No dia 25 de setembro de 2025, o Parlamento sul-coreano aprovou a chamada “Lei do Tatuador”. A lei que entra em vigor em 2027, permite que profissionais não médicos atuem legalmente na área após 33 anos de restrições. Nesse tempo apenas médicos podiam tatuar e manter estúdios no país. Com a popularização dos desenhos corporais — impulsionada pelo k-pop e por idols que adotaram a tatuagem como forma de expressão —, e luta dos tatuadores por reconhecimento profissional, a sociedade sul-coreana inicia um processo de abertura e reconfiguração cultural.
Para entender o valor dessa mudança, é preciso olhar para trás e compreender historicamente a representação da tatuagem dentro da cultura coreana. Vamos dar uma olhadinha?

Um olhar histórico: o significado das tatuagens na Coreia

Na história da tatuagem na Coreia do Sul, é possível enxergar o processo de marginalização dessa prática. O que antes tinha um sentido ritualístico e espiritual, tornou-se símbolo de punição e desonra. Sabemos que esse percurso aconteceu também no Ocidente, porém a resistência social sul-coreana permaneceu mais forte e duradoura marcada por valores tradicionais e uma rígida moral coletiva.

Cena de Querido Hongrang (2025): Tatuagem retratada nas costas de Lee Jae-wook com valor ritualístico e como forma de controle na era Joseon.
Cena de Querido Hongrang (2025): Tatuagem retratada nas costas de Lee Jae-wook com valor ritualístico e como forma de controle na era Joseon.
Origens antigas

Os primeiros registros indicam que há mais de 5 mil anos as tatuagens eram usadas na península coreana com propósitos espirituais, religiosos e protetivos. Acreditava-se que certos símbolos na pele afastavam espíritos malignos ou traziam boa sorte aos navegantes. Achados arqueológicos e antigos textos mostram que, em suas origens, a prática tinha valor simbólico e ritualístico, distante de qualquer conotação negativa.

Era Joseon (1392–1897)

Com o tempo, o cenário mudou. Na dinastia Joseon, as tatuagens passaram a ser usadas como punição criminal: criminosos eram marcados na pele como forma de exposição e controle social. A prática consolidou o estigma que associou tatuagem a desonra e marginalidade — percepção que persistiu por séculos.

Século XX

Durante a ocupação japonesa (1910–1945), o estigma se aprofundou. A tatuagem passou a ser associada às gangues e ao submundo urbano. Tanto na Coreia do Sul quanto no Japão, onde os yakuza popularizaram o uso de tatuagens complexas e extensas. Essa associação se espalhou pela cultura popular e pelo entretenimento.
Em 1992 essa percepção culminou na proibição legal da tatuagem para não médicos, classificando-a oficialmente como um procedimento médico.

A nova geração
Foto: Pinterest

Mesmo com as restrições, o olhar das novas gerações começou a mudar a partir do fim do século XX. Jovens sul-coreanos passaram a ver a tatuagem como arte, identidade e libertação estética.
Com a influência da moda, da globalização cultural e de artistas dispostos a desafiar padrões, os jovens coreanos começaram a olhar para a tatuagem de outro jeito. No universo do k-pop, ela se transformou em sinônimo de autenticidade. Um gesto silencioso de liberdade que muitas vezes ainda precisa ser escondido sob mangas e maquiagem. Mesmo com o peso do olhar conservador, é impossível negar: a tatuagem vem, pouco a pouco, conquistando seu lugar como arte e identidade.

Uma nova lei e um novo capítulo para os tatuadores sul-coreanos

Foto: Paul Ivan Harris / BBC

A aprovação da “Lei do Tatuador”, em setembro de 2025, marcou o fim de mais de três décadas de restrições que limitavam a prática apenas a médicos. A partir de 2027, tatuadores poderão atuar legalmente na Coreia do Sul, desde que cumpram critérios de licenciamento, higiene e segurança.

Entre o texto da lei e a prática, o caminho ainda é incerto. Tatuadores temem que a burocracia substitua o estigma da ilegalidade, com altos custos de licenciamento, inspeções rigorosas e exigências técnicas que afastam pequenos estúdios. Também há dúvidas sobre quem será o órgão responsável pela fiscalização — o Ministério da Saúde, que antes tratava a tatuagem como ato médico, ou uma nova entidade ligada à cultura.

Apesar das incertezas, a medida representa um avanço histórico. Estima-se que mais de 350 mil pessoas vivam direta ou indiretamente do mercado de tatuagem no país, um setor que agora pode sair da clandestinidade e buscar reconhecimento como parte da economia criativa.

Os próximos dois anos serão decisivos para que governo e profissionais encontrem equilíbrio entre segurança e liberdade para construir um modelo acessível e sustentável. Mais do que uma mudança legal, a nova lei simboliza um país em transformação — que começa, pouco a pouco, a permitir que a arte também tenha o direito de marcar a pele.