“No Other Choice” teve estreia no Brasil com a 49° Mostra de Cinema Internacional em São Paulo, e seus foram ingressos esgotados em poucas horas nas três sessões disponibilizadas, dos dias 23, 25 e 29 de outubro. Além disso, vale lembrar que o longa é a aposta da Coreia do Sul para o Oscar em 2026. 

No filme, acompanhamos a história de Man Soo (Lee Byung Hun) que após trabalhar por 25 anos em uma fábrica de papel, é demitido devido à uma reestruturação no local. Entretanto, para o protagonista, essa situação ultrapassa o desemprego. Ainda que não enfrente a pobreza e siga com alguns privilégios, esse ocorrido simboliza a quebra de todo o status e sucesso que um dia ele pensou ter conquistado.  

Para Man Soo, o longo tempo dedicado trabalhando na área faz parte da essência que o habita, realmente não há outra escolha a não ser proteger sua ilusão de dignidade e superar a humilhação a qual foi submetido. Assim, como é dito várias vezes ao longo do filme, na busca de eliminar a concorrência, ele trava uma verdadeira guerra para “salvar” a família, e a si mesmo. Dessa forma, o vemos se reinventar e renascer em um lado muito mais sombrio.

Para desenvolver essa narrativa, o diretor Park Chan Wook usou da comédia de forma brilhante, diminuindo e aumentando a tensão das cenas o tempo todo, tendo sempre uma carga de humor sombrio. Um exemplo disso é o jeito meio atrapalhado de Man Soo, que persiste mesmo enquanto ele está planejando um ato brutal. Não se trata de um personagem agressivo, mas sim, alguém capaz de se mostrar levemente envolvido com os sentimentos dos “rivais”, que também enfrentam questões como depressão e alcoolismo causados em decorrência do desemprego. 

Também, o filme nos aproxima dos outros personagens e das tramas pessoais de cada um, como Mi Ri (Son Ye Jin), esposa de Man Soo. Conforme a narrativa se desdobra, vemos como ela tenta lidar com o desemprego do marido, buscando uma forma de cortar os gastos, como o possível cancelamento da conta na Netflix. Junto disso, percebemos a angústia em Mi Ri quando começa a suspeitar das atitudes de Man Soo, tentando compreender de alguma forma toda a situação.

Os filhos do casal, Ri Won (Choi So Yul) e Si Won (Kim Woo Seung), também deixam os sentimentos evidentes para os espectadores. Ri Won se comunica repetindo frases ditas pelos outros e tocando o violoncelo, e as músicas tocadas pela menina fazem parte da trilha sonora de diversas situações do filme, sendo um espetáculo à parte, aumentando o ritmo das cenas ou deixando-as mais emotivas. Por outro lado, Si Won é um adolescente preocupado com a situação financeira em que a família se encontra, o que o faz tentar pensar em soluções para poder oferecer alguma ajuda aos pais. Assim, presenciamos as formas com que a angústia se manifesta em cada um dos personagens, o que deixa a narrativa ainda mais completa. 

Quanto a parte técnica, a fotografia é um ponto de grande destaque para o longa, mostrando transições criativas, somadas às cores que se destacam de diversas formas nas situações vividas pelos personagens, e se tornam mais frias e escuras conforme o desespero de Man Soo aumenta. O diretor brinca com diferentes ângulos, que somados à trilha sonora, deixam o filme ainda mais envolvente e nos vemos ansiosos para desvendar o fim que as ações de Man Soo irão trazer.

O longa, sendo uma adaptação do livro “The Ax”, que já havia ganhado uma versão no cinema feita pelo francês Costa-Gavras (“O Corte”, 2005), para quem Park Chan Wook deixou uma dedicatória, nos faz refletir a respeito do capitalismo predatório, que insiste em mostrar que tempo é dinheiro, e sem ele não há acesso. 

Enquanto Man Soo busca uma forma de não deixar sua vida desmoronar, percebemos como o mercado de trabalho se mostra cruel e ecoa a pergunta: Se o trabalho dignifica o homem, como aponta Weber, o que o desemprego é capaz de fazer? 

Apesar das comparações com “Parasita”, de Bong Joon Ho, “No Other Choice” tende muito mais para a reflexão de até onde um indivíduo é capaz de ir para manter os privilégios e luxos em um sistema que segue mostrando que ninguém é insubstituível. Nesse sentido, a resposta de Park Chan Wook é uma sátira, na qual não há uma resolução moral simples, não existe a redenção do personagem principal, acabamos o filme em um dilema enquanto tentamos não torcer pelos dois lados da história. Com isso, Park entrega uma mistura perfeita entre humor, suspense e toques de drama.

Rimos de nervoso o tempo todo, com uma comédia sufocante e envolta em uma verdadeira sinfonia de sentidos e questionamentos. No fim, saímos nos perguntando “será que realmente não havia outra escolha?”

10/10

No Other Choice

Título original: 어쩔수가없다

Ano de lançamento: 2025

Direção: Park Chan Wook

Elenco: Lee Byung Hun, Son Ye Jin, Lee Sung Min, Yeom Hye Ran

Duração: 139 min.