As posições fixas eram tradição no k-pop. O “main rapper” ou o “main vocal” representavam o membro destaque em uma habilidade específica, permitindo que o público identificasse “quem era quem” ao ouvir uma música ou assistir uma apresentação e perceber que, de fato, o membro que dançava melhor era o “main dancer”.
Além dessas categorias, surgia, esporadicamente, um artista considerado “all rounder”, ou seja, um idol que era excelente em todas as principais posições: canto, rap e dança.
Porém, o k-pop mudou. Descobriram-se novos estilos, replicaram-se fórmulas de sucesso, vários grupos estrearam, a média da idade de debut diminuiu e as posições se tornaram cada vez mais esquecidas, mas algo persiste: o conceito de “all rounder”.
As posições fixas e os “all rounders”

Antigamente, os membros de um grupo eram categorizados em diferentes funções principais:
- Main vocal: o vocalista principal. É o artista que possui um timbre excelente, controle vocal formidável e expressa emoção pela melodia.
- Main rapper: é aquela pessoa conhecida por ter um flow único, transitar por diferentes estilos de música, mantendo a alta qualidade, e, por vezes, conhecida por escrever as próprias letras.
- Main dancer: é o idol que dança melhor no grupo, ganhando destaques em breakdances e no centro dos refrões.
- Visual: a pessoa mais bonita do grupo, segundo os padrões coreanos. A função no grupo é ser a vitrine e, geralmente, possui mais destaque nos videoclipes e aparece mais em campanhas de marcas.
Ainda, há as posições secundárias, escritas com a palavra “lead” antecedendo elas, como “lead vocal”, “lead dancer” e “lead rapper”. O foco é prestar apoio ao main do grupo, intercalando versos, fazendo adlibs ou sustentando outra parte da música.
Por fim, o “all rounder” é o artista que se sobressai nas três categorias principais. Quando ele canta, canta extremamente bem. Quando faz rap, entrega as melhores linhas. Quando dança, arranca suspiros. Um ótimo exemplo é o Woodz!

Para ser “all rounder” é necessário que o idol tenha se apresentado nas categorias mencionadas mais de uma vez. Não é um título dado por um verso bem feito em uma música. É um conjunto de habilidades que se mostra consistentemente na carreira do artista.
O atual contexto do k-pop
O cenário contemporâneo do k-pop possui as próprias particularidades. Se antes víamos vozes e personalidades distintas dentro de um grupo, o que a indústria busca atualmente é padronização, mesmo que seja a custo da qualidade artística.
Isso não quer dizer que os idols sejam menos talentosos. O que a situação de fato mostra é que as empresas buscam tornar a escuta das músicas dos grupos o mais fácil possível, pois o consumo se torna mais comum e a população de massa adota a proposta facilmente o que, consequentemente, gera lucro.
É a mesma lógica do Tik Tok ou Reels: você consome o que é familiar, o que te faz assistir vários vídeos e nem perceba quanto tempo se passou. O cérebro gosta do que é familiar e tende a consumir mais do que já conhece pela facilidade e falta de surpresa no que se apresenta.
Theodor Adorno e Max Horkheimer, pensadores da Escola de Frankfurt, já diziam na década de 80 que dentro da Indústria Cultural que vivemos, a arte tem a função de ocupar o tempo de lazer do trabalhador, eliminando o tempo de reflexão sobre a própria realidade. Em “Fetichismo da Música e a Regressão da Audição”, Adorno também fala sobre a redução da habilidade das pessoas de experienciar uma obra de arte. No campo da música, a regressão auditiva representa o momento em que o indivíduo aceita ouvir apenas aquilo que ele não ouve exatamente. Ou seja, algo mais “fácil”, pois, caso precise prestar atenção, o processo se torna insuportável.
Ao pegar os conceitos e aplicar na maneira como a indústria do k-pop vem se organizando nos últimos anos, é perceptível como eles querem cada vez mais tornar a música algo fácil de ser consumido e uma das estratégias é causar a menor diferenciação sonora possível.
No reality que compôs o grupo Santos Bravos, por exemplo, a representante da Hybe eliminou o Priano, um dos participantes, devido à personalidade, ao estilo, que destoava dos demais, apesar de ser singular, e à voz, que possuía um timbre muito específico, mas, ainda assim, prazeroso. Ela justificou que ele se daria melhor em carreira solo.
Com isso, enxerga-se uma padronização de estilos e voz que elimina as posições fixas no k-pop. Se não há uma voz distinta o suficiente para ser a principal, por que se preocupar em definir alguém como “main vocal”, então?
O debut de idols mais jovens beneficia e alimenta esse processo, uma vez que muitos ainda não se desenvolveram como cantores, rappers ou dançarinos completamente e, assim, se tornam mais maleáveis para as empresas os formarem como bem entenderem, mesmo que signifique sufocar os talentos.
Ainda existe idol “all rounder”?

As discussões sobre a qualidade de um artista variam. Gostos são subjetivos, apesar de caber discussões, mas é importante compreender que para alguém ser um “all rounder” é necessário se apresentar com qualidade no que se propõe. Não é ser mediano em algo e excelente em outro ponto. É ser um ótimo profissional nos principais pilares artísticos dos grupos: canto, rap e dança.
A falta de posições fixas permite que os membros de um grupo possam transitar em diferentes cenários e explorar mais de si mesmos, mas, ao mesmo tempo, impossibilita a especialização no que eles podem fazer de melhor.
Então, em um contexto de padronização estética e vocal no k-pop (eliminando as exceções, claro!), é difícil indicar os idols que se destacam nas três categorias. Quando algum artista é colocado nessa posição, é preciso se questionar se isso de fato tem fundamento nas habilidades ou se é mais uma estratégia de marketing para atribuir uma qualidade a alguém que não merece. Idols all rounders fazem tudo, mas fazem bem feito.
