Na última sexta-feira (29), a Netflix lançou sua nova produção coreana “Amor enrolado”. E pelo título e a sinopse disponibilizada pela própria plataforma, os cachos teriam um grande papel.

Assim, a obra tinha como premissa apresentar a história de uma garota do ensino médio que, para conquistar o crush, decide alisar o cabelo cacheado, já que era o que ele gostava, mas um garoto novo aparece e tudo muda.

Longe de opinar se a obra é boa ou não, acredito que me deixei levar pela esperança de ver uma narrativa onde os cachos recebessem destaque, mas, no fim, parece que o filme seguiu a receita de bolo e serviu mais do mesmo.

Imagem/reprodução: Netflix

Claro que entendi que só após o alisamento a personagem, dentre todas as suas próprias ações, entendeu de fato seus sentimentos, porém, o que incomoda não é este ponto, mas a narrativa que usou de longos minutos pra representar quão tortuosa era a vida da protagonista com os seus cabelos cacheados. E, mesmo após ela aparentemente aceitá-los, “Amor enrolado” não constrói nenhum contexto ou mesmo cenas que reafirmem essa aceitação.

Para acrescentar à já crescente sensação de insatisfação, não há um único momento dela se apreciado ou mesmo demonstrando satisfação com seu cabelo natural de volta. Então, o cabelo virou uma trama completamente descartável, poderia talvez ter sido outra questão em jogo, um aparelho odontológico, um hobby específico e a história teria seguido o curso.

Talvez parte da expectativa tenha sido criada pela escolha do nome nacional na Netflix Brasil que, juntamente com a sinopse, sugere mais destaque ao cabelo da protagonista do que o enredo no geral, já que no nome original “고백의 역사”, seria traduzido por algo como “História da Confissão”.

Imagem/reprodução: Netflix

Sendo assim, eu como uma garota parda de cabelos afro ao longo desses mais de 10 anos sendo consumidora de produções audiovisuais asiáticas, por vezes me senti incomodada, pra falar o mínimo, da simbologia recorrente que os cabelos cacheados ganham. Outras vezes senti que eles conseguiram acertar entre os tantos erros.

Por isso, trouxe aqui as três principais narrativas usadas relacionadas aos cacheados, quando evidenciadas em personagens mais centrais da trama.

“Desleixo”

Dramas como “She Was Pretty”, “I’m Not a Robot” e “A Little Thing Called First Love”. Acabam por associar ou dar características cacheadas das personagens femininas, como mais um indício de descuido pessoal e mesmo falta de amor próprio. 

Inclusive, essa “característica” é substituída por um novo visual mais “condizente” da personagem, e a chave é simplesmente vestir roupas “na moda” e ALISAR o cabelo, para, assim, o amor e as coisas darem certo🙄

Engraçadinhos

Há também os personagens com cabelos cacheados que ganham uma simbologia de serem fofos, meigos e às vezes até tímidos, inclusive muito recorrente com personagens masculinos. Com cabelos que se assemelham muito com as das representações dos querubins e outros anjos.

Eles configuram pureza e por vezes tornam-se a figura mais cômica do enredo. Temos como exemplo: “as mães” no drama “Reply 1988” e o “Jang Jun Woo” no drama “Vincenzo”.

Rebeldia

Outra narrativa muito comum, personalidade forte, principalmente com personagens femininas cacheadas, que por vezes é a associação das mulheres “feministas”, mas no geral personagens que fujam do padrão conservador e estejam sempre prontos pra briga. 

Além disso, são protagonistas que defendem o empoderamento da mulher e a liberdade em escolher suas vidas. E mesmo nessas narrativas, algumas vezes o enredo faz questão de mostrar a “redenção” desta personagem aos velhos padrões conservadores. Como a “Lee Mi Na” em “Hit the Spot” , ou a “Cha Hui Seong” no drama “Os Lucros do Amor”.

Antes de continuar, preciso deixar claro que não estou avaliando se os dramas citados acima são bons ou não, eles estão aqui servindo de exemplo sobre como os cabelos cacheados são por muitas vezes enquadrados na trama. Principalmente quando estão relacionados a personagens centrais.

Afinal, poucos dramas trouxeram leveza ao retratar o cabelo cacheado e suas nuances e dentre eles podemos citar:

Nagi’s Long Vacation

Imagem/reprodução: TBS

No drama, Nagi, nossa protagonista, tímida e reservada, sempre insegura de si, passou sua vida tentando agradar as pessoas ao seu redor. Após um episódio de crise de ansiedade no trabalho, ela decide deixar tudo pra trás e viver num estilo “minimalista” enquanto durar suas economias.

É aí que ela passa a assumir os cachos que antes eram alisados todos os dias para ajudá-la a se encaixar na sociedade, mas agora eles passam a ajudá-la a se encontrar.

Dentre os dramas que tratam de alguma forma da narrativa capilar dos cacheados, sem sombra de dúvida, “Nagi’s Long Vacation” é o meu favorito, e inclusive o assisti quando estava passando pela minha transição capilar. Ele tem um lugarzinho especial no meu coração. 🥹

O que esperar do futuro?

A representação no audiovisual é um dos fatores que nos fazem ter tanto apego e nos identificarmos com diversas características de um personagem ou mesmo de uma determinada situação. Por isso, a importância dos milhares de pedidos por maiores representações de grupos minoritários nas produções. Nos dramas asiáticos isso não é diferente. 

Afinal, à medida que os anos passam, mais imigrantes e apaixonados pela cultura asiática passam a conviver nesses países e, para abarcar mercados maiores, a pluralidade vai exigindo pautas que nem sempre estavam de fato sendo abraçadas. Dentro desse contexto, os cabelos cacheados também vão aos poucos pedindo espaço.

Foto: Arquivo pessoal/p.chaeso

Assim como observado pela Park Chaeso, influencer cacheada sul-coreana que, em entrevista fornecida a K4US ano passado, comentou que a narrativa dos cabelos na Coreia do Sul, por exemplo, não era nada animadora:

“A mídia teve tanto impacto tanto positivo quanto negativamente. Quando a mídia cobre um objeto e faz julgamentos avaliativos sobre ele, acho que o público o aceita como ele é. Na Coreia, o cabelo cacheado retratado na mídia é bagunçado, cômico, rebelde e nada bonito.”

__ Park Chaeso para a K4US.

Park então ressaltou a importância dessa representatividade no k-pop por idols como Danielle do NewJeans, agora NJZ e a ROSÉ do BLACKPINK, em naturalizar na mídia os cachos. Uma vez que por muitos anos a mídia, principalmente as publicidades de produtos pra cabelo, tratavam o cabelo cacheado como algo “maligno”. A diva percebe mudanças e tem formado um grupo de pessoas interessadas em aprender mais sobre cuidar do seu próprio cabelo cacheado.

Esperamos que as séries possam acompanhar essas mudanças e trazerem maior representatividade, não apenas a existência destes personagens, mas que a trama possa trazer destaque aos cachos, passando mensagens mais diretas de aceitação.