Chega ano novo e, com ele, um novo Season’s Greetings do seu grupo favorito.
O tradicional produto compila vários itens dentro do pacote. Os mais comuns são: calendário, diário, adesivos, photo cards e outros brindes. Porém, o que antes era para ser algo celebrativo, tornou-se uma decepção para os fãs do grupo aespa e do RIIZE, ambos da SM Entertainment.
Os Seasons’s Greetings dos outros grupos da empresa custam 49.000 won (R$183,64), enquanto os dois grupos citados chegaram a 129.000 won (R$483,45). A diferença do valor colocou em xeque a relação da empresa com os fãs, com alguns acusando a SM de testar “até onde os fãs vão” e promovendo uma reflexão sobre valor sentimental e dinheiro dentro do k-pop.
O que é o Season’s Greetings?
A origem do termo “season’s greetings” é desconhecida, mas ele apareceu mais constantemente no Natal e é usado como um equivalente ao tradicional “happy holidays (boas festas)”.
Para o mercado, o termo marca o início dos períodos festivos e as vendas sazonais para os meses do final do ano.
No k-pop, o termo ganhou mais uma camada e se tornou tradição anual para as empresas, artistas e fãs.
Por volta de outubro até dezembro, os grupos lançam as próprias versões do Season’s Greetings, que é um pacote com variados brindes comemorativos para o novo ano, tornando o período altamente esperado pelos fãs. Alguns fazem versões premium com itens a mais de modo a sempre instigar o público sobre quais as novidades desse novo ciclo.
Os brindes comuns são, geralmente, calendários, diários, cartões postais e photo cards exclusivos, que se atualizam a cada ano de modo que os fãs possam celebrar o espírito festivo e ter símbolos que lembram os idols durante os meses.
A vantagem do Season’s Greetings é que ele não depende de uma era promocional para ser lançado, ou seja, o grupo não precisa ter lançado músicas novas para lançar o pacote sazonal. Isso possibilitou que ele se tornasse algo fixo todo ano.
Além disso, a temporada de vendas estimula a importância dos itens serem limitados, por meio das vendas antecipadas e conteúdos exclusivos do pacote, que criam o senso de urgência, baseado na emoção, e fomenta a compra.
Qual o problema?

Com o início das vendas, a SM Entertainment anunciou os pacotes dos grupos da empresa, mas os valores do aespa e do RIIZE chamaram a atenção por fugir do esperado pelo público, com base em como foi nos anos anteriores.
Ambos foram intitulados como versões premium. O do aespa inclui 18 itens, como colar, bolsa jeans e um pôster grande de tecido:

Enquanto o do RIIZE há bonecas de papel e vídeo exclusivo:

Uma possível explicação para a alta do preço do RIIZE pode ser devido ao cancelamento dos shows do grupo nos Estados Unidos. Após a saída do Seunghan, o grupo sofreu alguns boicotes e teve alguns cancelamentos de performances, o que gerou prejuízo financeiro. Portanto, o Seasons Greetings pode ter vindo para suprir os valores no vermelho.
Outra explicação é a quantidade maior de itens dentro do pacote, mas mesmo assim o público criticou o valor, pois alegam que vai contra o espírito inclusivo que a tradição construiu.
No ano passado, outros grandes grupos como TWICE, Seventeen, IVE e Stray Kids venderam os Season’s Greetings por cerca de 45.000 won (R$168,65) e incluíam o calendário de mesa, diário, adesivos e photo cards. As versões premium que possuíam DVDs ou produtos exclusivos não passavam 100,000 won (R$374,77).
Além disso, os pacotes de Seasons Greetings 2026 dos outros grupos da mesma empresa, como NCT 127, NCT DREAM, SuperJunior e Girls’ Generation, ficaram na faixa de 49.000 won (R$184,51) e Hearts2Hearts 55.000 won (R$207,01), mostram a grande diferença entre os valores.
Segundo a Korea Times, analistas do mercado identificaram que o debate em cima do valor do kit de brindes evidencia a fragilidade do valor emocional no k-pop e ainda realçaram que quando se força demais algumas situações o sentimento da celebração se perde e se torna mais transacional.
Ha Jae Geun, crítica de cultura, pontuou que é importante que as empresas não explorem a lealdade dos fãs para lucro, enquanto os fãs precisam ser mais conscientes sobre o consumo.
Está errado?
O resumo da situação é: desapontada, mas nada surpresa. K-pop é uma indústria e se apresenta como uma, desde a concepção das empresas, até a maneira como os grupos e idols são lançados. Tudo evidencia que há uma marca por trás pensando estrategicamente em cada passo.
Com o Season’s Greetings, não seria diferente. O marketing necessita do emocional para amplificar as vendas e aumentar os lucros, portanto, no k-pop não seria diferente. A ideia do sistema mercadológico é capitalizar as interações e emoções humanas de modo que vire lucro no final.
Entretanto, isso não tira a genuinidade do colecionismo. Adquirir produtos do seu artista favorito deve ser celebrado e reconhecido como um agrado a si mesma, pois é um dos vários símbolos que compõem o que se chama de “tribos urbanas”, termo desenvolvido pelo sociólogo francês Michel Maffesoli.
As tribos urbanas são formações de pequenos grupos sociais nas sociedades contemporâneas que se unem por causa das afinidades emocionais, estéticas, culturais ou de estilo de vida.
Geralmente, há a integração entre consumo e estética e as comunidades de k-pop, que se afunilaram nas comunidades de fãs bases de artistas específicos, constroem os próprios signos e simbologias que, muitas vezes, se manifestam em forma de produtos para promover uma imagem de si mesmas. Portanto, adquirir itens também é uma forma de se sentir parte de algo coletivo. O problema principal é a exploração em cima de algo que deveria ser prazeroso e sentimental.
O envolvimento das empresas nesse processo, frequentemente, ignora que há questões que não podem ser mensuradas em termos de dinheiro. Partindo do pressuposto de que alguns itens são “premium”, eles encontram uma brecha para justificar um valor exorbitante por algo que, muitas vezes, deveria ser o básico de um produto. Além disso, estrategicamente, nem sempre é viável.
Ser fã é fazer parte de uma comunidade. Quando há elitização do acesso a essa comunidade, é negativo para a empresa também, pois, em uma situação hipotética e simples, o possível fã poderá encontrar outro grupo que ele consiga acompanhar e fazer parte da rede que o sustenta, se munindo dos produtos mais acessíveis que são símbolos de identificação — desde broches até álbuns.
Portanto, a pergunta que fica é: quem sai ganhando nessa “hiper precificação” no k-pop?
Com certeza, há pessoas que comprarão os pacotes, mesmo os mais caros, mas eles são suficientes para sustentar a comunidade que fortifica o grupo e, consequentemente, a empresa?
Vale ressaltar que o problema da precificação não é exclusivo do k-pop. Artistas, como Taylor Swift, tem cada vez mais lançado várias versões de álbuns com poucas diferenças entre si, mas que acabam conseguindo mais lucro a partir da venda deles, uma vez que os streamings não conseguem dar tanto lucro para os artistas e empresas.
Apesar disso, adquirir mídias e produtos físicos atualmente é uma maneira de se assegurar que aquela produção é sua de fato. No mundo de streamings em que vivemos, há o risco de que tudo o que consumimos se vá. Basta a empresa fechar as portas e todas as músicas salvas no Spotify, por exemplo, vão embora com ela, mesmo você pagando uma assinatura todo mês.
Por isso, adquirir itens dos ídolos é divertido, importante e, arrisco dizer, essencial para construção de legado do próprio artista. Permitir o acesso, é o que garante longevidade. Então, estipular preços exorbitantes em cima de itens emocionais pode ser um ”tiro no pé” das empresas de k-pop.
