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Nos dias atuais, é comum ouvir o quão influentes as doenças mentais — conhecidas como “O Mal do Século XXI” — são em nossas vidas. Frequentemente nos deparamos com relatos em que a depressão e a ansiedade tomam conta da vida de pessoas que, nem sempre por um motivo aparente, desenvolvem tais condições.

Somos cobrados o tempo todo em relação aos estudos, trabalho, relacionamentos, aparência, etc. Tantas exigências realmente deixam uma marca em nosso estado de espírito.

Sejam esses problemas diagnosticados ou não, muitas vezes procuramos um escape para todas essas adversidades. Isso é normal, pois o ser humano precisa de algo que o conforte em momentos difíceis. Já temos o dia-a-dia tão cheio de pensamentos e notícias ruins, sempre colocando em evidência crises econômicas, políticas e emocionais, o que torna natural a busca por algo que nos faça bem e feliz, que alivie a rotina tão angustiante.

Um desses refúgios é a música. Assim como qualquer forma de expressão artística, a música consegue mexer com os nossos sentimentos de uma maneira tão sutil e abstrata que é, com toda certeza, impossível traduzir em palavras. O K-Pop é um dos estilos musicais que não fica para trás nesse quesito. O gênero é muito conhecido por inovar um mercado já saturado, que é o da música pop norte-americana. A fórmula pode parecer secreta, mas na verdade não é tão misteriosa assim: mesclam-se produções musicais impecáveis com álbuns totalmente visuais, acompanhando um MV que, além de representar o conceito para o universo cinematográfico, ainda o faz com perfeição. A combinação de todos esses componentes artísticos, sem dúvida alguma, mexe com as nossas emoções de uma maneira subjetiva.

Além de todo esse esmero com detalhes, algo que podemos até creditar à cultura asiática, não se pode deixar de levar em conta a dedicação e o envolvimento dos k-idols com seus fandoms. Essa relação, que chega a simular um convívio que se tem com um amigo próximo, torna todo esse mercado lucrativo do mundo da música um pouco menos mercenário, atenuando o sentimento de solidão tão comum nos dias atuais.

É impossível abordar esse tema sem uma menção, mais do que honrosa, para o papel que o boygroup BTS vem desempenhando nos últimos anos. Um grupo que cresceu colossalmente e ultrapassou a barreira do mercado asiático e, assim como alguns de seus predecessores, conquistaram grande público no criterioso nicho norte-americano. Pode parecer um resultado do trabalho de uma equipe extremamente ambiciosa, mas o BTS reconhece toda essa influência sobre o público jovem e resolveu usar isso para uma boa causa, o que os tornou porta-voz da campanha “LOVE MYSELF”, da UNICEF.

Em pronunciamento na Assembleia Geral das Nações Unidas, o líder do grupo, RM, fez um comovente e inspirador discurso com foco na aceitação entre os jovens, no amor por si mesmos e no incentivo da própria voz em decisões pessoais.

Abaixo, o trecho final de seu pronunciamento:

“Não importa quem você seja, de onde você venha, sua cor de pele, sua identidade de gênero, apenas fale! Encontre seu nome e sua voz, falando por si próprio. Eu sou o Kim Nam Joon, e também sou um BTS. Sou um ídolo e também sou um artista de uma pequena cidade da Coreia. Como a maioria das pessoas, eu cometi muitos erros em minha vida, tenho muitos defeitos e muitos medos, mas eu vou me aceitar da maior forma que eu puder, e começar a me amar, gradualmente, aos poucos. Qual é seu nome? Fale por si próprio. Muito obrigado!”Kim NamJoon

Com isso, vários K-Poppers de diversos fandoms se sentiram acolhidos e representados com a campanha, incentivando à procurarem ajuda. Alguns fãs se sentem tão abraçados pelos seus grupos favoritos e por essa campanha, que decidem deixar marcado (literalmente) o quanto o K-Pop ajudou — e ainda ajuda —, a enfrentar os problemas da vida.

Por meio de tatuagens, os fãs de K-Pop homenageiam seus favoritos, tanto com símbolos que representam o grupo, ou até mesmo com letras de músicas que os tocam de alguma forma.

Nós conversamos com alguns fãs e conhecemos um pouco de sua história. Relatos que nos mostram como o kpop pode acabar se tornando um forte aliado na luta contra a depressão e doenças mentais.

Suzy, 53 anos, Rio de Janeiro/RJ, youtuber do Canal da Omma
Suzy fala sobre como a Síndrome do Pânico limitou sua vida. Após engravidar e com isso ter recuperado suas energias com o surgimento de um novo foco para viver, ela conta que conhecer o K-Pop foi o desencadeador de uma grande melhora na maneira como ela leva sua vida. “Eu não consigo me ver mudada para uma coisa ruim. Eu me vejo mudada para uma coisa boa. Eu estou uma pessoa feliz.”, conclui Suzy, sobre sua recuperação.

Ana Paula, 16 anos, Parnaíba/PI, estudante
Ana Paula, por sua vez, vê o K-pop como sendo seu alicerce. Após perder sua mãe, a jovem conheceu o gênero musical por volta da mesma época, quando passava horas consumindo o conteúdo produzido pelos idols para sentir-se bem novamente. “Eu exalto os grupos que fazem músicas de auto-ajuda, que foram a maioria deles que me ajudaram na fase mais difícil da minha vida.”

Lilian Marques, 22 anos, youtuber e empreendedora
Para Lilian, o BTS representa muito mais do que apenas música. Sua primeira tatuagem foi em homenagem aos garotos que, ao longo da era Love Yourself, influenciavam a jovem para que não se machucasse nos momentos de crise. Sobre isso, Lilian conta: “A Love Yourself foi a era mais importante pra mim; eles me ajudam a aprender a me amar e me aceitar do jeito que sou, o que pra mim era bem difícil.”

Mayra Morais, 24 anos, Rio de Janeiro/RJ, estudante
Mayra diz que, embora tenha algumas recaídas com a ansiedade, o k-pop a ajudou a superar momentos complexos há alguns anos. “Há 4 anos eu tive tumor nos olhos e tive que operar. Meu rosto ficou desconfigurado, devido a complexidade das cirurgias”. Segundo ela, apesar de sempre ter amado o mundo da música, ter começado a ouvir k-pop foi o que fez tudo mudar. “Tatuei ‘Haru Haru’ [BigBang] no meu braço… Essa frase é tudo pra mim.

Renata Lourenço, 22 anos, São Paulo/SP, cozinheira
A ansiedade não é algo novo na vida de Renata. Essa condição teve grande influência em sua vida, tornando-a insegura quanto a interações sociais. “Eu me importava demais com o que os outros iriam pensar sobre mim, a opinião dos outros era mais importante que a minha. E minha Ansiedade apenas aumentava, assim desenvolvendo mais problemas.”
Após ser diagnosticada e começar a receber medicação, ela conta que o primeiro contato com o k-pop, juntamente com sua desconstrução sobre sua própria situação e o interesse pela dança, alterou esse quadro. Sobre o girl-group EXID, Renata comenta: “Era tão diferente… Tinha pop, rap, coreografia, high notes e APENAS meninas. Isso não era algo que eu via com frequência. Passei dias vendo aquele dance practice sem parar.”
Depois de algum tempo se aprofundando no k-pop, Renata conheceu o Vixx (o qual considera de grande importância em sua vida) e em seguida o BTS, grupo que ela dedica várias tatuagens em seu corpo. “Eu sou extremamente grata a tudo que eles me proporcionaram, tudo que eles me ajudaram a ser. Eu espero que eles realizem todos seus sonhos e que sejam as pessoas mais felizes do mundo. Eles merecem.”

Ana Caroline Teixeira, 28 anos, Porto Alegre/RS, tanatopraxista
Ana Caroline convive com a Depressão desde seus 13 anos, e foi em 2012 quando seu interesse real pelo k-pop despertou, com o boy-group SHINee. O BTS também marcou presença em sua vida, incentivando-a a aprender o idioma coreano. “Em 2016 — com 25 anos — estava prestes a tirar a minha vida. Eu não sentia mais alegria em viver. Quando estava ‘bem’, eu só não estava triste. Eu bebia toda noite — e não bebia pouco. Somando isso a vários outros acontecimentos, eu sentia que viver exigia demais de mim e eu não tinha forças pra continuar e, em uma noite, eu ouvi a música ‘Superfly’ do 24K no Youtube. A música é MUITO animada e eu amei logo de cara.”, diz a jovem. Foi durante um show do grupo que Ana percebeu como aquilo iria impactar sua vida para sempre: “o k-pop não era só mais música pra mim, era uma ferramenta pra me ajudar a alcançar alguma alegria, euforia e, mesmo que por alguns minutos, vencer a depressão.”

Imagem de cima é o autografo que o artista Cory (atualmente, Corbyn) fez no braço de Ana Caroline. Em baixo, é a tatuagem feita no mesmo dia, a partir do autografo original.

Isabela Marques, São João da Boa Vista/SP, designer
A Isabela nos contou que, além da pressão de estudar para o vestibular e escolher um curso, ainda passava por problemas com o fim de um relacionamento abusivo. Consequentemente, a insegurança começou a tomar conta de si, fazendo com que sua baixo auto-estima fizesse ela se sentir solitária, sem conseguir se abrir com ninguém. Na antiga rede social chamada Orkut, relata que conheceu um menino com quem conseguia desabafar, porém, 3 dias antes de se conhecerem pessoalmente, ele acabou falecendo. Devido a esse trágico fato, sua Depressão a impedia de sair de casa, até mesmo para ir na escola.
Relata que, enquanto estava no Tumblr, soube que a música de debut do boygroup NU’EST falava sobre bullying, abuso, e todo o sentimento de fracasso que as vítimas sentem. Após isso ela se apaixonou pelo grupo, principalmente pelo rapper Aron, pois em uma de suas músicas solo ele desabafa sobre a dificuldade de ser estrangeiro em um país e sobre como quis desistir de tudo: “Eu vivi com essa pressão todos os dias, mas com a pressão de não aceitar quem eu era, de me culpar por um relacionamento abusivo.” conta ela.
Sua tatuagem de margarida é em homenagem ao seu grupo favorito e seu bias, além de fazê-la lembrar de nunca se machucar novamente: “No álbum ‘Re:Birth’ tem uma foto que o Aron está em um campo de margaridas (…). A florzinha sempre teve muito apelo pra mim, porque além de ser minha favorita, era a que eu desenhava em dias ruins.”

Gostaríamos de ressaltar que não é só o K-Pop ou outro refúgio que irá te ajudar. A depressão,  ansiedade e outros transtornos psicológicos são doenças muito sérias e requerem tratamentos com psicólogos, terapeutas e médicos. São profissionais que irão te auxiliar e te encaminhar com soluções para você tratar dos seus conflitos da melhor maneira possível.

O k-pop em si não é um tratamento para doenças mentais, que fique claro, mas pode ser um grande aliado desses tratamentos. Quem explica melhor isso, é o profissional Patrick Heid de Oliveira (CRP 06/144638), psicólogo e musicoterapeuta, de Marília/SP: “A música em seus diversos sons e estilos, é utilizada com fins terapêuticos como uma aliada no tratamento de diversos transtornos como a depressão e a ansiedade. Auxilia na reabilitação, promovendo integração com os tratamentos indispensáveis, que proporciona interação psicológica, física e emocional do paciente.” 

Segundo Patrick independente do gênero ou estilo musical, a música proporciona efeitos positivos no cognitivo, físico e emocional – Estudos comprovam que ouvir música libera dopamina no cérebro e causa a sensação de bem estar, sendo assim a música é uma boa opção para lidar com as emoções e transtornos mentais”, enfatiza o profissional.

Acrescenta ainda que “a música pode mudar seus pensamentos e comportamentos, além de estimular a memória, a criatividade e o raciocínio, melhora a autoestima, o autoconhecimento, o humor, a comunicação e a capacidade de se relacionar com outras pessoas.” – Por isso o k-pop teve um efeito positivo no tratamento dos entrevistados acima, pois, aliado aos tratamentos indicados pelos médicos apropriados, ele potencializa o efeito do tratamento, por ser algo estimulante e prazeroso para o paciente.

Nosso objetivo ao produzirmos esse texto é de, não só alertar sobre a saúde mental, mas também mostrar que você nunca está sozinho nesse mundo. Não se reprima em desabafar e procurar ajuda. Com ele, esperamos que você se sinta um pouquinho mais acolhido e confortável em se abrir com as pessoas que querem seu bem.


Texto por Bru e Hope | Entrevistas por Lýssa e Chugga | Equipe de redação da K4US
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