Em um mercado musical cada vez mais moldado pela globalização e pela “estadunidentização” (sim, acabei de inventar essa), o uso do inglês no k-pop se tornou quase automático: seja em refrões, versos-chave das músicas ou slogans pensados para viralizar fora da Coreia do Sul. Ainda assim, algumas músicas seguem na contramão desse movimento e colocam o coreano como eixo central da experiência musical, seja propositalmente uma resistência ou não. O que vamos explorar nesse texto é a falta de ouvir o idioma quase integralmente nas músicas (vale o spoiler: a maioria das músicas, se não todas, são da 2ª e 3ª geração do k-pop) até porque, o k-pop já provou diversas vezes que não depende do inglês para atravessar fronteiras.

E aí você pode me perguntar: “qual a relevância de trazer esse tema em 2026?”. Eu até entendo a dúvida, porque esse texto provavelmente não vai conversar com todos os públicos e tudo bem. A minha intenção aqui é, principalmente, resgatar a memória de nós kpoppers veteranes, que sentem falta da sonoridade do coreano, das músicas com mais de 3 minutos (É UM APELO: PAREM DE FAZER MÚSICAS DE 2 MINUTOS!) e a sensação de estar consumindo uma cultura que escolhemos por vontade própria e que, de certa forma, parece que está sumindo ao longo do tempo. 😢

Então, para mim (e espero que também para você que está lendo!), essas músicas mostram que, mesmo no contexto do mainstream, a língua (independentemente de qual seja, tá?) não é meramente um idioma. Ela é integrante da música, do sentimento ao escutar uma canção do seu artista favorito em seu idioma nativo e faz parte da narrativa e da identidade artística do que escolhemos apreciar como cultura. E que fique bem explicitado aqui: eu não tenho nada contra músicas em inglês no k-pop, mas que o 100% coreano faz falta, faz e muita.

O coreano como escolha estética no mainstream

Algumas das músicas mais marcantes do k-pop apostam integralmente no coreano por decisão artística. É o caso de “Love Poem”, da IU, uma balada (as famosas ballads, músicas mais lentas) que se sustenta na delicadeza das palavras e na própria língua coreana para construir sua sonoridade. Arrisco dizer que, se fosse em qualquer outra língua, o impacto não seria o mesmo dessa obra-prima que a IU nos deu (obrigada, diva). Ainda no eixo das baladas, temos “End of a Day”, do Jonghyun (SHINee), que assim como a IU se sustenta na leveza, nos acordes da música e cria uma sonoridade única com o idioma sul-coreano.

Cantora IU e Jonghyun (SHINee) em reality sul-coreano. Foto: Divulgação

Grupos de k-pop também têm músicas 100% em coreano, como é o caso do VIXX com “Shangri-La”, do álbum Eau de VIXX (2018). A música, em específico, é toda em coreano e chama atenção também pelo uso do gayageum, um instrumento de cordas tradicional coreano, misturado com elementos modernos de pop e música eletrônica. Isso reforça não só a presença da língua, mas da cultura coreana em um contexto geral. Apesar de o álbum não ser inteiramente livre do inglês, o idioma aparece pouco nas outras faixas, o que faz de “Shangri-La” um exemplo bem claro dessa escolha estética.

Outro grupo que traz muito da língua coreana nas músicas é o SEVENTEEN. “Don’t Wanna Cry”, uma das faixas mais conhecidas do grupo, é um bom exemplo disso, assim como a balada “Habit”, do vocal team, presente no álbum Al1 (e arrisco dizer que é uma das melhores da discografia deles). Se a gente parar para analisar, os primeiros álbuns do SEVENTEEN têm pouquíssimas letras em inglês, algo que foi aumentando aos poucos conforme o grupo foi se expandindo para fora da Coreia do Sul.

SEVENTEEN em fotos promocionais para o 4º mini álbum “Al1”. Foto: Divulgação/Pledis

Algo parecido acontece com a banda sul-coreana DAY6. Nos primeiros álbuns, o inglês aparece bem pouco, com músicas totalmente em coreano, como “What Can I Do”, por exemplo (e várias outras também). Com o crescimento internacional da banda, o uso do inglês foi ficando mais frequente, acompanhando essa expansão.

Outras músicas que conhecemos bem também têm letras inteiramente em coreano, como “Eyes, Nose, Lips”, do Taeyang (BIGBANG); “Into the New World”, do Girls’ Generation; “Missing You”, do BTOB; “Killing Me”, do iKON; “Rough”, do GFRIEND — inclusive, boa parte da discografia do grupo segue esse padrão —, além de “Hwaa”, do (G)I-DLE, e “The Chaser”, do Infinite.

Músicas 99,9% em coreano

Como mencionei antes, há também um grupo de canções que não são tecnicamente 100% em coreano, mas chegam muito perto disso com uma palavra isolada, uma interjeição ou um título em inglês que não compromete a estrutura da letra. Essas músicas costumam ser confundidas como totalmente coreanas, e não por acaso, por conter, geralmente, apenas interjeições em inglês, como: “yeah”, “oh” “no”, e por aí vai. 

Aqui, podemos citar “Singularity”, do BTS, onde o inglês é praticamente decorativo diante da densidade da letra em coreano, assim como em “I Like You”, do GOT7, e “Days Gone By”, do DAY6, em que o foco está na narrativa e no conjunto da obra, não na internacionalização explícita. Entre outras MUITAS músicas desses e outros grupos e cantores sul-coreanos solos.

Essas músicas ocupam uma zona interessante do k-pop: mostram que, mesmo quando o inglês aparece, ele não é necessariamente central, nem define o impacto da obra. O que essas canções têm em comum não é apenas a predominância do coreano, mas a recusa em tratá-lo como obstáculo. Seja em baladas intimistas, faixas conceituais ou sucessos de palco, o k-pop mainstream demonstra que a língua local pode ser expressiva, comercial e universal ao mesmo tempo.

Mais do que idioma, uma afirmação cultural

Em um cenário onde a globalização costuma ditar escolhas estéticas, essas músicas lembram que a identidade também comunica e ultrapassa as fronteiras sul-coreanas. E que fique claro, não estou julgando, muito menos diminuindo os artistas que usam o inglês (e outras línguas, como chinês e japonês) nas suas canções, até porque, vale lembrar que estamos consumindo uma arte globalmente difundida e que conta com não coreanos em suas produções (mas por favor, voltem a fazer músicas de 3 minutos!). 

Essa mudança de idioma e de estética não acontece por acaso. Ela acompanha números, estratégias e um mercado que cresce em escala global.  Dados do Instituto de Turismo e Cultura da Coreia mostram que, em 2023, só a exportação de álbuns físicos de k-pop alcançou cerca de 388,9 bilhões de wons (cerca de US$ 264,7 milhões). Os shows no exterior chegaram a 588,5 bilhões de wons (US$ 400,6 milhões). Já a receita dos produtos dos álbuns cresceu, em média, 35,2% ao ano de 2018 a 2023.

O total da presença do k-pop no exterior é estimada em cerca de 1.237 bilhão de wons (US$ 842 milhões), um aumento de 315,9 bilhões de wons (US$ 214,3 milhões) em relação ao ano anterior, representando uma taxa de crescimento de 34,3%. Apesar de ser justificável essa globalização — até com lançamentos de álbuns 100% em inglês — sentimos falta de ouvir a língua do país que decidimos consumir a cultura. Agora a K4US quer saber, você sente falta de ouvir mais músicas em coreano? Que música deixei de citar aqui? Conta pra gente!