Um vídeo de crianças filipinas dançando voguing ao som de um funk brasileiro viralizou por volta de 2022 e 2023.

@meionews

Mini queridos filipinos fazendo uma perfomance icônica ao som de funk brasileiro. #viralizou #informacaotiktok #informatiktok #entreterimento

♬ Collide (more sped up) – Justine Skye

Depois, outros vídeos de filipinos lidando com problemas utilizando o humor surgiram, assim como registros de indivíduos demonstrando confiança na atitude, no modo de caminhar e na personalidade.

Esses fatores fizeram com que as pessoas do Brasil se identificassem com o povo do sudeste asiático, se conectando por meio do humor e pelo jeito de encarar a vida. Até mesmo o grupo Now United brincou com isso, quando a integrante filipina-estadunidense, Jayna, e a brasileira, Desiree, protagonizaram um vídeo onde se chamavam de “filiprimas”.

@favxzw

eu amo a união brasil filipinas e Indonésia #nowunited #brasil #filipinas #indonesia

♬ som original – ju

Mas essas associações são por acaso?

De volta ao passado

O nome ”Filipinas” vem de “Felipe”, que é uma homenagem ao rei Felipe 2º da Espanha. Assim como partes da América Latina, as Filipinas passaram por mais de 300 anos sob o poder da Espanha na época colonial.

Por mais que não houvesse muito o que explorar na região asiática, os portugueses e espanhóis viram a região como algo estratégico devido às possibilidades de entrar no mercado chinês.

Durante essa época, as Filipinas prestavam contas à Nova Espanha, que hoje corresponde à região do México. Por mais de 200 anos, uma rota comercial conectava Manila, no arquipélago, à Acapulco, na área mexicana. Posteriormente, as Filipinas conquistaram a independência em 1946, depois da Guerra Hispano-Americana e da ida sequencial para o domínio dos Estados Unidos. 

Com a colonização europeia, houve a imposição do catolicismo na sociedade e, mesmo após a libertação, a religião se manteve nas Filipinas como uma das principais religiões. 

Além disso, coincidentemente, o país asiático passou por um regime militar que durou 21 anos (1965-1986), enquanto o Brasil também vivenciou uma ditadura por 21 anos (1964 – 1985). Assim como na nação latina, o regime filpino usou a violência, os assassinatos e os atos contrários aos direitos humanos para se manter. A música foi um dos meios utilizados nos dois países para driblar a censura e falar sobre os problemas da ditadura também. 

As influências compartilhadas

Países colonizados compartilham algumas características, desde a economia (foco em exportação) até cultura e sociedade, como é observado entre as Filipinas e o Brasil. 

Os dois foram os únicos colonizados por nações europeias diferentes das que colonizaram as demais regiões próximas. No caso das Filipinas, a Espanha. No Brasil, Portugal. Com isso, cria-se uma experiência mais singular do colonialismo caracterizada pelo aspecto geográfico — que influencia nos outros âmbitos também —, pois houve a diferenciação em comparação aos países vizinhos.

No caso do Brasil, compartilhamos muitas similaridades com os outros países latinos por causa do processo histórico, mas ainda sim temos pontos em comum com as Filipinas porque eles também possuem relações históricas com a Espanha, que influenciou fortemente a própria América Latina.

Além do fator cultural, até os sobrenomes foram impostos pela Espanha. No arquipélago, os mais comuns são Santos, Cruz, Bautista, García e outros. Eles foram colocados pelo colonizador após as famílias filipinas serem convertidas ao catolicismo e, consequentemente, os sobrenomes se mantiveram com o tempo. 

Algumas palavras também são similares ao português, como “lugar (lugar, em português)”, “biblya (bíblia, em português)”, “dentista (dentista, em português)” e “bangko (banco, em português)”.

Nem tudo são flores

Por acaso ou não, no âmbito político, o Brasil está repetindo algo que foi visto nas Filipinas em 2013.

No ano mencionado, um grande esquema de corrupção foi revelado, em que senadores e deputados desviaram mais de 300 milhões de reais usando Organizações Não Governamentais (ONGs) e empresas de fachada para receber propinas. O processo é similar ao “orçamento secreto” brasileiro.  

Houve protestos e a Suprema Corte filipina declarou os acontecimentos como inconstitucionais, mas a mesma prática continuou existindo com outros nomes e em escala maior. 

O Brasil passa por um crescimento acelerado das emendas, o que favorece redutos eleitorais, clientelismo, desigualdade regional, falta de transparência do dinheiro público, uso político das obras e impacto nas eleições. Atualmente, as emendas consomem mais de 50 bilhões de reais, o que fragiliza o orçamento federal e fortalece a desigualdade entre municípios ricos e pobres. Os prefeitos também utilizam isso como moeda eleitoral — em 2024, os que receberam mais verba, tiveram taxa de reeleição mais alta, segundo a Revista Piauí.

Com isso, o Brasil traça um caminho que as Filipinas seguiu no passado, causando desequilíbrio entre os Poderes e ignorando as decisões do Judiciário, utilizando ferramentas similares.

Unidos, mesmo que distantes

Por mais que haja uma grande distância entre as duas regiões, o Brasil e as Filipinas nutrem um senso de reconhecimento entre si. 

É inegável as dificuldades econômicas e sociais que os países passam. Em 2025, as Filipinas tiveram protestos contra a corrupção nos projetos de controle de enchentes. No mesmo ano, o Brasil teve manifestações contra a PEC da Blindagem, devido à corrupção e os variados problemas decorrentes dela. 

As batalhas atuais são similares, assim como as que tiveram no passado colonial e todas as implicações dele. 

Entretanto, ainda há o brilho em um povo que, mesmo em meio as adversidades, encontra maneiras de lidar com elas com humor e exaltando a identidade tanto pessoal, quanto coletiva. E isso se estende aos primos do outro lado do mundo. Por exemplo, durante as olimpíadas, era comum ver nas redes sociais usuários das duas nações torcendo uns pelos outros

Isso mostra que, para além dos obstáculos, há um povo que encontra resiliência, exaltação e força. E, talvez, essa seja a maior característica que nos une.