpop

Ser do interesse feminino ou da comunidade LGBTQ+, automaticamente torna o conteúdo desvalorizado aos olhos de algumas pessoas. Em nosso twitter, questionamos nossos seguidores “Alguém já passou por situações onde foi diminuído ou zombado por gostar de kpop?” – Algumas frases se repetem freneticamente exibindo masculinidade tóxica e frágil, homofobia e xenofobismo como tentativas de menosprezar quem gosta do estilo musical. 

 

Frases como essas não são casos isolados, acontece o tempo todo na internet, atingindo milhares de pessoas e propagando esse comportamento machista. Exemplo disso, é o vídeo “My Coming Out Story(Algo que pode ser traduzido como: “A história de como saí do armário”) de PewDiePie, dono do maior canal do youtube. 

            No material em questão, ele reage a clipes de kpop, e apesar do título do vídeo parecer uma expressão de masculinidade tóxica, referindo-se que “homem que gosta de kpop é gay”, a intenção na verdade foi outra. Ele fez um jogo de palavras para chamar atenção das pessoas para um ponto negativo, e, felizmente, ao longo do vídeo ele quebra esse estigma e mostra o quanto k-pop pode ser interessante, fazendo assim, uma crítica a quem concorda com o título, atingindo homens e mulheres que fazem comentários machistas direcionados ao estilo musical. Os internautas que leram o título mas não assistiram o vídeo, podem acabar perpetuando um comportamento tóxico. 

Usar o k-pop como click bait, para causar estranheza, atingir ou ofender os fãs ou gerar comparativos com outros estilos musicais no mau sentido, é uma prática muito frequente. Os “videos de reações” feitos por pessoas que não tem proximidade com o kpop, não ficam atrás. Exibem frases xenófobas, homofóbicas e machistas numa tentativa de ser “engraçado” e gerar engajamento, seja ele bom ou ruim (comentários no vídeo que apoiam as falas dos youtubers, ou que as rebatem).

Na imagem : Títulos de vídeos exibidos na pesquisa no youtube pelo termo “rock e kpop”

 

TA, MAS PRA QUE ME FALOU TUDO ISSO?

Para abrir seus olhos! Tudo que expomos aqui é uma forma de abrir seus olhos para identificar no futuro comportamentos, intencionais ou não, que querem te diminuir pelo simples fato de ser um fã de kpop. Queremos que você ganhe confiança e argumentos para se blindar contra comportamentos tóxicos.

Para ser kpopper você não precisa ter a aceitação ou validação de outras pessoas. Também não precisa ficar se comparando com outros tipos de pessoas, e nem mesmo comprar o estilo musical que você gosta com outros. Apesar de ser muito bom quando nossos gostos tem reconhecimento – e nossos idols também, é claro – aquilo que nos faz bem e que admiramos só cabe a nós mesmos e a quem nos aceita. Não é a toa que a comunidade Kpopper é uma das mais ativas na internet, e muitas vezes taxada de “mimizenta”, “criançada de 12 anos” (olha aí o estereótipo de novo, conforme o youtuber Orochi nomeou a comunidade em um de seus vídeos) porque questionamos comportamentos machistas, xenofóbicos e homofóbicos. Não nos calamos!

Além disso, é uma ótima oportunidade para explicar essas questões a quem não se sente confortável com o gênero ou novos kpoppers, ainda inseguros frente ao hate que rola por aí. Afinal de contas, ser Kpopper tem, acima de tudo, muito mais a ver com liberdade, amor e aceitação do que qualquer outra coisa!  

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Bianca
Arquivado em: Exclusivo, Opinião