“Em termos de música, cultura negra é a base”, respondeu Bang Si Hyuk, CEO da HYBE Corporation, ao ser questionado sobre a principal característica do BTS.
Porém, não apenas o grupo possui as fundações na cultura negra. Toda a indústria do k-pop se moldou a partir do rap e hip-hop, desde o modelo de treinamento até a estética — e todas as consequências a partir disso.
Como a Coreia do Sul “descobriu” o rap e o hip-hop?
Do outro lado do globo, nos Estados Unidos, a “música negra”, como era chamada, começou a se desenvolver rapidamente, ao ponto dos charts estadunidenses serem preenchidos por vários cantores pretos, o que fez a Billboard criar a categoria de “Race Music (Músicas de Negros)”, mudando o nome posteriormente para “Rhythm & Blues (R&B)”, segundo a tese de Alissa William, “Got S(e)oul?: The Cultural Implications of Performing Blackness in K-pop on South Korean Youth (tradução livre: Tem S(e)oul?: As implicações culturais de performar negritude no K-pop para a juventude sul-coreana)”.
A principal empresa que lançava os artistas de renome, como os Jackson 5 e Diana Ross, era a Motown, que, além do sucesso comercial, possuía o método de “Controle de Qualidade”. Nele, as pessoas contratadas ensinavam os artistas, sem experiência profissional, a se tornarem estrelas respeitadas, por meio de treinamento vocal, dança e comportamento — como falar, sentar, andar, sorrir, se vestir —, com o objetivo de fazê-los atenderem aos requisitos sociais e midiáticos da época.

O acompanhamento era semanal, para que apenas as mulheres, músicas e artistas fossem lançadas pela Motown. Para a produção musical, a empresa priorizava músicas “chicletes”, que eram apresentadas pelos cantores usando roupas que combinavam e coreografias sincronizadas.
Familiar, certo?
Durante a Guerra da Coreia, alguns soldados negros estadunidenses estiveram na região e apresentaram o estilo musical e de dança para a comunidade que vivia na área.
Com o tempo, o povo coreano se familiarizou com a cultura do hip-hop e começou a reproduzir as músicas e os passos de dança nas próprias boates e grupos sociais, até posicionando algumas faixas nos charts do Melon.
As “inspirações” originárias da Motown dentro do modelo do k-pop foram além. A música coreana também absorveu o estilo, a moda, os traços e outros pontos importantes do que compõem a cultura do hip-hop e da cultura negra também, posteriormente, o jazz, blues e R&B se tornaram gêneros musicais fortes na Coreia do Sul e todos têm raízes negras, mas acrescentaram novas etapas para os aspirantes a cantores, como aprender a língua inglesa e a se comportarem na frente das câmeras.
O início do k-pop como conhecemos hoje
Depois da Guerra na península coreana, a Coreia do Sul ficou devastada e precisou se reestruturar em diversos âmbitos sociais. Com isso, o governo coreano destacou o que podia ser exportado para que recursos entrassem no país e estimulassem a economia.
Um dos investimentos foi o projeto de expansão da cultura sul-coreana a partir da criação do Ministério da Cultura, que tinha um departamento específico para k-pop.
O objetivo era buscar poder por meio da arte, o que foi inteligente, tendo em vista que o impacto dos Estados Unidos no globo se deu, na maior parte, pela exportação de cultura e em como a narrativa nacional foi passada por meio dela, criando o senso de perfeição da sociedade, o “sonho americano” e o ideal dos Estados Unidos como herói e salvador.
Como a Coreia do Sul é um país pequeno em relação aos EUA, por exemplo, seria mais difícil exportar iniciativas específicas da cultura coreana até mesmo pela barreira linguística, o que os falantes de inglês não tiveram que lidar na própria expansão cultural.
E agora surge a pergunta óbvia:, como fazer as pessoas se interessarem pelas produções da Coreia do Sul? A resposta estava nos artistas afro-americanos.
O hip-hop nasceu da história do povo negro, utilizando recursos sonoros e palavras cantadas originárias dos costumes africanos que reproduziram a própria cultura. Esse movimento foi importante para preservar a herança racial da diáspora africana, que foi forçada a ser escrava em outros países.
Como toda arte, o rap e a cultura hip-hop foi se moldando e abriu novas oportunidades para o povo negro se expressar. O processo chegou em um ponto que o gênero se tornou presente no cenário global durante a década de 90 e, como sempre, a branquitude e o capitalismo se apropriaram daquilo que não conseguiram conter e comercializaram.
Então, artistas e grupos feitos por pessoas brancas adotaram o rap e o hip-hop e colocaram uma “pitada” de pop, como o grupo New Kidz On The Block e o solista Vanilla Ice.

Esse movimento mostrou ao público que ser negro era apenas “um detalhe” ao fazer rap, então qualquer um poderia ser rapper, bastava “parecer” um. Além disso, pessoas brancas dentro do gênero eram mais bem recebidas pelo público internacional, o que estimulou cada vez mais o alcance do estilo musical no mundo, mas nem sempre pela perspectiva correta.
O New Kidz On The Block, inspirados em diversos pontos pelos Jacksons 5, ajudou a popularizar os grupos masculinos em escala global e promoveu o interesse pela Motown, que conseguiu atingir o mercado do público branco, e o estilo de trabalho da empresa.
Por sua vez, o k-pop surgiu a partir de uma necessidade econômica, então ele foi idealizado como produto para produção em massa e comercialização, especialmente nos Estados Unidos e Reino Unido. Para isso, eles estudaram o mercado e os negócios estrangeiros para identificar o que deu certo e construíram uma metodologia que viria a se tornar a base da indústria do k-pop.
Com vista no que estava em alta na época — rap, Motown e grupos masculinos —, a Coreia do Sul entendeu o que precisava fazer e o resultado foi um dos primeiros grupos a unir todos os elementos: Seo Taiji and Boys.

O grupo foi formado por Seo Taiji, Lee Juno e Yang Hyun Suk, que se tornou, depois, fundador da YG Entertainment, em 1992.
O grupo criou uma estrutura para todo o k-pop ao mesclar elementos do ocidente e o estilo musical sul-coreano. Pode-se dizer que, por causa deles, por exemplo, os grupos criaram o costume de atribuir funções de vocalistas e rappers para alguns integrantes, devido ao modelo de sucesso que o grupo mostrou ser possível atingir dentro da indústria.
O impacto do Seo Taiji and Boys foi além do gênero musical.
Visualmente, eles adotaram elementos da cultura negra, como roupas largas, correntes de ouro e passos de dança, além de evocar o sentimento de rebelião na juventude — algo forte no rap, tendo em vista que ele foi usado como expressão contra a desigualdade e denúncias do que o povo preto passou e passa.
Isso criou um estilo específico para o k-pop seguir e influenciou uma nova geração de sul-coreanos por meio de pautas similares às que a juventude negra experienciava nos Estados Unidos.
A estética desempenha um papel fundamental para os cantores sul-coreanos se mostrarem como verdadeiros rappers, justamente porque os símbolos usados remetem à negritude. O principal problema é que as tranças, gestualidades, acessórios, roupas e outros itens podem ser vistos como “coisas do rap” que validam e identificam o gênero, mas, na verdade, são traços e símbolos culturais negros que foram usados e legitimados pelas pessoas negras por meio da música.
Ou seja, o hip-hop, tecnicamente, não são as tranças, os dreadlocks ou as roupas largas. Essas características são das pessoas negras, os sujeitos que criaram e desenvolveram o estilo musical.
Por isso, quando os artistas sul-coreanos utilizam desses elementos para se validarem como rappers, eles minimizam as características a apenas ferramentas para o gênero musical, sendo que elas carregam história e cultura também.
Um exemplo disso foi quando o viral de “Water” da Tyla surgiu e, logo, o k-pop absorveu a novidade e tentou replicar.
O LE SSERAFIM, por exemplo, lançou “Smart” que possui sonoridade e estética similar ao hit da sul-africana. Até quando cantam no refrão “I’m a smarter, baby, smarter”, há ênfase no som da letra T em “smarter”, o que torna a palavra mais próxima a “water” e ainda simula o sotaque de Tyla ao falar inglês. Esse ponto é importante, porque o k-pop busca se aproximar do inglês estadunidense nas músicas, então, o esperado seria uma pronúncia similar a “smarRer” e isso não aconteceu na faixa.
Após o fim do Seo Taiji and Boys, a YG desenvolveu novos grupos, como 2NE1, BIGBANG, BLACKPINK e o BABYMONSTER que foram e são influenciados pela cultura negra. A SM Entertainment também aplicou a fórmula aos próprios grupos, dando alguns toques diferenciais, como foi visto no H.O.T e, mais tarde, no NCT127, por exemplo.
A estrutura criada fez com que um mercado se desenvolvesse cada vez mais forte ao ponto do Jay Park, por exemplo, criar uma gravadora dedicada ao gênero do hip-hop e, posteriormente, ao R&B.
Atrás das cortinas
A Coreia do Sul se mostrou para o mundo e se relacionou com as culturas de outros países desde a concepção do k-pop. Além da cultura afro-americana, podemos citar vários símbolos e estilos culturais dos países latinos e africanos também.
Porém, por mais acolhedor que esse movimento possa parecer, ele mascara problemas estruturais de racismo e xenofobia por meio do apagamento dos indivíduos que fazem parte das culturas que a indústria coreana utiliza em suas produções e da reprodução de estereótipos que propagam violências a todo um grupo de pessoas.
Um exemplo disso foi nos anos 2000, quando a SM Entertainment plagiou o trabalho do compositor Micah Powell. Ele relatou que visitou o workshop de composição da SM e escreveu a música “Devil”, que foi dada ao grupo SUPER JUNIOR. Na época, Micah não foi creditado e nem recebeu nada por isso, mas, após divulgar a história, ele recebeu apenas US$200 como compensação pela empresa. Vinte anos depois, Tiffany Red relatou que recebeu US$66 por produzir uma música para o NCT DREAM.
Até mesmo quando Alex Reid entrou no grupo RaNia, tornando-se a primeira mulher negra e estrangeira no k-pop, a sociedade coreana deu poucos avanços na pauta racial.

O que era uma oportunidade de apresentar ao público coreano uma união de diferentes culturas e origens, tornou-se mais uma vez exemplo de exclusão e distinção. Após a entrada da Alex no grupo, ele passou por um reboot e começou a se chamar “BP-RaNia”, sendo o “BP” para “Black Pearl”, em português, “Pérola Negra”.
Alguns podem ver isso como prestígio e destaque para a integrante e, talvez, essa leitura ganharia mais influência se Alex Reid não tivesse sido excluída das participações públicas do grupo em mais de uma ocasião.
Em várias apresentações, Alex simplesmente saía do palco ou ficava em um canto depois de cantar a própria parte, enquanto as outras integrantes continuavam a performance.
Pode-se questionar que talvez fosse porque ela não estava preparada para os palcos ainda, mas prepará-la era responsabilidade da empresa. Se ela não conseguisse, que não a colocassem, pois, ao fazer isso, mesmo não estando apta, reforça que o objetivo da presença dela no BP RaNia era puramente por tokenismo — termo que representa quando pessoas de grupos minoritários são incluídas apenas superficialmente, criando um falso senso de diversidade, sem causar impacto real.
Além disso, Alex era constantemente destacada como a diferente do grupo. Nas roupas e nas fotos de promoções, ela apresentava uma estética diferente das demais, o que torna até mesmo a escolha do nome “BP” mais um fator de exclusão do que necessariamente celebração.
Mesmo em posição de artista com moderada fama, Alex contou em uma entrevista que sofreu racismo na Coreia do Sul quando um taxista mandou ela sair do carro, mesmo ela falando a língua coreana. Esse é um dos vários casos que estrangeiros relatam sobre os tratamentos que sofreram no país. Depois de um tempo, ela saiu do grupo porque aquilo não a deixava mais feliz.
O fator de distinção e categorização do negro não foi exclusivo apenas para Alex Reid. Os símbolos e elementos da cultura hip-hop são colocados de maneiras estratégicas nas músicas, visuais e eras dos grupos do k-pop.
Uma das principais formas que a cultura negra é utilizada no k-pop é para temas que envolvem violência, masculinidade, agressão ou sexualização, perpetuando estereótipos por meio de uma estética.
Um exemplo claro disso foi quando o BTS lançou “No More Dream”.
No clipe, há a atmosfera do hip-hop, com os membros vestindo roupas associadas ao gênero musical, correntes de ouro, bandana, uma camiseta escrita “Notorious Swag (“Swag marcante”, em tradução livre)”, corte de cabelo comum de homens negros e outros elementos. A letra fala sobre se defender e negar os limites colocados pelas gerações mais velhas.
Já em “Danger”, por mais que os outros membros não usem tantos elementos considerados do hip-hop, o Jimin é a figura central que carrega os símbolos da cultura negra. Ele não é o rapper do grupo, mas o uso dos elementos serve para criar o senso de perigo e raiva que a letra demonstra ao cantarem sobre o alvo do eu-lírico estar em perigo por supostamente brincar com ele e torná-lo confuso.
Porém, em “Just One Day”, a projeção de imagem do BTS é outra.
Os membros usam roupas claras e que lembram uniformes de escola, com o objetivo de simular uma imagem juvenil e inocente, que ressoa com a letra. No clipe, não há referência ao rap, pois a atmosfera é outra: amigável, sentimental, inocente.
Então, afinal, , como a Coreia do Sul enxerga as pessoas negras?
Os exemplos acima demonstram, na prática, que a indústria enxerga a cultura negra como uma ferramenta para uma estética específica, o que limita a cultura e as pessoas pretas e exclui a possibilidade da diversidade dentro de todo o contexto. Limitar pessoas e culturas às “caixinhas” do hip-hop cria associações intrínsecas entre as pessoas negras e o rap e, consequentemente, aos fatores atribuídos ao gênero, como violência, agressividade e sexualização, sendo que pessoas negras podem ser quem quiserem.
Isso foi perceptível quando a Wendy, do Red Velvet, chamou a atenção dos fãs internacionais ao representar, ofensivamente, pessoas brancas e negras.
Wendy mostra como mulheres brancas falam, de maneira mais suave e educada, enquanto as negras falam de maneira rude e com gesticulações expansivas. Além disso, os entrevistadores reforçaram o que a cantora fez e ainda disseram que “mulheres negras são assustadoras”, mesmo após Wendy e Seulgi terem apresentado a música “Bang Bang” de Jessie J em parceria com Ariana Grande e Nicki Minaj, uma rapper negra.

Nesse pequeno trecho, é representada de maneira mais simples e visual como a indústria coreana utiliza da cultura negra (apresentação de “Bang Bang”), escolhe os estereótipos para falar sobre as pessoas dessa mesma cultura (“personificação” da Wendy) e os efeitos disso no senso comum (entrevistadores replicando e rindo do racismo do momento, naturalizando-o).
O Mamamoo também se envolveu em controvérsia após apresentar a música “Uptown Funk” do Bruno Mars e se fantasiarem de pessoas negras ao pintarem os rostos com um tom de pele mais escuro, caracterizando o blackface.

O grupo se desculpou após várias críticas dos fãs internacionais, afirmando que foram ignorantes em relação ao tema e que não entendiam as consequências das ações. Um ano antes, Hwasa, membro do grupo, disse a n-word durante um cover de “Irreplaceable” da Beyoncé.
Engana-se quem pensa que apenas grandes casos acontecem.
As reproduções de estereótipos foram bastante naturalizadas no k-pop por meio do jeito “casual” dos artistas falarem e se comportarem. O Mark do NCT 127 e NCT DREAM é, às vezes, acusado por tentar se “comportar como negro”. Em um vídeo, por exemplo, o Ten, membro do WayV, pergunta ao Mark o porquê dele conversar, utilizando o African American Vernacular English (AAVE), que, em português, pode ser traduzido como “Inglês Vernáculo Afro-Americano”. Em resumo, a sigla corresponde ao inglês falado por pessoas afro-americanas que utilizam de recursos linguísticos próprios, originários da própria cultura e história.
A situação fica estranha, mas elucida um problema constante no k-pop: a tentativa de parecer afro-americano. O comportamento é mais perceptível, especialmente, em membros que viveram ou foram criados nos Estados Unidos, como se o fato de serem estadunidenses justifica falarem como os negros.
O NCT 127 já foi criticado pelos usos de dreadlocks e tranças durante alguns momentos na carreira, mas, principalmente, pelo clipe de “無限的我 (무한적아;Limitless)”, lançado em 2017
Em 2021, o grupo ENHYPEN também sofreu acusações após um membro cantar a n-word na música “Love Galore” da SZA. No mesmo ano, Giselle, do aespa, fez o mesmo “incidente” e se desculpou. Jay Park lançou o “DNA REMIX” onde ele e outros artistas coreanos apareceram de tranças e se rechearam de símbolos afro-americanos, mas, ao mesmo tempo, eles alegam que o projeto era para celebrar a identidade coreana.
NewJeans também levantou olhares ao verificar que uma parte da coreografia de “OMG” é similar a de “Creep” do TLC
Em 2025, o Kiss of Life também foi criticado pela live de aniversário da Julie, onde o tema para a festa era “vibe do hip-hop antigo”. Vários problemas foram apontados no momento: as roupas e elementos do hip-hop utilizados de maneira estereotipada, os maneirismos, utilização do AAVE e até mesmo a integrante Belle se apresentado como “Lil Taco Belle”, fazendo alusão aos nomes de rappers.

É importante entender que os casos não foram isolados apenas em comportamentos dos artistas do k-pop. Houve uma industrialização desse tipo de atitude para a comercialização, como pode ser visto nos programas “Show Me The Money” e “Unpretty Rapstar”.

Os dois programas representam o forte desenvolvimento do hip-hop na sociedade coreana, mas ainda reforça estereótipos, como o comportamento agressivo e da utilização AAVE.
Avanços?
Com o tempo, indivíduos negros começaram a ter destaque na indústria do entretenimento sul-coreano.
Han Hyun Min, modelo e filho de mãe coreana e pai nigeriano, ganhou destaque em passarelas e sessões de fotografia para catálogos de moda. Mais tarde na carreira, conquistou espaço na televisão e também em produções audiovisuais.

Outras artistas, como as cantoras Lee Michelle e Yoon Mi Rae também são filhas de pais coreanos e negros e conseguiram se lançar na indústria do entretenimento.

Sam Okyere, de Gana, conquistou fama na Coreia do Sul ao participar de vários programas de entretenimento, depois de se mudar em 2009 para o país em busca da graduação de Ciências da Computação.

A Fatou do grupo BLACKSWAN também se tornou um nome conhecido para os fãs de k-pop.

Porém, não é apenas por pessoas negras terem atingido fama na Coreia do Sul que isso queira dizer que eles não sofram com as violências estruturais. O tokenismo ainda é forte no mundo e é necessário identificar se os destaques estão sendo oferecidos com propósito verdadeiro de diversidade, respeito e celebração ou são apresentados como formas de satirizar e limitar indivíduos negros, como acontecia em Hollywood nas décadas de 40 a 80, mais especificamente.
O k-pop precisa falar sobre
Um dos principais problemas que sempre acontece quando casos como os citados no artigo surgem é o eventual silêncio que acompanha o ocorrido, tanto do lado do artista, quanto dos fãs.
Quando o racismo e os efeitos dele são falados, algumas situações entram em um tipo de limbo criado pela ambiguidade de algumas situações. Não é em vão que muitas pessoas se questionam quando é apropriação cultural e quando é apreciação cultural. O propósito do artigo não é discutir os temas necessariamente, mas eles refletem o quanto a linha entre os conceitos é tênue e é justamente nessa linha que as ações prejudiciais, as pessoas e as empresas que as fizeram conseguem “se safar”.
Falar sobre isso nem sempre é direto e objetivo, pois não é uma equação em que 1+1=2. Envolve informar e discutir as nuances e construções sociais que nos trazem aos contextos de hoje em dia. Todavia, no mundo em alta velocidade que vivemos, as pessoas não param para entender sobre os temas e, consequentemente, encontram conforto em uma ignorância que beneficia apenas quem lucra com isso.
Partindo desse limbo, várias alegações surgem: o artista não sabia ou não tinha a intenção; a culpa é da empresa; eles não possuem conhecimento sobre as pautas. Será mesmo?
A Coreia do Sul é destaque na educação e desenvolvimento, é um país forte em tecnologia e diversos outros estudos. Cada vez mais recebe turistas e residentes de outros países, então eles não são incapazes de estudar e entender as culturas para além das suas e como elas se conectam.
Os próprios fãs negros são silenciados quando pontuam os problemas e são taxados de não-fãs e hipersensíveis, quando não são insultados com racismo.
Qual o caminho, então?
A solução não é proibir o k-pop de fazer rap. Isso seria impossível, especialmente devido à globalização. Porém, é essencial falar sobre o tema e promover diálogos que levem a mudanças práticas. Desde que você começou a consumir k-pop, o que aprendeu sobre cultura negra?
Muitas pessoas podem dizer que nada ou muito pouco.
Isso é um problema, pois, por mais que seja música coreana, as bases ainda são negras e isso tem que ser falado pelos próprios coreanos até como forma de prestigiar uma cultura que eles dizem admirar.
O rap e o hip-hop permitiram que fãs negros de k-pop se identificassem ainda mais com a música coreana. Várias letras de algumas músicas tratam sobre motivação, superar desafios, não deixar que o mundo defina quem você é e outros temas que tocam em locais específicos para pessoas negras, mas que também ressoam com a própria experiência sul-coreana, especialmente no período pós-guerra em que a juventude precisava sonhar em meio a tantas dificuldades.
Os fãs de k-pop também são engajados em pautas relevantes e isso também é efeito do consumo do gênero. Não só pela música em si, mas pelas comunidades criadas a partir disso e que discutem temas relevantes para a manutenção da liberdade em ser e existir conforme a maneira mais autêntica de si mesmo, ao mesmo tempo em que luta pelo direito do outro em ser e existir.
Durante as campanhas de Donald Trump, por exemplo, a comunidade se uniu em prol de denunciar as violências ditas e realizadas pela figura estadunidense. E o trabalho continua.
Além disso, a Coreia do Sul possui as próprias temáticas mais comuns que podem e devem ser discutidas nas músicas também. Temas como o bullying e a busca pela perfeição podem ser encontrados em diversas produções que oferecem ao Ocidente a dimensão do problema que isso é no país. Há espaço para muita colaboração, mas é necessário entender o que torna o rap no k-pop único, ao invés de reproduzir violência contra o povo que deu as fundações para uma das maiores potências da Coreia do Sul, atualmente.
Além disso, é necessário dar os créditos, contratar pessoas negras, falar sobre elas e, principalmente, ouví-las. Sair dos moldes do k-pop e parar e entender o porquê das escolhas e a importância delas, até para fugir da ideia da “estética pela estética”.
Muitos artistas dizem que quem os inspira é Michael Jackson, Beyoncé e outros grandes nomes, mas é necessário que essa inspiração se transforme em valorização e busca ativa pela história como forma de respeito e apreciação.
Park Jin Young, o JYP, disse anteriormente que o trabalho dele foi inspirado pela cena do Motown, mas, ao lançar “Switch To Me”, ao lado de Rain, houve similaridades demais com a música “Every Little Step” de Bobby Brown para chamar de coincidência ou inspiração. Aliás, sem créditos também.
E uma das principais ações que precisam ser tomadas é educar. As empresas precisam urgentemente educar não apenas os artistas, mas todos os profissionais a fim de que a consciência racial seja perpetuada e colocada no destaque de importância que precisa.
Do ponto de vista global, pessoas não-brancas estão no mesmo barco da marginalização e estereotipação que, por mais que sejam diferentes, ainda sim limitam todo um coletivo. Juntos, o trabalho pode ser ainda maior e com mais impacto. Com k-pop no meio, se torna até mais divertido e prazeroso.
A comunidade precisa cobrar ativamente e se posicionar a favor dos seus, pois nada é mais forte do que o poder coletivo.
