Não é de hoje que o diretor japonês Hirokazu Kore-eda aborda diversas questões a respeito do meio familiar e da juventude, nos fazendo levar um certo tempo para digerir as histórias que conta através das lentes. Como exemplo mais atual dessa abordagem, temos o filme “Monster”, lançado em 2023, no qual acompanhamos a história ao redor de Minato Mugino (Soya Kurokawa) e seu envolvimento com Yori Hoshikawa (Hinata Hiiragi).

O filme nos traz diferentes perspectivas que envolvem os protagonistas, mostrando as dinâmicas de relacionamento que são construídas durante o desenvolvimento. Através da ótica de Minato, vemos como as camadas de medo e preconceito atrapalham nas percepções que cria-se do outro e como as relações familiares não escapam disso.

Ao perceber as mudanças em seu filho, Saori (Sakura Ando) se vê preocupada e perdida em relação a ele, questionando em seus pensamentos quais poderiam ser os motivos que começaram a gerar tamanha transformação no comportamento do garoto. Quando essas razões começam a ser desvendadas, percebemos como Saori não sabia das questões que envolviam seu próprio filho, suas angústias, sentimentos, amizades e medos. 

Por outro lado, vemos a relação de Yori e seu pai, que o trata de forma abusiva, física e psicologicamente, o chamando de monstro. Somada a essas violências, o menino, construído como um personagem doce e gentil, é sempre zombado por seu jeito de ser pelos outros alunos da escola. Com isso, o filme nos faz questionar quem realmente é o monstro nas diferentes trajetórias dessa trama e nos faz refletir nas construções das relações familiares ao acompanhar as juventudes.

Entrelaçados nessa história, assistimos o amor e carinho que Minato e Yori possuem um pelo outro, de forma tão genuína. O companheirismo que ambos constroem juntos passa a ser um lugar de conforto, no qual podem ser eles mesmos enquanto descobrem novos sentimentos. Apesar do afeto, os meninos também são rodeados pelo medo de uma sociedade cheia de preconceitos, que insiste em fazê-los sentir não pertencentes ao mundo. 

Outro filme que nos revela questões familiares por meio de um olhar da juventude é “Assunto de Família” (2018), vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes. Nessa história, acompanhamos os laços de uma família disfuncional, que tem três gerações juntas na mesma casa, vivendo em meio a pobreza. Para sobreviver, eles recorrem a ações que desviam das normas sociais aceitas, como fraude e roubos. 

A trama se dá quando, durante a volta para casa, Osamu Shibata (Lily Franky) e seu filho, Shota (Jyo Kairi), encontram a pequena Yuri (Miyu Sasaki) com frio e fome na rua, e decidem levá-la para casa. Durante a estadia da menina, eles percebem marcas por seu corpo, denunciando as situações de abuso que Yuri vivia com seus pais. Com isso, Osamu a toma como parte da família e passa a ensiná-la como realizar pequenos furtos em mercados e lojas. 

Nesse contexto, Shota mostra-se incomodado com os roubos que precisam realizar para sobreviver, demonstrando seus desconfortos e questionamentos, que o distanciam ainda mais de Osamu. O crescimento desses sentimentos no menino deságua em seu ato de rebeldia, que expõem todos os segredos da família de maneira acidental. De uma forma relativamente triste, descobrimos a inexistência de laços sanguíneos entre a família e as diversas tramas, ou até mesmo tragédias, que os levaram a ficar juntos.

Após esse ocorrido, vemos Nobuyo (Sakura Ando), esposa de Osamu, sendo interrogada pela polícia. Nesse momento, somos levados a refletir a respeito do que é uma “boa família” de fato. Ao ser questionada a respeito de sua “sogra”, Hatsue Shibata (Kirin Kiki), que havia morrido e sido enterrada embaixo da casa onde moravam pela falta de dinheiro para um funeral digno, a polícia os acusa de “descarte de corpo”. Porém, Nobuyo diz: “eu não a descartei, eu a aceitei quando outra pessoa a descartou” (tradução nossa), referindo-se a quando Hatsue havia sido abandonada por seu marido. Essa resposta reforça ainda mais os laços construídos entre a família, ainda que houvessem diversas disfuncionalidades. 

De forma semelhante, Osamu é indiciado pelo sequestro de Shota e Yuri. Entretanto, ambos foram abandonados por seus pais biológicos, tendo ainda a agravante dos abusos sofridos por Yuri, em uma casa repleta de violência. Essa situação leva Nobuyo a fazer mais um questionamento a respeito das convenções de família: “dar a luz a uma criança faz com que a pessoa seja verdadeiramente uma mãe?” (tradução nossa). Com isso pensamos nas diversas disfuncionalidades que os personagens enfrentam e na maneira com que encontraram, um no outro, uma forma de estabelecer laços para sobreviver e tentar renascer de uma série de abandonos e escassez em um mundo tão opressivo.

Assim, Kore-eda nos convida a quebrar concepções de “certo” e “errado”, e leva o espectador a refletir sobre como, em muitos casos, há um rompimento das idealizações dos laços familiares. Para isso, o diretor faz o uso de planos abertos (quando a câmera está distante do objeto) e de ângulos específicos para transmitir um olhar lento e cheio de carinho para essas famílias e a juventude, que oferece um olhar cheio de sentimentos em suas produções.

Por fim, indico também o filme “Andando”, de 2008, que nos traz ainda mais reflexões a respeito das construções no âmbito familiar, que envolve diferentes gerações.

Já pega sua pipoca pra maratonar as famílias de Hirokazu Kore-eda, uma caixinha de lenços e uma sessão de terapia valem também!