No dia 24 de outubro morreu aos 93 anos a Rainha Sirikit da Tailândia. Muito mais do que uma simples monarca, a Rainha foi uma figura muito importante para a valorização e desenvolvimento da cultura tailandesa como conhecemos hoje. Assim, sua partida marca a perda não apenas de uma personalidade monárquica, mas de uma importante figura na luta pela cultura tailandesa, seja nacionalmente, seja internacionalmente.

Filha de um príncipe, militar e embaixador, Sirikit recebeu o melhor que a educação poderia oferecer, tendo estudado música, arte, literatura e outros idiomas. Ainda na juventude conheceu Bhumibol, antigo Rei da Tailândia, aos 17 anos, com quem se casou poucas semanas antes da coroação.

Como Rainha da Tailândia, Sirikit deixou um legado importantíssimo para o país, tendo contribuído para a construção da imagem internacional do país numa época em que a expressão “soft power” provavelmente nem existia. Usando sua relevância e poder, Sirikit investiu no artesanato local de seu país, tanto para mudar a imagem pública quanto para valorizar a identidade cultural dentro da Tailândia.

Os grandes feitos de Sirikit

Entre suas grandes contribuições podemos destacar o desenvolvimento interno e divulgação mundial dos trabalhos manuais tailandeses. A Rainha Sirikit, a partir de viagens pela Tailândia, com sua majestade o Rei Rama IX, percebeu nas habilidades manuais uma possibilidade de melhorar a difícil vida da população rural, dando início a Fundação SUPPORT (sigla em inglês para “Foundation for the Promotion of Supplementary Occupations and Related Techniques”), em 1976.

A fundação visa auxiliar no desenvolvimento e preservação das artes e ofícios da cultura tailandesa, auxiliando na renda suplementar de famílias inicialmente sem terras e com numerosos membros, oferecendo a grupos de mulheres locais treinamento, equipamentos e materiais locais na produção de artesanatos de alto padrão.

Sempre me orgulho de que todo tailandês tenha o sangue de um artesão. Tudo o que precisam é de uma oportunidade para aprender e mostrar suas habilidades.

Rainha-Mãe Sirikit

A empreitada gerou mais de 150 centros de treinamento por toda Tailândia, os quais visam ensinar várias habilidades artesanais, desde cestaria, talheres em ouro e prata, entalhe em madeira, confecção de flores artificiais, desenho e pintura, a bordado manual, costura, e tecelagem de seda.

Por meio de suas aparições públicas, por exemplo, ela promovia uma imagem de modernidade e elegância para o seu país ao usar roupas feitas de seda tailandesa, tecida de forma artesanal por diferentes comunidades, o que levou a ser conhecida como embaixadora da seda tailandesa. Ela ainda criou outros diferentes projetos de incentivo a valorização de artes e ofícios tradicionais do país, como o Museu de Têxteis Rainha Sirikit.

Outra área de trabalho que a tornou bastante conhecida foi seu trabalho humanitário. A Rainha Sirikit promoveu diferentes projetos sociais que visavam o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida de comunidades locais para homens, mulheres e crianças. Entre eles, foi responsável por auxiliar numa maior tolerância e compreensão para as minorias muçulmanas, que se localizam em províncias do sul do país.

Na área ambiental, a Rainha-Mãe também foi responsável por promover diferentes projetos, visando a preservação ambiental. Um exemplo é o Jardim Botânico Rainha Sirikit (QSBG), fundado em 1993, que além de auxiliar na preservação de espécies nativas da Tailândia, também é um centro de pesquisa e estudo para cientistas da área.

O Rei é a água, eu serei a floresta, a floresta que oferece lealdade à água. O Rei cria reservatórios, e eu criarei florestas.

Rainha-Mãe Sirikit

Também preocupada com a perpetuação da história tailandesa ao seu povo, foi a financiadora de um dos filmes mais caros já produzidos no país. O longa “A Lenda de Suriyothai“, de 2001, foi inicialmente idealizado pela Rainha, que escolheu a dedo o diretor Chatrichalerm Yukol e o especialista em história tailandesa, Sunait Chutintaranond, para desenvolverem o roteiro e a produção. 

O longa, que se passa no século XVI, conta a história da Rainha Suriyothai que casa com um homem que não ama para evitar uma guerra, mas acaba tendo que lidar com a manipulação política e tentativas de usurpação do trono. O filme foi, até 2013, o longa de maior bilheteria da Tailândia, com cerca de $ 14 milhões de dólares arrecadados.

A obra que originalmente teria 8 horas de duração, foi encurtada para 5 horas numa versão exclusiva em box, tendo na versão comercial nacional apenas 185 minutos, no entanto, a versão vendida ao exterior, foi editada pelo famoso cineasta Francis Ford Coppola que reduziu para 142 minutos.

Desta forma podemos entender que a Rainha Sirikit deixou um legado inspirador. Além de ser a Rainha de mais alta patente do país, a segunda Rainha Regente e ter pertencido ao reinado mais duradouro da Tailândia.

Quando se fala da Rainha-mãe, seu maior destaque como monarca foram suas ações em prol da cultura de seu país e do desenvolvimento do seu povo. Sua importância para a Tailândia é tanta que seu aniversário, 12 de agosto, é feriado nacional e é a data na qual se comemora o Dia das Mães no país.

Repercussão da perda da Rainha Sirikit

Com o anúncio da morte de Sirikit no último mês, ocorreu grande comoção nacional. A Família Real permitiu que por 15 dias os civis enlutados poderiam prestar homenagens à Rainha-Mãe. Para isso, um salão de espera foi preparado para receber a população que prestaria as homenagens, o que contabilizou só no primeiro dia um total de mais de 8.300 pessoas.

Também foram estabelecidos protocolos de vestimentas adequadas para a solenidade, o que fez o primeiro Ministro emitir um comunicado que se fosse comprovado o aumento do preço de roupas pretas no período, o comércio em questão seria severamente punido por tentar realizar ganhos adicionais com os ritos fúnebres. Além disso, várias organizações nacionais e internacionais também enviaram suas homenagens, mostrando o tamanho carinho que tinham por ela.

No geral, alguns ritos fúnebres foram decretados. Entre eles, o luto oficial de um ano para a Família Real e os funcionários da corte, bem como que a urna real com os restos reais seja colocada ao lado do seu falecido marido, o Rei Bhumibol.

Outras máximas decretadas, constavam que as bandeiras tailandesas ficassem a meio mastro pelo período de um mês. Já no meio do entretenimento, foi solicitado que a indústria da área e as organizações de eventos públicos cooperem em realizá-los com solenidade e respeito no período de luto nacional.

Muitos podem não ter noção da importância e do envolvimento que a realeza tailandesa tem com a população, no entanto, dentro da cultura tailandesa, a família real é vista com muito respeito e carinho, por tudo que fez e ainda faz pelo desenvolvimento e pela preservação da história da Tailândia.

Desta forma, a perda da Rainha Sirikit realmente não é a despedida de uma simples monarca, mas a despedida de uma Rainha que, de fato, foi mãe de seu povo e de sua história.

Rainha-Mãe Sirikit da Tailândia