Da moda às trends musicais, o Brasil é o dono da bola! No entanto, o que parece uma atenção repentina, na verdade é algo que vem se consolidando nos últimos anos.
Mas as perguntas que não querem calar: por que agora? Essa atenção toda veio pra ficar, ou já tem seus dias contados?
Brazilcore: da estética ao gingado brasileiro pro mundo
Voltando um pouquinho no tempo, tivemos em 2023 o surto das camisas de times brasileiros, com a Rio (NiziU), a Gaeul (IVE) e outros idols usando o uniforme do Guarani F. C., time do interior do estado de São Paulo.
Desde então, a estética de camisas esportivas nacionais virou febre, fazendo parte das tendências de moda. Como exemplo, temos a parceria entre a Over The Pitch e a Mizuno em uma coleção que utilizou de inspiração o time brasileiro São Paulo F. C.

E não para por aí, tivemos outro ícone nacional dominando a Ásia, a capivara se tornou um símbolo brasileiro por lá, levando os chineses aconselharem a criação de uma “política capivara”, algo semelhante com o que é feito na China com os pandas.
Em meados de 2024, a literatura brasileira viralizou no tiktok com vídeos de bookstans internacionais, facinados com nossa literatura clássica como Machado de Assis e Clarice Lispector. Assim, esses episódios impulsionaram a procura pelo aprendizado da língua portuguesa.
Sonoramente, com o clássico “desafio do ombrinho” no segundo semestre de 2024, o funk brasileiro ou internacionalmente conhecido como “phonk”, passou a ser frequente nas principais trends do mundinho asiático.
Tendo o ápice em 2025, com trends como “Vai Tomar Rajadão” da música “MENTE MÁ” de Nakama e MC Staff. E o hit do momento, a faixa “NO BATIDÃO” de ZXKAI e slxughter, que contou com Zhang Hao (ZB1), William (LYKN), Navi (SECRET NUMBER), Anxin e Leo (Ald1), e outros que performaram o desafio viral.
Algumas faixas foram usadas pela iQIYI, Youku e WeTV na divulgação de alguns c-dramas como “Sword and Beloved”, “Blood River”, e “Yummy Yummy Yummy”. Sem falar nas músicas lançadas que utilizaram da batida do funk, como “WICKED” do ALLDAY PROJECT, “Do What i Want” e “N the front” do MONSTA X, “POWER” do ONE OR EIGHT, e, “BAKUON -爆音-” e “Gachi Funk” do WOLF HOWL HARMONY from EXILE TRIBE (WHH).
Ainda teve a parceria entre Pabllo Vittar e o grupo feminino NMIXX, que além de render o single “MEXE”, também tivemos a faixa “Tic Tic”, lançada no dia 26 de fevereiro. E a mas recente parceria, o grupo masculino 82MAJOR com a cantora brasileira Melody, com a música “Tie You Down”, que será apresentada durante a turnê “BEBEOM: BE THE TIGER” no Brasil, mas lançada oficialmente em 2 de abril.
O poder brasileiro e o “Come to Brazil”
Agora se tem um lugar que os brasileiros tem poder, é nas redes sociais. O público brasileiro é conhecido por entrega algo que vale muito para a indústria hoje: o engajamento.
Ao longo dos anos a forma como consumimos entretenimento, principalmente a música, mudou muito rápido. Com o impulsionamento das redes sociais hoje o que conta são as visualizações, a viralização e o engajamento.
Nós não simplesmente consumimos arte, nós curtimos, comentamos, compartilhamos, criamos memes… incansavelmente. E assim a indústria foi percebendo que nosso engajamento nas redes gera um grande retorno para os artistas. Por isso, nos últimos anos temos visto cada vez mais artistas internacionais voltarem seu foco para o Brasil, nos incluir em turnês e estratégias comerciais.

E é claro que a indústria de entretenimento asiática também nos notou. Só nos últimos três anos o Brasil entrou na rota de shows e eventos de artistas como Super Junior, NCT Dream, NCT 127, XG, ATEEZ, Stray Kids, Baekhyun, Taemin, Jackson Wang, Lee Jun Ho, Cha Eun Woo, Jung Hae In, Seo In Guk, entre outros.
Entretanto, ainda que tenham começado a enxergar o potencial do público brasileiro, suas passagens por aqui muitas vezes parecem ser apenas para “bater ponto”. Isso é perceptível, quando os grupos de k-pop ou solistas não trazem seus “shows completos” ou as famosas merchs (produtos oficiais e exclusivos) da turnê para vender durante os shows por aqui, o que costuma acontecer em outros países.
Por mais que até faça certo sentido a famosa justificativa das “dificuldades logísticas”, não é de hoje que ouvimos isso quando questionamos a falta do Brasil ou de países latinos na rota das “turnês mundiais” dos artistas. Mas será que é difícil mesmo? Ou talvez essa justificativa seja útil para disfarçar a xenofobia que existe velada, mas não invisível?

Quando um grupo como Stray Kids trás sua enorme estrutura de show para o outro lado do mundo e faz três shows em duas grandes capitais do Brasil, mas limita sua interação com o público, enquanto em outros países, os fãs recebem encontros e gestos de carinho, essa justificativa cai por terra. Ou quando vemos as diferenças gritantes entre os pacotes VIPs oferecidos em shows no Brasil e os oferecidos em shows em países de outros continentes.
A impressão que fica é que somos úteis apenas quando convém, quando precisam de visualizações, de números e engajamento. Quando não é conveniente ou quando questionamos essas diferenças de tratamento, nosso amor é taxado de drama e exagero.
Mas é claro que também existem exceções. O show único de Jackson Wang no Brasil em 2023, que contou com a participação do DJ brasileiro Alok no encerramento, com funks clássicos do nosso país, uma experiência que foi memorável para os fãs e o astro.

Outros artistas também já fizeram de suas passagens por aqui bem especiais e únicas, como o KARD, que já fez diversos shows por aqui além de colocarem músicas brasileiras em sua setlist; o 2Z que além gravar covers de sucessos brasileiros já lançou um lightstick no Brasil; o NTX realizou fan meetings em várias capitais brasileiras, contando até com apresentação de frevo na passagem por Recife; e mais recentemente, o NMIXX com a Pabllo Vittar, que rendeu até participação do grupo no Carnaval de São Paulo, no Bloco da Pabllo.
O que reforça que há muito tempo apenas dizer “hi” para o Brasil não basta, a gente quer mais e com razão, nós merecemos mais. E quem percebe isso tem a chave para usufruir dos lucros do nosso amor, o que não é um problema se o retorno é à altura.
Mas por que agora? O Brazilcore, veio pra ficar?
No vídeo produzido pelo influencer Pedro Daher, que posta vídeos dedicados a explicar de forma simples questões geopolíticas, justifica e aponta dados que demonstram o aumento da procura pelo Brasil e sua estética, assim como pela América Latina como um todo.
Entre os principais motivos, estaria a queda da hegemonia do “sonho americano” ou mesmo “o estilo de vida americano”, que foi amplamente divulgado no século XX. As promessas e a premissa da “meritocracia” defendida pelo modelo norte-americano já não conversa com os ideais da nova geração, além da política atual anti-migratória repelir fortemente uma possível aproximação.
Esse pensamento e modelo de vida individualistas, de certa forma, foi explorado ao seu limite. Isso gerou um grande esgotamento coletivo, que se reflete numa grande crise de conexão vivida pelos estadunidenses, onde metade dos adultos já relataram algum tipo de isolamento emocional na vida.
E todo esse “plano de vida” estadunidense, se pararmos para pensar bem, sempre foi algo com data de validade, afinal, o ser humano é um ser social, a história da humanidade nos ensina isso. Tudo o que construímos ao longo dos milênios aconteceu porque nos conectamos uns com os outros.
Assim, com a Geração Z se distanciando da busca das gerações passadas pelo acúmulo de riquezas a partir do trabalho, em prol de alcançar o bem estar mental e físico, dentro de um estilo de vida que promova o coletivo.
Segundo Daher, as questões apontadas acima, tornaram o Brasil e os brasileiros, uma opção mais viável e alinhada aos ideais da nova geração. Porque se tem uma coisa da qual podemos nos orgulhar é da nossa facilidade em criar conexões, do nosso senso de comunidade (as guerras que travamos no X estão aí de prova) e, claro, da nossa autenticidade, afinal esse “molho” não pode ser imitado.
O que pode ser visto no relatório da ONU Turismo de 2025, no qual revela que no ano passado, o Brasil bateu recorde com mais de 9 milhões de visitas turísticas internacionais ao país, um crescimento de 37% contra a média global de 4%.

Além do recorde em turismo, o Brasil entrou pela primeira vez no relatório da Luminate, como o 9º país com maior potencial de exportação musical do mundo, provando que estamos sim, chamando a atenção para nossa cultura e bens culturais.
Mas então, viemos para ficar ou seremos moda passageira? A resposta para isso na verdade só depende de nós. Devemos aproveitar o momento favorável no qual nos encontramos e realmente valorizar nossa cultura e identidades.
Já passou da hora de deixarmos para trás o “complexo de vira-lata” sob o qual temos nos escondido e vestir nossa identidade com orgulho. Não somos um país perfeito (e adivinha? Nenhum país é), mas também não somos esse lugar ruim que fomos ensinados a acreditar.
E vale lembrar, merecemos reconhecimento e amor por quem somos! E não por quanto engajamos!



