Após 2 anos o Japão volta a ter uma obra entre os indicados ao Oscar. Na edição de 2026, o país tem um representante na categoria de “Melhor Maquiagem e Penteado”. Sucesso de bilheteria no Japão, que ultrapassou os ¥20 bilhões de ienes, “Kokuho: O Preço da Perfeição” chegou aos cinemas brasileiros em 5 de março.
Dirigido por Lee Sang-il e roteirizado por Okudera Satoko, o longa que se baseia num romance homônimo de Shuichi Yoshida, se tornou o filme não animado mais assistido de todos os tempos do Japão.
A trama acompanha o jovem Tachibana Kikuo (Yoshizawa Ryo) que após a morte de seu pai, líder de uma gangue da yakuza, torna-se aprendiz de um ator Kabuki e está determinado a enfrentar tudo para se tornar o melhor do país.

O Kabuki é uma forma de teatro japonês tradicional com mais de 400 anos de história, sendo considerado, desde 2008, Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO. Essa arte é caracterizada por mesclar dança, música, mímica e atuação, se destacando por seus figurinos e maquiagens bastante elaborados e estilizados.
O que justifica a indicação do longa ao Oscar. A maquiagem característica do Kabuki simula uma máscara, na qual os atores tornam-se irreconhecíveis e o figurino é extremamente elaborado, composto por várias camadas de kimonos.
Quanto à origem, o Kabuki surgiu com um grupo de mikos (sacerdotisas) que passaram a apresentar danças dramáticas ao público. Logo as apresentações fizeram sucesso, mas o teor sensual e erótico desses espetáculos fizeram com que as mulheres fossem proibidas de atuarem.

Os homens jovens passaram a assumir os papéis femininos das apresentações de Kabuki, conhecidos como onnagata. Entretanto, eles também foram proibidos de atuarem devido ao teor erótico. Portanto, os homens adultos ficaram responsáveis por representar os papéis femininos e masculinos.
Com o passar dos anos, o teatro passou por diversas adaptações até alcançar a estrutura pelo qual ficou conhecido. Em “Kokuho” é possível ter uma ideia de como é esse Kabuki, principalmente para os onnagata. É nesse contexto que os protagonistas do filme são submetidos a treinos rigorosos e intensos desde a infância para alcançarem as poses, a entonação da voz e a dramatização necessárias.

O longa que tem duração de quase três horas, explora para além das dificuldades de preservar e perpetuar o teatro Kabuki, pois reflete sobre o quão fechado era o teatro, ao mostrar a ligação dos grupos teatrais com o favoritismo baseado em sucessões hereditárias, para herdar as posições e títulos de papeis de destaque nas peças.
Assim, ao acompanhar a trajetória do protagonista em “Kokuho”, vemos o quão obcecado pela atuação e pela arte ele é e tudo o que está disposto a sacrificar para alcançar o sucesso, por mais vazio que o topo possa ser. Também é possível perceber o quão prestigiados são os atores Kabuki e quão tradicional foi esse ofício para a sociedade dos anos 1960 e 1970.

Neste ponto, vemos as contradições do Kabuki e da sociedade que o formou: enquanto homens eram prestigiados e honrados por interpretarem mulheres (onnagata), estas por sua vez viviam à margem, ignoradas e silenciadas por esses mesmos homens, mesmo sendo as precursoras dessa arte.
Apesar das três horas de duração assustarem, “Kokuho” está muito longe de ser uma produção enfadonha e consegue capturar a curiosidade e a atenção do telespectador. A obra é densa e cheia de significado, seja pela relevância histórica do próprio teatro Kabuki, seja pela jornada pessoal do protagonista. Assim, vale a pena ir aos cinemas prestigiar essa incrível obra de arte.



