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Com uma audiência de mais de 30 mil inscritos, casal de youtubers coreanas dividem um pouco da vivência LGBTQ+ na Coreia. “Não somos errados, apenas diferentes dos outros”.


Sem uma legislação que a proteja e sob ataque da população conservadora, a comunidade LGBTQ+ na Coreia do Sul vem crescendo e aparecendo nos últimos anos, bem como o número de aliados da causa. Exemplo disso foi o crescimento da Parada Queer de Seul, que em sua primeira edição contou com a presença de 50 pessoas e vem registrando público recorde a cada nova edição, já ultrapassando a marca de 50 mil pessoas nas ruas pelo combate ao preconceito.

Fora das marchas e festivais em apoio a causa, a presença da comunidade LGBTQ+ é pouco expressiva na mídia tradicional (algo que retratamos em uma série passada aqui na K4US: parte 1, 2 e 3), mas um espaço que vem se mostrando cada vez mais aberto a aceitar essas pessoas é o YouTube, onde elas podem dividir com um público global suas vivências.

Esse é o caso do casal emoxsemo, duas jovens sul-coreanas que, apesar de não serem assumidas para pessoas próximas, mantém uma comunidade de mais de 30 mil inscritos em seu canal. Considerando a importância do local de fala e vivências, a K4US convidou as duas para inaugurar a série Coreia LGBTQ+, que tem como objetivo trazer a visão de quem vive essas realidades para ajudar pessoas de todo o mundo a se libertarem de visões preconceituosas, desconstruir mitos e a entenderem melhor a realidade da comunidade LGBTQ+ sul-coreana.

 

Primeiramente, vocês poderiam se apresentar para nossos leitores?

Emo: Olá, gente, nós somos um casal de mulheres que vivem na Coreia do Sul, e atendemos pelos apelidos “Emo” e “Semo” Couple. Eu estou nos meus 30 e poucos anos e minha namorada em seus 20 e tantos. Temos uma diferença de quatro anos. *Por questão de privacidade, preferimos manter privadas informações pessoais como nome real e idade.

 

Por que vocês decidiram criar no YouTube? Vocês esperavam alcançar mais de 30K de inscritos? 

Emo: Criamos o canal para reunir em vídeos nossas memórias juntas, na esperança de relembrá-las mais tarde. Mas muitas pessoas que assistiram ao nosso vídeo deixaram comentários gentis sobre como nosso vídeo os ajudou a superar pensamentos preconceituosos sobre casais do mesmo gênero. Isso nos fez pensar que, como esse tipo de casal, deveríamos ser mais responsáveis com nossos conteúdos de vídeo para que, através disso, pudéssemos ajudar mais pessoas a nos entender e a nos ver como qualquer outro típico casal apaixonado. Nós também esperamos por um dia no qual muitos casais lésbicos se sintam seguros de se assumir para o mundo e expressar livremente seu amor. Sempre nos surpreendemos vendo o número de inscritos crescendo rapidamente.

Vocês duas parecem bem confortáveis em frente às câmeras. Vocês são assumidas para suas famílias e colegas de trabalho? Vocês se preocupam que as pessoas descubram sobre o relacionamento de vocês?

Semo: Nós não somos assumidas para nossas famílias nem para nossos colegas de trabalho. É uma dor que precisemos nos forçar a viver sob uma discriminação velada ou sob a negatividade que a sociedade direciona a comunidade LGBTQ+. Nós temos medo de que pessoas próximas a nós descubram sobre nossa sexualidade, mas isso não impede nossa paixão por conversar com nossos inscritos em frente às câmeras. Talvez estejamos destinadas a fazer isso!

 

A Coreia é conhecida por seu conservadorismo. Qual foi a experiência de vocês conforme cresciam nesta sociedade e percebiam sobre sua orientação sexual?

Emo: Para nós duas aconteceu de forma muito natural e quando éramos jovens. A Coreia do Sul é intolerante com relação a sua comunidade gay e nosso distrito é conhecido por ter uma percepção negativa quanto a comunidade LGBT. Mas isso não me afetou em ser eu mesma. Ser “lésbica” é apenas uma disposição natural e pessoal, então eu nunca passei por agonia por gostar do mesmo gênero.

 

Vocês acreditam que as novas gerações estão mais abertas a entender as minorias sociais, como pessoas LGBTQ+ e outros movimentos sociais, como o feminismo? 

Semo: Sim, eu acho que sim. As características da sociedade estão mudando constantemente, assim como a percepção das pessoas sobre a comunidade LGBT. Mas pelo fato da geração passada ter recebido uma educação diferente da que a geração atual recebe, nós entendemos que os mais antigos oferecem visões muito menos tolerantes em relação à comunidade LGBT. Atualmente, é bom saber que a sociedade coreana tem mostrado uma crescente tolerância sobre a comunidade. Acredito que a geração atual é um passo em direção a um futuro melhor.

 

 

Vocês tiveram alguma mulher LGBTQ+ como modelo/inspiração enquanto vocês cresciam? 

Emo: Nos inspiramos uma na outra. Ela me ajuda a me tornar uma pessoa melhor, e vice e versa.

 

Internacionalmente, sabe-se pouco sobre a comunidade LGBTQ+ coreana, mas algo que se escuta com frequência sobre relacionamentos entre mulheres é que: mulheres com estilo “tomboy” não namoram entre si, assim como mulheres com estilo “feminino”. Isso é algo que realmente acontece com frequência?

Semo: Isso não é nem um pouco verdade. A maioria dos casais de mulheres que se assumem muitas vezes são descritas como uma mulher com estilo “tomboy” que namora uma com estilo “feminino”. Mas, na verdade, não existe um estilo de cabelo fixo para casais do mesmo gênero. Se mulheres de cabelo longo e com estilo “feminino” quiserem namorar uma mulher com estilo parecido, elas farão isso, e se uma mulher com um estilo “tomboy” quiser namorar uma mulher com estilo similar, elas farão isso. O mesmo vale para estilo de roupa e outras características.

 

Como vocês se sentem tendo pessoas de tantas culturas e experiências diferentes procurando os conselhos de vocês?

Emo: Mesmo que muitos dos nossos inscritos sejam de países diferentes e tenham variadas experiências culturais, eu acredito que é o amor que nos une como um só. Acredito que muitos inscritos se identificam com as histórias de um casal do mesmo gênero, tanto com as felizes quanto com as tristes. 

Tem alguma coisa que vocês evitam fazer em público por conta de possíveis retaliações?

Semo: Como foi dito em uma resposta anterior, a sociedade sul-coreana ainda é muito conservadora. Para nos encaixarmos nessa sociedade, normalmente não vamos muito além de abraços e mãos dadas. Sempre tentamos ser o mais cautelosas possíveis com nosso comportamento.

 

Como vocês lidam com o preconceito?

Semo: Como disse em uma outra resposta, a maioria dos héteros na Coreia do Sul, tem um estereótipo dos casais lésbicos como: uma mulher feminina namorando uma “tomboy”. Eu não me oponho a esse estereótipo porque as pessoas têm liberdade de opinião, mas esperamos que estes pensamentos mudem através do nosso canal no YouTube.

 

Há uns dias atrás Seul teve seu 20° Festival de Cultura Queer. Vocês foram ao evento? Por que vocês acreditam que é importante celebrar a diversidade em paradas?

Emo: Por causa da nossa agenda pessoal, não pudemos ir ao Queer Culture Festival, mas feliz 20º Seul Queer Culture Festival! Acreditamos que festivais LGBTQ+ são uma postura positiva e um ato simbólico forte contra a discriminação contra a comunidade gay. E esperamos que mais eventos sejam criados para dar visibilidade a nossa comunidade.

 

 

Gostaríamos de dizer “Não somos errados, apenas diferentes dos outros”. Sinceramente esperamos por uma sociedade cheia de amor e respeito. Obrigada por nos amar e apoiar, nós também amamos todos vocês!

– Emo e Semo


Agradecemos a disponibilidade das youtubers Emo e Semo pela entrevista e pela coragem de dividir tão abertamente suas visões e vivências com a gente.

Entrevista e tradução por Bea | Equipe de redação da K4US
www.k4us.com.br

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