A mídia sempre teve grande poder de influenciar as pessoas a consumirem e terem desejo por uma realidade de vida parecida com as dos programas de TV e filmes. Durante o período pós-Primeira Guerra Mundial, os Estados Unidos investiram pesado em propagandas que repercutiam o “American Way of Life”, ou estilo de vida americano, oferecendo para o mundo uma realidade manufaturada de país, que contrastava com as crises econômicas e sociais vividas. 

Essa família “margarina”, majoritariamente representada como branca, tradicional e rica, era a meta para muitos imigrantes que enxergaram nos Estados Unidos uma oportunidade de vida melhor, muitas vezes longe de pobreza e guerras. Mesmo anos depois, Hollywood, utilizando seu poder como uma das maiores indústrias cinematográficas do mundo, resolveu abraçar isso de vez, mantendo essa fantasia até hoje, como no começo dos anos 2000, que nos vendia uma ideia de ensino médio perfeito, com bailes, quarterback e líderes de torcida. 

Esses símbolos, mesmo que inconscientemente, ficam na nossa cabeça, não é à toa que muitas pessoas desenvolveram uma vontade de ir para os Estados Unidos e achar o príncipe ou princesa encantado, e, é claro, que o green card que possibilitaria ser um cidadão americano não seria uma má ideia, né? A prova disso é o sucesso da franquia de reality shows de “90 dias para casar” do canal Discovery Home & Health, que mostrava a relação amorosa entre estadunidenses e alguém de fora, que só seria aprovado se passassem por esses três meses de teste. 

Entretanto, a realidade hoje em dia é diferente. Com a popularização do k-pop, dos k-dramas pelos serviços de streaming e pela facilidade de acesso a conteúdos do outro lado do mundo por meio da internet, hoje em dia o sonho são os “Oppas” e não os quarterbacks. A onda Hallyu, ou seja, o investimento em cultura da Coreia do Sul, se tornou uma das grandes potências mundiais e, com isso, foi desenvolvido em muitas pessoas o sonho de morar na Coreia. 

Não há problema nenhum em ter o sonho de conhecer outro país por coisas das quais somos fãs, eu mesma sonho em conhecer vários lugares por causa de séries e filmes que vi. O problema é quando isso se torna uma fetichização de uma etnia. Recentemente, a mídia tem denunciado diversos casos de mulheres que caem em relacionamentos abusivos com homens coreanos por irem atrás de um Oppa de k-drama.

K-Drama Date SP

A realidade não é uma novela. Em sua maioria, a Coreia do Sul é considerada um país conservador, principalmente seus homens, um dos principais motivos pelos quais as mulheres coreanas têm preferido ficar solteiras e a taxa de natalidade do país ter números preocupantes. É preciso tomar cuidado, se nem as mulheres de lá aceitam esse tipo de relacionamento, por que uma mulher do Brasil, de cultura totalmente diferente, deve aceitar? 

Porém, essa fetichização tem outro lado, o das pessoas que não podem ir para a Coreia, mas mesmo assim querem seu Oppa. Diversos influenciadores masculinos asiáticos, sem citar nomes, aproveitam disso para fazerem conteúdos para um público predominantemente feminino consumir. Parece que o único talento é ser descendente de asiáticos. 

Foi assim que um desses tipos de iniciativa tomaram a atenção da internet na semana passada, o K-Drama Date SP, que aproveita a grande concentração de fãs de cultura asiática em São Paulo, vide o movimento ininterrupto de bairros como Bom Retiro e Liberdade. 

Este suposto golpe promete te fazer “Reviver a Magia dos K-Dramas com seu Oppa!” e vende quatro pacotes diferentes de atividades para se fazer com seu amado coreano em São Paulo, com as reservas feitas pelo Whatsapp. O primeiro é o “Romance no Parque” que promete te levar numa caminhada pelo parque Ibirapuera em clima romântico, com direito a fotos e sussurros de frases famosas de k-dramas no ouvido. 

O segundo é o “K-BBQ Experience” com um churrasco coreano feito e servido na sua boca pelo Oppa e, claro, não podemos esquecer do vídeo digno de cena de novela. O terceiro é o “Sweet Oppa Café Tour” com passeio por cafés coreanos no Bom Retiro ou na Av. Paulista, com degustação de tteokbokki e bingsu, além de sessão de fotos.

Por último, mas não menos importante, a “K-Experiência Íntima”, um encontro íntimo com o Oppa em motel ou na residência dele, com direito a massagem sensual e clima romântico, música e relaxamento, um momento exclusivo só para você. Para quem não sabe, isso pode ser considerado uma prática de prostituição. 

Tudo no website do K-drama Date SP, que continua ativo no atual momento de escrita desta matéria, é muito suspeito. Desde os depoimentos das supostas clientes, todas mulheres com idades que variam entre  23 e 45 anos, até o “oppa gringo bonito”, como ele se autodescreve, que nas fotos disponíveis no site utiliza fotos questionáveis.

Não queremos afirmar nada, mas é muito suspeito que no site Zula, em uma matéria de 2018 sobre alugar oppas coreanos por um dia, tenha fotos parecidíssimas ao do K-drama Date SP, sendo alteradas com uso de inteligência artificial. Deixaremos nossos leitores serem os juízes dessa informação.

A foto à direita é a oficial e está disponível no site Zula e a da esquerda é um suposto encontro do K-drama Date SP (Foto: reprodução)

E agora?

O Consulado Geral da República da Coreia no Brasil se pronunciou nas redes sociais condenando os encontros pagos de natureza íntima, solicitando que caso alguém tenha eventualmente sido vítima ou saiba de alguma informação que ajude nas investigações, que entre em contato com o e-mail institucional: [email protected]

Esse caso abre mais uma vez os olhos da população sobre supostos golpes e estelionatos mediantes a paixão de algumas pessoas para com a etnia asiática. Anteriormente, em 2019, uma mulher do Brasil diz ter depositado dinheiro para o ator coreano Park Bo Gum, por ter o conhecido nas redes sociais, o que se provou falso posteriormente. 

É preciso repensar sobre a fetichização e como não gostaríamos que nos vissem apenas como corpos latinos e imigrantes quando visitamos outros países, principalmente o corpo feminino, logo não devemos fazer o mesmo com ninguém. Além disso, é necessário acabar de uma vez por todas com a idealização do homem ou oppa perfeito, existem pessoas boas e ruins em qualquer país, até mesmo no mundo dos k-dramas.